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Brasil

04/01/2017


Revista NORDESTE: À espera da chuva

A atual seca que atinge o Nordeste chega ao quinto ano generalizada. Alcança praticamente todos os estados nordestinos e já se alastra para o Norte e Sudeste. Os órgãos responsáveis dizem estar tomando as medidas cabíveis para que a situação não tome rumos calamitosos, mas enquanto a estiagem durar, as coisas tendem a ficar piores. Porém, especialistas afirmam: o El Niño acabou e já existe promessa de chuva

Por Jhonattan Rodrigues

Quem conhece o sertão sabe que essa é uma situação já conhecida. O clima quente e seco é característica da região e épocas de longa estiagem ocorrem periodicamente. Ficaram conhecidos os retirantes que fugiam da seca e em casos extremos, pela fome, invadiam as cidades e saqueavam mercados, feiras. A seca de 1915, uma das mais severas registradas no país, levou milhares de famílias a deixarem suas casas e o governo cearense a criar campos de concentração nos arredores das cidades para isolar os retirantes. Um século depois, a situação se repete. Sem o mesmo êxodo de famílias, já que agora contam com reservatórios, cisternas e programas de renda e distribuição de água, mas o cenário começa a piorar. Muitos açudes já secaram e outros importantes estão em situação crítica. Desde 2011 a região vem apresentando chuvas abaixo da média, que geralmente ficam em torno de 2.000 e 3.000 mm por ano. A partir de 2014, as chuvas que já estavam abaixo da média diminuíram ainda mais, devido ao El Niño, e em 2015 o índice de precipitação em certas áreas não passou de 400 mm.

Entre dezembro de 2012 e dezembro de 2015 foram 6.295 decretos de anormalidades, só no Nordeste, causados pela seca. Segundo relatório da Confederação Nacional de Minícipios (CNM), a soma dos prejuízos causados pela seca entre 2013 e 2015 na região chega a R$ 104 bilhões, equivalentes a 68,8 % do total de prejuízos causados por desastres em todo Brasil. Segundo o relatório, a agricultura, principal ramo afetado pela seca, perdeu, nos últimos três anos, em torno de R$ 74 bilhões. A intensidade da seca, entretanto, não vem sendo acompanhada do êxodo populacional e saques a comércios e feiras, comuns no início do século passado. O relatório da CNM ressalta que as políticas de complementação de renda tem tido um papel fundamental na amenização desse efeito, fazendo com que, diferente das outras secas do início do século XX, o impacto social seja menor, contudo, devido a globalização, o impacto econômico se torna maior.

O panorama, no entanto não é favorável. Observando o Monitor das Secas do Nordeste, da Agência Nacional de Águas (ANA), vê-se que a seca espalhou-se rapidamente este ano, passando de extrema a excepcional em diversos estados. Dos 533 reservatórios monitorados pela ANA no Nordeste, 139 estão secos. Em outubro, eram 116. Centenas de cidades em todos os estados nordestinos já decretaram estado de emergência e diversas outras entraram em colapso, dependendo de carros-pipa e de abastecimento do Governo Federal. A seca já começa a atingir os grandes centros urbanos.

O abastecimento de Fortaleza está ameaçado, uma vez que o Castanhão, maior açúde do Brasil, com capacidade para 670 bilhões m³ de água, e responsável pelo abastecimento da cidade e toda região metropolitana, está com apenas 5% de sua capacidade e já recebe águas do açude de Orós, que está com apenas 16,41% de volume.
Na Paraíba, o açude de Coremas, o maior do estado, com capacidade para 591 bilhões m³ está com apenas 2,6% de seu total, recebendo suporte do reservatório Mãe D’água, que está com menos de 6,6% de seu volume total. Campina Grande, uma das maiores cidades do Nordeste, está dependendo de carros-pipa, e a irrigação está suspensa desde julho de 2014 com cortes de 50% na captação da companhia de saneamento, a Cagepa. O açude de Boqueirão, que abastece a cidade e mais 18 municípios, está com apenas 5,33% de sua capacidade.

No Rio Grande do Norte, 153 de seus 167 municípios estão em estado de emergência. A Caern, responsável pelo abastecimento do estado, está tendo que se desdobrar e abrir mananciais para garantir água para as famílias do interior, mas o número de cidades em colapso chega a 33, sendo que outras 60 estão em sistema de rodízio, com dias de abastecimento alternado.

A geração de energia elétrica também fica comprometida, uma vez que as hidrelétricas também estão sofrendo com a estiagem. O complexo gerador da Bacia do São Francisco, maior e mais importante do Nordeste, está passando por racionamento para garantir sua funcionalidade. Sobradinho, o maior deles, em novembro chegou a 5,73% de seu volume útil e a ANA autorizou a diminuição gradual das descargas mínimas de 1.300 m³/s para 700 m³/s até janeiro.

A cena dolorosa do carro-pipa

A promessa, entretanto, é que a situação comece a melhorar. Segundo o meteorologista Luiz Carlos Molion, professor da Universidade de Alagoas (Ufal), o El Niño acabou esse ano, dando lugar ao seu oposto La Niña. O primeiro é o aquecimento acima do normal do Pacífico e o segundo, o resfriamento. “2017 ainda vai ser com chuvas abaixo da média. Não tão ruim quanto 2015, 2016, mas ainda abaixo da média. Espera-se um 2018 chuvoso e um 2019 também chuvoso, porém não tanto quanto 2018, que deve ser chuvoso em torno de 40% acima da média”, explica Molion. É esperado que os efeitos do La Niña sejam sentidos na metade do ano, no inverno.
Mas algumas surpresas podem estar sendo reservadas. Segundo Molion, é provável que ocorra um fenômeno chamado Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN). “Tem ocorrido frequentemente esse fenômeno, quando o pacífico está esfriando. Há uma boa probabilidade que ocorra um VCAN em janeiro. Se isso ocorrer, vão ser totais de chuvas bastante elevadas, na faixa de 150 a 200 mm em 2, 3 dias. O último que ocorreu, foi marcante entre 17 e 19 de janeiro de 2004, em que em alguns dias choveu mais de 200 mm (Na época as enchetes na Paraíba deixaram 104 mortos). Se isso ocorrer, nas regiões que ele afetar, vai ajudar a encher os açudes. Contudo, ele oscila, se forma muitas vezes em cima do continente. Ele pode se formar de uma latitude em torno de 50 graus a oeste, lá em cima do Pará, por exemplo, depois ele vem se deslocando em direção à costa. Fica muito difícil saber onde ele vai parar.”

Contendo os danos

Enquanto as chuvas não chegam, o Governo tem disponibilizado grandes quantias como forma de ajudar a população do semi-árido e de outros estados que já começam a ser atingidos pela estiagem. Recentemente o Ministério da Integração Nacional reconheceu estado de emergência em 272 municípios, em sete estados, sendo cinco do Nordeste. Foram eles: Pernambuco, Paraíba, Piauí, Bahia, Sergipe. Os outros foram Minas Gerais e Mato Grosso. Ao todo, mais de 1000 municípios são reconhecidos pelo Ministério como em estado de emergência. Através da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), o Ministério da Integração investiu, desde 2011, R$ 30 bilhões em obras e projetos para amenizar os efeitos da seca. Entre os benefícios garantidos pelo reconhecimento do estado de emergência o abastecimento por meio de carro-pipa, renegociação de dívidas no setor de agricultura junto ao Banco do Brasil, aquisição de cestas básicas no Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário e apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) para a retomada da atividade econômica nas regiões afetadas.


 

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