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Brasil

23/12/2013


Reportagem premiada: Filhos separados dos pais por causa da hanseníase

NESTA EDIÇÃO

Na segunda reportagem da série Portas Entreabertas, a Revista NORDESTE mostra como foi a separação de pais e filhos em razão da política de isolamento compulsório para pessoas acometidas pela hanseníase no Brasil. A perda do vínculo familiar acentuou o estigma em torno de uma população que, ainda hoje, luta pelo legítimo reconhecimento de um direito que lhe foi violado. 

A penúltima, da série “Portas Entreabertas”, que conta a rotina de quem ainda vive na Colônia Getulio Vargas, em Bayeux. 

A reportagem recebeu o "Oscar da Imprensa Paraibana", o Prêmio AETC-JP 2013 de melhor reportagem do jornalismo impresso do ano. Confira a primeira parte da reportagem:

O prédio fundado em 1934 para abrigar filhos de ex-doentes de hanseníase, na época conhecida como lepra, ainda está de pé. Quem passa pela Rua Getúlio Vargas, no Rio do Meio, em Bayeux (PB), ainda recorda-se da antiga moradia de dezenas de crianças e jovens que durante anos foram internas ali. O lugar hoje é sombrio e inóspito. Algumas paredes resistem ao tempo, outras já desabaram e se misturam às ruínas.

Maria das Graças da Costa Nascimento hoje tem 52 anos. Ela é uma das antigas moradoras desse prédio “mal assombrado”. Entrou pela porta do Educandário Eunice Weaver ainda um bebê de colo e só saiu aos 14 anos. De volta ao local, 38 anos depois, diz sentir a mesma sensação: “dor e tristeza”. As palavras resumem uma história marcada pelo sofrimento e a ausência dos pais. “Foi aqui que tudo começou para mim. Aqui foi o meu inferno”.

Para Maria, a infância se perdeu no educandário, como se perderam as referências e os seus sonhos. Apenas uma irmã pôde estar ao seu lado, por também fazer parte da lista dos internos daquele sistema considerado uma prisão ainda pior do que a que castigou os leprosos. “A realidade aqui era muito triste. A gente não tinha contato com o mundo lá fora e quase não víamos nossos pais. O que sabíamos deles era que eram “papa fígados” e que poderiam nos fazer mal. Aqui, nós passamos a ter medo até dos nossos próprios pais”’, recorda-se.

Esse pavor foi duplamente sentido por Maria. Tanto o pai quanto a mãe foram vítimas da enfermidade. Ambos moraram parte de suas vidas no antigo leprosário de Bayeux – a Colônia Getúlio Vargas. Lá namoraram, casaram e tiveram filhos. Mas somente a mãe Severina Alves Cordeiro ia visitar as duas filhas no educandário. Não podia tocá-las, abraçá-las ou beijá-las. Apenas vê-las por entre muros que as separavam. “Via minha mãe uma vez por mês. Ela ficava do lado de fora e eu do lado de cá. Lembro-me de um dia que pulei o paredão para dar um abraço nela e fiquei de castigo muito tempo”. O depoimento é acompanhado de um longo soluço. “A minha dor maior foi ter me separado dos meus pais. Isso para mim foi muito forte. Eu sinto falta do carinho e do amor que não tive, apesar de minha mãe sempre demonstrar isso nos poucos momentos em que estivemos juntas”.
 

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