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Brasil

04/04/2017


Revista NORDESTE: A evolução de Gênero

Transgêneros ‘saem dos armários’ e subvertem ideia de identidade do que vem a ser homem e mulher. População busca melhores condições sociais e de trabalho, além de ser reconhecida para vencer marginalização, depressão e angústia

Por Paulo Dantas

Dizem que o mundo concreto é bastante palpável, cheio de conceitos muito bem delimitados. Uma cadeira, um edifício, um animal, um ser humano. Muitas vezes essa concretude é dimensionada pela forma e pela densidade. É real. Essa realidade palpável já foi bastante questionada pela filosofia, pela sociologia – Karl Marx dizia que tudo que é sólido se desmancha no ar –, pelas religiões e filosofias orientais. A discussão de gênero entra nessa seara sobre o que é real na identidade. Hoje homens se levantam pelo mundo afora dizendo que não são homens, são mulheres. Mulheres gritam, dizendo que não são mulheres, mas homens. O mesmo ‘movimento’ acontece entre crianças que já crescem negando o próprio sexo, se deprimindo e se recusando a viver como seus corpos os identificam. A grande pergunta que surge é quem nós somos? O que nos define? Somos como exteriormente nos veem, ou como nos vemos interiormente? Se a segunda opção é a certa, até onde devemos e podemos ir para que o nosso interior seja expresso fielmente fora de nós?

Buscando mergulhar nessa discussão, que envolve hoje não só os questionamentos de gênero, mas também as angústias de milhares, talvez milhões de pessoas, a Revista NORDESTE busca entender os transgêneros, que estão na ‘ponta de lança’ desse movimento mundial. Ouvimos transexuais e publicizamos pesquisa desenvolvida pelo psicólogo e coordenador do projeto de Cidadania LGBT de João Pessoa, Roberto Maia. Não buscamos responder as perguntas, mas procuramos dar voz aqueles que estão mergulhados nessas respostas. O mínimo que podemos fazer é ouvir suas vozes e buscar a empatia necessária para entender suas dores.

Roberto Cezar Maia de Souza realizou a pesquisa em parceria com o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT). A pesquisa contou com 242 pessoas de todas as regiões do Brasil. A faixa etária predominante foi entre pessoas de 18 a 24 anos (41%), seguida de 25 a 34 anos (24%), 14 a 17 anos (22%), 35 a 49 (9%), 45 a 54 (3%) e mais de 65 anos (1%).

Uma questão de direito

“Quando a gente fala de transexualidade e a questão das pessoas transgêneras, falamos da identidade de gênero. Na identidade cisgênera, a minha psique, a forma como me vejo, tem a ver com o meu sexo biológico. Em uma identidade transgênera, a forma como eu me percebo, a minha psique, não tem a ver com o meu sexo biológico. É discordante”, explica Roberto Maia. O psicólogo, psicanalista e sanitarista, trabalha há décadas com questões relacionadas a sexualidade. Hoje com 50 anos, Maia tem uma longa passagem por movimentos de visibilidade e saúde LGBTs desde a década de 90. Paulista morando em João Pessoa há 20 anos, já coordenou programas para tratar portadores de doenças sexualmente transmissíveis e esclarecer profissionais e a população sobre doenças como HIV/AIDS e HPV. O trabalho sempre foi difícil e o convívio com uma sociedade em pânico da AIDS e cheia de preconceitos contra gays, lésbicas e travestis lhe aprofundou uma visão humanística.

A angústia entre gays e lésbicas para sair do armário, agora mostra uma outra faceta. Recentemente num programa de TV um pai lamentava que o filho não era gay, mas transgênero. A complexidade da questão têm pego alguns de surpresa, isto porque os transgêneros sofrem com uma profunda angústia em relação ao corpo. Explica-se. Essas pessoas nasceram com uma identidade de gênero, por exemplo, feminina, porém com órgão sexual masculino, e são tratados como meninos. O mesmo acontece com os homens transexuais. Pessoas que nasceram com o sexo biológico feminino, mas se percebem enquanto homens. No Brasil há ainda as travestis. Uma categoria a parte, com esta nomenclatura só existente no Brasil, onde rapazes que sempre se sentiram femininas, mas após anos de confusões de identidade aprenderam a conviver com a ambiguidade de se portarem como seres femininos mantendo um órgão sexual masculino. “As mulheres travestis se sentem mulheres, colocam silicone, e tal, embora a genitália seja masculina, mas elas gostam dessa ambiguidade, porque a maioria faz programas”, pontua. Essa diferenciação distingue, a princípio, aqueles que sentem necessidade de fazer uma cirurgia de redesignação sexual, e que rejeitam seu corpo tal como nasceram. Elas querem transformar o pênis numa vagina (caso do transexual feminino) ou retirar as mamas e deixar os pelos crescerem (caso o transexual masculino). 

Cisgênero
A psique é igual ao sexo biológico. Exemplo: tem psique masculina e sexo biológico masculino.

Homens trans
Nasceram com órgão sexual feminino, mas têm uma psique que os reconhece como masculino. Os homens trans após seis meses a um ano tomando hormônio masculino começam a ter barba, bigode. Geralmente usam binder, um colete que ajuda a esconder o seio, engrossam a voz. A figura lida pode ser de um homem. Como se fosse um homem cisgênero. Embora seja um homem trans.

Mulheres trans
Nasceram com o órgão masculino, mas a psique as reconhece como sendo mulheres. Rejeitam o pênis. O tratamento retira o pomo de adão e a libido sexual masculina. Fazem enxerto de silicone nos seios e é construída uma vagina. 

Em relação ao conflito de identidade e a redesignação sexual é impossível não entrar no campo da psicologia e psiquiatria que até bem pouco tempo considerava a homossexualidade uma doença. Maia revela que a psicologia ainda considera a pessoa trans como portadora de uma patologia, diferente da homossexualidade que deixou de ser considerada patologia na década de 90, e saiu do Código Internacional de Doença (CID). A transexualidade para a psiquiatria ainda é uma disforia de gênero. “Antigamente era transtorno de identidade de gênero, agora suavizou um pouquinho porque é disforia. É disforia porque a forma como ela se sente não tem a ver com o seu sexo biológico. Mas para essa pessoa transexual, seja mulher, homem ou travesti, para que possa tomar hormônio-terapia ela vai ter que entrar no CID, depois de uma análise com o psiquiatra. É preciso se considerar doente e um laudo do psiquiatra para poder tomar hormônio. A não ser que tome hormônio clandestino. Mas se for tomar um hormônio normal vai ter que ter essa receita e vai ter que ser considerada doente”, lamenta. 

O mesmo procedimento é feito para que uma pessoa trans possa fazer uma cirurgia, até mesmo colocar uma mama de silicone. “O grande questionamento é porque uma mulher trans precisa passar 15 anos na fila de espera para receber sua prótese. A questão não é só uma imagem, mas como ela se percebe. Deveria ser obrigação do SUS. Quando vamos conseguir trabalhar com despatologização das identidades trans? Em Buenos Aires, há uma lei sobre isso, e estamos tentando fazer a Lei João Nery aqui no Brasil. Lá, em Buenos Aires, você diz que é uma mulher trans, vai no ambulatório e não precisa de laudo, não precisa de nada. Está se vendo um mulher trans, e vai ser dado o medicamento que é preciso, vai fazer a operação, dar o hormônio, sem precisar de patologização”, frisa. 

O psicólogo argumenta que esse sistema que tira do transexual o direito de se definir enquanto identidade e ainda o considera patológico tira das pessoas a liberdade sobre seus próprios corpos. Em relação ao conceito que cada um é dono do próprio corpo, Maia cita o filósofo Michel Foucault. O filósofo defende a autonomia dos corpos e como “a sociedade quer corpos dóceis, obedientes e num formato determinado”. Entre as obras de Foucault que tratam do tema está “Vigiar e punir: nascimento da prisão”. “É como se eu não pudesse transformar como me sinto. É o outro que é detentor do poder, que é o médico. É o psiquiatra que diz o que é melhor para mim, mas eu não tenho autonomia para falar o que eu acho que é melhor para mim. É um cuidado muito excludente, porque eu preciso de um detentor do saber para falar o que eu preciso. É um cuidado muito fascista, inclusive”, acusa.

Um programa includente

A Prefeitura de João Pessoa aposta desde março de 2015 no Programa TransCidadania. A ideia nasceu quando Roberto Maia estava em São Paulo no Seminário Brasileiro dos Homens Transexuais no Brasil. O primeiro seminário brasileiro desses homens trans. O programa reúne dez Secretarias num comitê gestor para trabalhar desde a inclusão social, a habitação, até a empregabilidade. Conseguiu parcerias com o Sistema Nacional do Emprego (SINE-JP) e empresas privadas e grandes empresas de telemarketing, como a Contax e a A&C. O começo no Telemarketing foi proposital e visava a abertura do mercado de trabalho, sem ser preciso mostrar a aparência, apenas a voz. A ação de inclusão ganhou repercussão nacional e ajudou para que empresas em outros lugares do país abrissem portas semelhantes. Mas o programa quer ir além. “Não podemos ter uma opção da travesti só ser prostituta. A prostituição não é crime no Brasil, desde que ela tenha outra opção de trabalho. Só a prostituição como opção não é opção, é compulsório”, ressalta. No momento o programa está conversando com a superintendência do Shopping Tambiá, um dos maiores da capital, para que as transexuais possam ser vendedoras de loja. “Já soubemos de alguns casos, especificamente de trans, que estão trabalhando em lojas de departamento em João Pessoa, uma coisa que não víamos antes”, comemora.

O programa se reúne a cada dois meses e vai inserindo novas políticas. Uma das últimas a entrar foi a parceria com a Estação da Moda, programa de João Pessoa que oferece cursos de 10 meses de moda onde se aprende desde como se maquiar, a fazer produção de moda e a desfilar. O foco é o bom diálogo das pessoas trans com este universo. Vale lembrar que na São Paulo Fashion Week deste ano o desfile do estilista Lino Villaventura trouxe pessoas trans. 

Perfis, classes sociais e faixas etárias diversas

Os perfis das transexuais são bem diferentes, com inúmeras classes etárias. Segundo Roberto Maia a maioria delas ainda vive em situação de extrema pobreza, precisando de todo tipo de amparos. “Uma coisa chamou atenção quando começamos. Fizemos uma feira de serviço para saber quantas mulheres trans precisavam e já tinham feito inscrição no Bolsa Família, no Minha Casa, Minha Vida. A maioria delas não sabia nem que tinha direito. Ou seja, a política pública é tão invisível para essa população que não chega lá”.

Outro aspecto é que há pouco ou nenhum vínculo familiar. Grande parte das travestis e transexuais foram expulsas de casa na adolescência, quando se descobriram (tinham 15, 16, 17 anos). “Ela precisa sair de casa porque é um lugar machista… o menino de casa, agora é menina. E aí como esse pai trabalha com essa questão dentro da casa. Elas perdem o vínculo de pai e mãe. A maioria rompe. Diferente, por exemplo, dos homens trans, eles não conseguem romper. Isso é interessante na questão de gênero. Quando eu sou criado como homem, embora seja uma mulher trans, eu sou criado para fora de casa. Eu vou brincar de carrinho, e o homem é criado para ir para fora de casa. Então, embora a identidade de gênero seja feminina, quando dá 14, 15 anos e o meu pai não me aceita, vou pegar minhas coisas e vou fazer ponto na rua. Ser prostituta. Quando é o homem trans é diferente, porque os homens trans são criados como meninas.

São criados para ficar em casa obedientes e calados. Tudo é para casa, brincar de boneca, de cozinha. Tudo é para dentro de casa. E aí a maioria desses homens trans não consegue se identificar com os outros homens trans. As vezes consegue se identificar com uma lésbica masculinizadora. O movimento é novo. Como eles não sabiam qual era a sua identidade, eles ficavam calados em casa e as vezes vivendo sofrimentos muito grandes. Na minha pesquisa ficou demonstrado que a maioria dos homens trans passa por violência em casa e a tentativa de suicídio deles é recorrente. Não conseguem colocar a sua identidade para fora, se fecham”. 

Transexuais
• 95% das travestis e transexuais no Brasil estão fora do mercado de trabalho formal
• 90% das mulheres transexuais se prostituem

Escolaridade
• 36% ensino superior incompleto
• 27,1% ensino médio completo
• 14% ensino médio incompleto
• 11,6% ensino superior completo
• 4% pós-graduação
• 4% ensino fundamental completo
• 3,3% ensino fundamental incompleto

Relação de trabalho
• 25,4% recebem R$ 931,00 a R$ 1.395,00
• 24,4% recebem R$ 466,00 a R$ 930,00
• 60% já foram descriminados no trabalho

Números
• 133 pessoas estão cadastradas no Programa TransCidadania
• A população trans é estimada em 250 pessoas

Vida
• Baixa expectativa de vida
• A expectativa de vida é de 36 anos 

O processo de redesignação sexual

Em João Pessoa, os transexuais que querem passar pela redesignação sexual são encaminhados para um ambulatório. Lá uma equipe multiprofissional, que vai de psiquiatra até fonoaudiólogo vão avaliar o caso e começar o tratamento. Será receitada hormônio-terapia e pode começar o processo das cirurgias. Um longo e vagaroso processo. São vários tipos de cirurgia, desde a retirada do pomo de adão, até a cirurgia da transformação da genitália. Mas tudo ainda é incipiente no país.

“Só temos cinco ambulatórios trabalhando com cirurgia no país. E aqui em João Pessoa ainda vai ser implantado o ambulatório no Hospital Universitário (HU). Não fazemos a cirurgia. Ainda tem isso, o transexual precisa de sete laudos para fazer um procedimento cirúrgico maior. Um procedimento menor precisa de três laudos. E precisa estar no mínimo há dois anos sendo acompanhado. Eu acho que é uma questão que precisa ser revista porque não dá para ter uma cirurgia por mês como acontece no hospital público de São Paulo. São 12 cirurgias por ano numa lista de espera que tem lá em São Paulo de 2.500. Ou seja, daqui a 500 anos, 1.000 anos o travesti vai fazer a cirurgia”, pergunta Maia. O coordenador TransCidadania questiona porque é preciso tantos laudos para os homens trans, que usam um bider – colete que aperta os seios – para fazer um mastectomia masculinizadora. O uso do colete deveria servir como amostra da urgência da cirurgia. Maia conta que no HU um colega fez uma pesquisa onde se constatou que a capacidade de respiração dos homens trans que usam o binder diminui em 30%. “Por que eu tenho que esperar 10, 12 anos para fazer essa cirurgia, uma coisa tão simples? Por que as travestis usam e dialogam com as bombadeiras no dia a dia? Por que elas não conseguem colocar silicone normal, como qualquer mulher, e precisam usar silicone industrial. Uma silicone que dá embolia pulmonar na maioria? Tivemos no HU duas ou três mortes nos últimos três meses de travestis com embolia pulmonar. Não dá para ficar esperando 15 anos por uma cirurgia que pode ser que nem aconteça”. As bombadeiras são profissionais conhecidas por “transformar” o corpo de seus pacientes com aplicações clandestinas de silicone. 

Identidade transformada

Josy Silva, 51 anos

Sou da época da ditadura. Fui rejeitada pela minha mãe. Nasci dentro de um prostíbulo e as pessoas que eu reconheço como família foram as pessoas com as quais eu convivi. Eu não tenho parentesco de sangue. Eu fui acolhida por uma senhora. Hoje essa senhora é falecida e algumas pessoas dessa família me reconhecem como família e me respeitam. A minha história foi toda constituída em cima da travestilidade. Para a travesti o troféu dela, a ambiguidade dela, é a sua genitália. Quanto maior, mas ela se sente feliz. Elas se sentem bem com esse corpo, diferente dos transexuais, mulheres e homens trans que não se adaptam e existe a rejeição da sua genitália. Por que eu não tenho um corpo igual ao daquela menina que está na minha frente. O universo da feminilidade me fascinava. Eu sempre queria tudo que era ofertado as mulheres e não a mim. Tudo aquilo eu queria para mim, calcinha, sutiã, cozinhar, ser mãe, ter marido. Isso me fascinava. Eu me sentia atraída pelo corpo e sexo masculino. As travestis são vistas como prostitutas e marginais. Acham que a gente não têm direito ao dia, só a noite. Os homens que nos abrem as portas a noite para entrar, durante o dia eles fecham. Ainda somos vistas como uma mercadoria sexual. Eu gostaria que as pessoas não vissem o lado da genitália, visse mais o lado humano.

Eric Pacheco, 43 anos

Lembro que aos nove anos eu brincava com minha amiga e ela me chamou a atenção que eu era diferente. Ela falou: poxa vida, porque você toda vez é um homem ou um médico. Sempre você faz o papel de um homem. Naquele momento eu parei, e percebi que eu era diferente das meninas e fazia um papel totalmente diferente. Aquilo dali para mim foi o momento que eu percebi isso. Daí então com a minha família eu senti muita dificuldade. Porque minha família é (religiosa) fundamentalista e isso fez com que eu reprimisse o meu eu dentro de mim. Eu sofri muito até os 18 anos de idade, porque tinha medo. Não tinha um pai e uma mãe compreensível, eles são semianalfabetos. Numa época onde a internet não era tão evoluída e a gente não tinha informações. Numa cidade pequena onde as pessoas viam a sexualidade ou o gênero de uma pessoa como se fosse não aceitável, uma vergonha. Devido a cidade tão pequena (no interior de Pernambuco) e eu tinha medo da sociedade. Não tinha com quem conversar com meus pais. As meninas me atraiam e eu ficava confuso. Entrei em depressão. Sai de casa com 18 anos, porque eu queria viver, abraçar o mundo, por para fora o meu eu. E eu não tive coragem de fazer isso naquele momento com a minha família. Eu nunca aceitei meu corpo. Desde criança por mais que eu não colocasse o meu eu para fora, eu nunca gostei de me vestir como a minha mãe me vestia. Eu era a bonequinha dela. Ela me achava linda e eu ficava feliz porque ela me via linda, mas dentro de mim havia um vazio, porque eu queria vestir a cueca, a roupa do meu irmão. Quando saí de casa e fui viver em outro estado eu cortei o cabelo, fui para uma loja no mesmo dia e comprei roupa íntima masculina e fiquei na frente do espelho. Eu acho que naquele momento ali foi a primeira vez que eu consegui me enxergar. Diante do espelho, naquele momento eu falei: este sou eu. Eu tinha 23 anos, já tinha tido namorada, mas eu não me vestia da forma como eu queria. Daí em diante, eu falei, não posso agradar uma sociedade ou minha família e ser infeliz.

Bruna Angel, 40 anos

Desde quando tinha 4 anos gosto de meninos. Mas não entendia o que significava. Quando tinha 7 anos me apaixonei pelo primeiro coleguinha. Eu tinha um corpo masculino, mas que era como se não fosse o meu corpo. Era como se eu tivesse o corpo de outra pessoa. Eu não me via daquele jeito. Foi passando o tempo, mas com medo da família e da sociedade eu sempre me vesti como rapaz. Fui me descobrindo uma mulher trans. Eu sabia que na minha cabeça eu era uma mulher, mas estava no corpo errado. Depois que a minha mãe faleceu, por volta dos meus 23 anos, me assumi como uma mulher trans. Comecei a me vestir como mulher, tomar hormônios, ter seios, comecei a namorar rapazes. Eu estava descobrindo a verdadeira eu e não o masculino. Foi como se, conforme meu corpo fosse mudando de masculino para feminino, foi como se a cada dia eu estivesse nascendo de novo, tendo uma segunda oportunidade para ser feliz. Não gostava de usar roupas masculinas. Já tentei até uma loucura, de pegar uma gilete e tirar o pênis quando eu tinha 16 anos. Graças a Deus isso não aconteceu. Morávamos em Campinas, São Paulo, e voltei para João Pessoa. Minha família que morava aqui, já me conhecia pelas redes sociais como transexual e e não me aceitaram. Fiquei na rua. Aí, através da mídia, conheci a Programa Transcidadania. Fizeram-me encaminhamento para a Casa Acolhida, onde estou até hoje. Não desisti de procurar me aproximar de minha família. Se quiserem vou estar aberta, não tenho nenhuma mágoa. Gostaria que eles me aceitassem. Porque não sou bandido. Não tenho ficha suja na polícia, sempre fui uma pessoa muito respeitadora. O único empecilho para poder ter uma vida normal com a minha família é essa situação de eu ter me assumido. 

Universo transgênero

Duas obras foram lançadas em João Pessoa abordando o universo trans, recentemente. Uma delas foi a música “Faca Amolada”, da cantora Val Donato. O clipe trouxe o ator trans Julian Santos – um dos primeiros a estrelar um clipe no Brasil. A música faz parte da trilha sonora do longa paraibano “Tudo Que Deus Criou”, de André Costa. No lançamento do clipe, respondendo sobre qual é sua relação com a transgeneridade, Val Donato (foto ao lado) revelou: “Eu me entendo como mulher, me vejo como mulher, mas existe muito forte dentro de mim o lado masculino também. Desde pequena fui masculina, só me sinto bem quando olho no espelho e estou masculina, mas ao mesmo tempo não tenho vontade de ser homem ou de ser vista como um. Me toca a causa, porque ‘bati na trave’, poderia ser um homem trans”.

Suicídio homens trans
• 94,5% tem depressão
• 66,4% homens trans afirmaram já ter pensado em suicídio
• 41,5% já tentaram suicídio uma vez
• 28,2% tentaram duas vezes o suicídio

Violência
• 71,6% dos homens trans já passaram por algum tipo de violência

Trabalho
• 52,% dos homens trans revelam estar desempregados

O curta de ficção “Hosana nas Alturas” traça um paralelo entre a salvação pela fé, relacionada ao título que pode ser traduzido como “Salva-nos, te imploramos”, em favor dos crentes e a condenação terrena sofrida pelas transexuais no Brasi, inclusive por religiosos fundamentalistas. Confira entrevista abaixo com o diretor e roteirista Eduardo Varandas, que também é procurador do Ministério Público do Trabalho.

Revista NORDESTE: Do que trata o filme “Hosana nas Alturas”?
Eduardo Varandas: O filme trata de uma travesti chamada Hosana que nasceu em um lar cristão e assimilou a doutrina. O problema é que, desde cedo, mesmo nascendo menino, ela sentia que estava no corpo errado. A trama cuida exatamente de um drama de uma mulher trans, cristã que não entnede porque é tão rejeitada pela sociedade e por uma religião que aparentemente prega o amor incondicional

NORDESTE: O que te motivou a fazer um filme falando sobre o universo trans?
Varandas: O universo trans é muito marginalizado pela sociedade brasileira. Essas pessoas são tratadas, por muitos, como seres inferiores: marginais ou doentes. Todavia, a Constituição proíbe qualquer forma de discriminação e a vontade de trazer o assunto para debate foi o que me fez escrever a estória.

NORDESTE: Como foi a experiência e o desafio de um procurador atrás das câmeras?
Varandas: Enorme. Eu escrevi a estória e não esperava ter o primeiro lugar no prêmio da Funjope. Procurei ser o mais humilde possível e assumir a minha falta de experiência. Tive ótimos profissionais ao meu lado que me auxiliaram como Bruno Sales (Fotografia) e Bertrand Araújo Sousa (Preparação do elenco). O resultado foi maravilhoso. Pretendo dirigir outras produções.

NORDESTE: Qual a sua impressão do universo trans?
Varandas: Os transgêneros constituem o grupo mais marginalizado no Brasil. Simplesmente, a sociedade não aceita, por conservadorismo religioso, que mudem sua identidade de gênero. Temos um ambiente profundamente perverso, hipócrita e desumano com os transgêneros. Precisamos mudar isso e o cinema é uma grande ferramenta de comunicação.

NORDESTE: Onde o filme poderá ser visto?
Varandas: Vamos lançar no final de abril. Em seguida, participaremos de várias amostras e festivais para que todos possam ver nosso trabalho. 

Números alarmantes
O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Entre janeiro de 2008 e março de 2014, foram registradas 604 mortes no país, segundo pesquisa da organização não governamental (ONG) Transgender Europe (TGEU), rede europeia de organizações que apoiam os direitos da população transgênero. Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil, publicado, em 2012, pela Secretaria de Direitos Humanos (hoje Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos) apontou o recebimento, pelo Disque 100, de 3.084 denúncias de violações relacionadas à população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros), envolvendo 4.851 vítimas. Em relação ao ano anterior, houve um aumento de 166% no número de denúncias – em 2011, foram contabilizadas 1.159 denúncias envolvendo 1.713 vítimas. ​Segundo o relatório, esses números apontam para um grave quadro de violência homofóbica no Brasil. “Foram reportadas 27,34 violações de direitos humanos de carácter homofóbico por dia. A cada dia, durante o ano de 2012, 13,29 pessoas foram vítimas de violência homofóbica”, diz o documento.
* Informações divulgadas pela produção do filme

 

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