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Pernambuco

21/08/2015


Quem precisa de dentista sabe que precisa

Saúde do sorriso » Quem precisa de dentista sabe que precisa Pesquisa da Fiocruz/PE desfaz ideia preconcebida de que a população de baixa renda ignora que precisa de tratamento odontológico. O grande desafio é atender esta necessidade

 

 

Entusiasmado com os resultados, Rafael Moreira diz que a primeira grande vantagem do levantamento é dar voz aos pacientes e não apenas tratá-los como agentes passivos. Foto:Maira baracho/DP/ D.A.Press  
Entusiasmado com os resultados, Rafael Moreira diz que a primeira grande vantagem do levantamento é dar voz aos pacientes e não apenas tratá-los como agentes passivos. Foto:Maira baracho/DP/ D.A.Press

 

 

Quando alguém diz que precisa de tratamento odontológico, será que realmente precisa? De acordo com a pesquisa “A validade da necessidade autorreferida de tratamento odontológico” conduzida pelo Grupo de Estudos em Saúde Bucal (Gesb) da Fiocruz Pernambuco, sim. O estudo, inédito, entrevistou e, posteriormente, avaliou clinicamente 2.669 adolescentes, adultos e idosos – no Recife, em Moreno e Itapissuma – para tentar validar a percepção da população sobre sua saúde bucal e revelou, entre outras coisas, que os indivíduos de renda e escolaridade mais baixas e os homens tendem a concordar mais com o diagnóstico do dentista.

A pesquisa mostrou que mesmo quando os pacientes não têm conhecimento profundo sobre os problemas bucais, conseguem discernir e ter uma noção sobre sua própria saúde. Quando questionados sobre a necessidade de tratamento contra a cárie, por exemplo, 84,7% dos adultos recifenses acertaram ao afirmar que precisavam da assistência. Em Itapissuma, 80% dos adultos que disseram precisar de prótese total superior tiveram o diagnóstico confirmado pelo dentista.

O coordenador da pesquisa, Rafael Moreira, classifica os achados como surpreendentes. “Aquela visão de que a população não tem noção da necessidade, porque saúde bucal nunca foi prioridade, está equivocada. Eles sentem e percebem que precisam”, explica Moreira, que acredita que a grande questão agora é como transformar a necessidade percebida em necessidade atendida.

Para Moreira, a primeira grande vantagem da pesquisa é dar voz aos pacientes e não apenas tratá-los como agentes passivos. O coordenador acredita ainda que saber da confiabilidade desse tipo de avaliação pode facilitar a atuação e a formulação de estratégias do poder público.

 

“Você pode fazer o diagnóstico de um município, por exemplo, sem precisar colocar o dentista no trabalho de campo. Só um agente de saúde com um questionário perguntando 'O senhor precisa de tratamento odontológico? Acha que precisa de uma prótese?' perguntas sobre as necessidades com respostas 'sim e não' e você consegue ter uma estimativa verdadeira e fazer com o que o município se organize para fornecer o tratamento requerido”, aponta.

Percepção não é homogênia
A pesquisa provocou os pacientes sobre três questões: necessidade dos tratamentos contra cárie, protético e periodontal e os resultados não foram homogêneos. Em relação à cárie, por exemplo, homens, com baixas escolaridade e renda, que foram no dentista a última vez para extrair um dente e tiveram dor nos últimos seis meses, tiveram maior sensibilidade.

 


Já quando perguntadas sobre a necessidade de tratamento protético, pessoas com altas renda e escolaridade perceberam melhor. Homens adultos tiveram mais sensibilidade e, nesse quesito, também concordou mais com o diagnóstico quem visitou o dentista há menos de um ano e foi no setor privado nos últimos seis meses. Aqueles que sentiram dor de dente nos últimos seis meses e que consideram que a saúde bucal impacta na qualidade de vida também concordaram mais a avaliação clínica.

Questionados sobre a necessidade de tratamento de periodontal, homens adultos também foram os mais sensíveis, assim como pessoas não-brancas, com alta escolaridade, porém, baixa renda, que foram à última consulta com o dentista no setor privado e apresentaram dor de dente nos últimos seis meses. Em todos os casos, concordaram mais com o diagnóstico aqueles que se declaram insatisfeitos com a saúde bucal.
Para o coordenador da pesquisa, a observação referente à renda e escolaridade traz um achado importante. “Percebemos que pessoas de baixa renda e escolaridade concordam mais com o dentista, então, aquele mito de que pessoas que não estudaram não têm noção está errado. Acredito que por serem mais afetados pelos problemas bucais acabam sabendo com mais propriedade do que pessoas escolarizadas”, destacou Rafael Moreira, que acredita ainda que o mesmo motivo faz com que a sensibilidade seja maior entre os homens. “Eles tendem a perceber melhor, talvez porque sofram mais com as doenças bucais, porque vão menos ao dentista e terminam acumulando doenças até o ponto em que sentem dor e percebem que realmente precisam do tratamento”, observa.

Diario de Pernambuco

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