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Brasil

25/04/2014


Reportagem da NORDESTE levanta debate sobre regulamentação da maconha

NESTA EDIÇÃO

Cerca de 1,5 milhão de adolescentes e adultos usam maconha diariamente no Brasil. Mais de 3 milhões de adultos, com idade entre 18 e 59 anos, fumaram a erva no último ano e cerca de 8 milhões de adultos, 7% da população brasileira, já experimentaram a droga alguma vez. Os números dão a dimensão do tamanho do mercado consumidor de maconha no país, onde o consumo ainda é considerado contravenção. O debate, entretanto, parece estar ganhando corpo: três projetos, dois na Câmara dos Deputados e um no Senado, tramitam paralelamente e pedem a regulamentação da venda da erva para uso recreativo e medicinal, além da possibilidade de que usuários se associem em pequenos grupos para produzir a droga para consumo ou comercialização.

Os dados são do segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em 2012. Do total, 62% tiveram o primeiro contato com a maconha antes dos 18 anos. Entre os adolescentes de 14 a 18 anos, 470 mil revelaram que fizeram uso no último ano e 600 mil disseram já ter experimentado o entorpecente alguma vez na vida. Além disso, 17% dos consumidores nessa faixa afirmaram que conseguiram a substância dentro da escola.

Os amigos Amanda Dias (21 anos), Felipe Morais (21) e Philipe Meneses (20), de João Pessoa (PB), são parte destas estatísticas de usuários. Os três experimentaram maconha entre os 13 e 14 anos e passaram a fazer uso diário da droga pouco depois. Hoje, eles fumam pelo menos uma vez por dia, em casa ou em locais públicos, sem se preocupar com preconceito ou com a opressão por parte da polícia.

“Vou ao supermercado fumando, ando na rua fumando, eu acredito que este processo está mais aberto. O segredo é cada usuário ter na ponta da língua o seu discurso, saber os seus direitos. Fumar publicamente também é importante para a conscientização, para colaborar com a descriminalização”, conta Amanda, que trabalha como artista plástica, enquanto repassa o cigarro de maconha para Philipe.

Este por sua vez, entre uma tragada e outra, diz que fuma maconha em casa, junto com os pais, que também são usuários, e que deram o direito dele decidir se usaria ou não a droga, elencando para ele os malefícios e benefícios do consumo. “Foi uma mudança grande na minha vida, acredito que a maconha abriu minha cabeça para muita coisa que eu nem pensava, e que eu não me deixava experimentar por ser conservador em relação a isso”, diz Philipe.

Já o artesão Felipe, de 21 anos, diz que conheceu a droga em casa, com o pai, que também é usuário, mas que experimentou pela primeira vez com amigos da escola. Ele observa que o status atual da maconha torna o usuário em um financiador do crime organizado, já que você só consegue comprá-la de traficantes. “Este é o pior lado de ser proibido. Ao invés de você comprar um produto de qualidade, que recolha impostos e que traga benefícios para a sociedade, você alimenta o crime organizado”, lamenta Felipe, que rejeita o argumento que a maconha é porta de entrada para outras drogas. “Porta de entrada é o álcool, que todo mundo bebe desde pequeno, em qualquer lugar. Quem usa maconha gosta dos efeitos que ela causa, e não vai querer usar outra substância que causa um efeito diferente”. Nenhum dos três pensa em parar de fumar maconha.

Apesar de ser consumida por uma parcela significativa dos brasileiros, a descriminalização (deixar de ser crime) ou a regulamentação (criar regras para a produção e venda) ainda é vista como ruim por boa parta da população. A mesma pesquisa da Unifesp mostrou que 75% dos brasileiros são contrários à regulamentação. Outro levantamento, mais recente, indicou resultado parecido. De acordo com dados da Expertise, em 2013, 81% dos brasileiros são contra a legalização da maconha e 19%, favoráveis.

 

(Leia a matéria completa na ediçã nº 89 da Revista NORDESTE, já em todas as bancas do país)

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