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Brasil

21/02/2017


Revista NORDESTE: A Arte de viver em harmonia

Arte marcial chinesa, o Tai Chi Chuan pode ser praticado com esporte, defesa pessoal ou para melhorar ou saúde

Por Jhonattan Rodrigues

Não é raro encontrar em praças, parques ou em locais públicos de grandes centros urbanos, logo cedo pela manhã, um grupo de pessoas fazendo movimentos delicados e cadenciados, como um balé em câmera lenta. Os movimentos sugerem saúde, calma e equilíbrio. Mas essa é só uma das faces do Tai Chi Chuan. Esse, visto nas praças, é buscado por pessoas que buscam uma vida mais saudável e equilibrada, mas pode também ser praticado para fins de defesa pessoal ou para competição. Mas em todas as modalidades a busca é fortalecer o praticante de dentro para fora. “O Tai Chi é uma arte marcial interna. Isso significa que a gente treina primeiro a parte interna do corpo para conseguir um resultado externo. Que é exatamente o oposto das outras artes marciais, que são externas, onde se trabalha primeiro o exterior do corpo para trabalhar o interior”, explica a pernambucana Juliana Fazio, atleta da Confederação Brasileira de Tai Chi Chuan (CBKW). “É o que o chineses chamam de ‘qi’. A energia interna do corpo. E o interior propriamente dito, os órgãos… é como se você trabalhasse não apenas a musculatura, mas os tendões e os ligamentos.”

O Tai Chi Chuan


As bases do Tai Chi Chuan estão no confucionismo, no budismo zen e no taoísmo, filosofias milenares praticadas na China. Criado e praticado por monges, o Tai Chi Chuan tem uma base espiritual muito grande, mas essencialmente filosófica, não doutrinária, portanto quem possui sua religião pode praticá-lo sem entrar em conflitos. “Especialmente para quem treina para esporte, porque muito da parte filosófica fica de fora, o foco é outro. Quando treina o marcial e para a saúde, aí passamos alguma coisa, mas não exatamente da religião […] Não é que se prega amor por Buda, são fundamentos filosóficos. De abertura da mente, de relaxamento, se manter presente dentro do seu próprio corpo no aqui e agora”, diz Juliana.

Existem duas versões para o nascimento do Tai Chi Chuan: uma mitológica e outra histórica. A primeira conta que Chang San-feng (lendário monge taoísta que teria vivido no século 13 e atingido a imortalidade) teria criado Tai Chi Chuan ao observar uma luta entre uma ave e uma cobra. Historicamente, a arte marcial foi criada por Chen Wang Ting, general da dinastia Ming, que viveu no século 16, unindo diversos estilos de luta corporal e com armas.

Hoje existem vários estilos, que incluem luta com as mãos, com sabre, lança, leque… Juliana explica os estilos são divididos por ‘famílias’. São elas a família yang e chen (que são as duas maiores e mais fáceis de ser encontradas), família wu, família hao e família sun. Existe ainda uma simplificação que foi criada por Pequim, que é chamado de Tai Chi contemporâneo. “E o tui shou faz parte de todas elas, mas nas competições acontece separado, porque é a categoria que a gente faz em dupla, é a parte de contato. Não é luta, é exercício de contato”, explica a atleta.

Representando o Nordeste


Praticante há 10 anos, Juliana conta que começou a praticar Wushu moderno, mas seu mestre, Lap Wah Ng, percebeu que ela levaria jeito para o Tai Chi. Hoje é bicampeã pernambucana e em 2015 se tornou atleta da Confederação Brasileira de Kung Fu/Wushu, conquistando o campeonato brasileiro daquele ano e medalha de prata e bronze em 2016, nas modalidades com mão e espada.

Em outubro de 2016 ela competiu no mundial de Tai Chi Chuan, em Varsóvia, na Polônia. Novata em competições mundiais, Juliana conta que o nervosismo e a modalidade na qual competiu, ela treinava há pouco tempo, atrapalharam, e ela acabou ficando no décimo lugar. “Esse ano de 2016 eu fui muito mais para conhecer o ambiente de campeonato mundial. Eu estava competindo com uma forma nova, que eu tinha aprendido há pouco tempo e que as outras pessoas já sabiam e competem com ela há muito tempo. Então esse ano eu não fui esperando classificação. Eu fiquei muito feliz com a classificação que eu ganhei.” Apesar disso ela conta que ao fim, apesar de ser uma competição, todo mundo sai ganhando. “O tai chi é realmente uma família, todo mundo se ajuda, todo mundo treina junto. Então é uma experiência muito emocionante, passar todos aqueles dias só focado nisso. Conhecemos pessoas de muitos outros países, fizemos amizade com competidores dos Estados Unidos, Canadá, China, dos Emirados Árabes, trocamos muitas ideias, treinamos juntos. Foi bem legal.”

Essa foi a segunda edição do mundial de Tai Chi Chuan. O primeiro foi na China e ocorre bienalmente. Juliana foi a única atleta a representar o nordeste no campeonato. Ela cita ainda dois atletas que já representaram o nordeste em mundiais: Samara Araújo, do Ceará e Fabio Shaolin, de Pernambuco. Mas no geral as pessoas conhecem pouco sobre o esporte. Isso dificulta, principalmente, na hora de conseguir patrocínio. Pelo amor ao esporte, os praticantes tiram do próprio bolso. Para participar do mundial, por exemplo, os competidores tem que arcar com as passagens e hospedagem. Tudo pode chegar até 10 mil reais. “Não é fácil. A gente pena e muito. Até para fazer evento, curso, é muito difícil conseguir apoio. Ano passado eu consegui patrocínio, mas com contatos pessoais. Não foi eu visitando uma empresa, que se interessou por patrocinar um atleta.” O fato de não ser um esporte olímpico também é um empecilho. As confederações de Wushu/Kung Fu/Tai Chi Chuan vem lutando para ver essas artes marciais nas Olimpíadas. Para a edição de 2020 ficaram de fora, mas há chances ainda de conseguirem vagas nos Jogos Panamericanos e Sulamericanos.
No momento, é difícil para os atletas sobreviverem do esporte que tanto amam. Juliana, por exemplo, é dona de uma escola de artes marciais, onde ensina Tai Chi e Kung Fu, e ainda dá aulas de inglês, mas sonha um dia poder viver do esporte ama. “Eu tenho várias fontes. Infelizmente eu ainda não consigo viver só das artes marciais, mas eu tenho certeza que eu chego lá.”
 

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