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Brasil

11/10/2016


Revista NORDESTE: Acirramento contra minorias expõe intolerância no Brasil

O Ressurgimento do Fascismo 

Volta de acirramento contra nordestinos, negros, mulheres, LGBTs e estrangeiros, expõem intolerância crescente no Brasil e no mundo

Por Paulo Dantas

"O certo é louco tomar eletrochoque. O certo é saber que o certo é certo. O macho adulto branco sempre no comando. E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo. Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita. Riscar os índios, nada esperar dos pretos”. A música “Estrangeiro”, de Caetano Veloso, traz a tona algo que anda cada vez mais em ascensão no Brasil e no mundo, apesar da evolução na política e nos costumes nos últimos 50, 60 anos ter sido uma constante. Neste tempo, a humanidade conseguiu encarar de frente a grande maioria das diferenças que estavam ocultas e de certa forma desdizer a letra de Caetano. Foram sendo agregados à sociedade os negros, mulheres, os índios, os LGBTS, em políticas afirmativas, campanhas de combate ao preconceito de gênero, raça, cor ou religião. Os deficientes não eram mais escondidos dentro das casas, passaram a ganhar a escola, as áreas de lazer e o trabalho.

Antes disso, as diferenças eram consideradas o contrário da normalidade. Esse pensamento fez com que durante muito tempo se buscasse esconder o diferente, o deixando controlado. Em boa parte da história da humanidade se buscou homogeneizar o pensamento e a cor. Ainda hoje é forte o conceito de que o melhor para o mundo é o homem branco, anglo-saxão e protestante. Um conceito vindo da Inglaterra e EUA. Na segunda guerra a ideologia Ariana, adotada pela Alemanha nazista, defendia a existência de uma raça pura colonizadora da Europa. Era uma raça branca, loira e de crânio alongado, dominadora das demais, descendente direto de Atlântida. Independente dos fundamentos que são dados, esses conceitos volta e meia retornam como uma tentação, junto com ideias do totalitarismo.

A Revista NORDESTE conversou com o filósofo Bortolo Vale, professor titular da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, sobre o momento atual com acirramento em torno de ideologias contrárias. A princípio, a partir daqueles que defendiam o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e aqueles que consideravam que se estava sendo instalado um governo golpista com Michel Temer (PMDB). Contudo, as ideias têm avançado além do campo partidário e vêm sendo ressaltadas com ataques a nordestinos, negros, mulheres, LGBTs e estrangeiros nas redes sociais, em eventos e em manifestações públicas.

Direto de Curitiba, onde é radicado, Vale conversou com a NORDESTE. A cidade sedia o QG da Operação Lava Jato, e a pouco tempo foi notícia devido um incidente com a atriz Letícia Sabatella. A atriz, defensora da manutenção do governo Dilma, foi agredida enquanto caminhava por uma praça onde manifestantes pró-impeachment se reuniam.

Para o filósofo, o atual momento vivido no país, com um movimento muitas vezes considerado ultraconservador com personagens como Jair Bolsonaro, Silas Malafaia e Marco Feliciano, não é um retrocesso. “A política ocidental sempre seguiu uma espécie de lógica de identidade exclusivista”, informa Bortolo. O termo identidade exclusivista é explicado por Scott Randall Paine, professor da Universidade de Brasília no artigo “Exclusivismo, Inclusivismo e Pluralismo Religioso”. O exclusivismo se refere a uma espécie de prática onde se exclui a possibilidade de que qualquer outra tradição (ou ideia) compartilhe a verdade de forma igual ou com valor comparável. Outras formas de ver e ser, diferentes da do indivíduo ou do seu grupo ideológico, são vistas como diversos graus de erro e de confusão. “O exclusivismo pode ser absoluto quando as outras expressões são vistas como sob o poder do mal, ou desesperadamente vinculadas ao erro”, explica Paine. Sob esse olhar, figuras como as de Feliciano, Malafaia e Bolsonaro são expoentes da ideia político/religiosa exclusivista.

A ignorância com doutorado e articulada

“Hoje nós temos que nos enfrentar não com pessoas idiotas, do ponto de vista de não ter conhecimento, mas do ponto de vista de idiotas que têm conhecimento, é o chamado idiota perfeito”, argumenta Bortolo Valle. O termo toma emprestado e amplia um conceito cunhado pelos psicólogos Justin Kruger e David Dunning, conhecido como o “efeito Dunning-Kruger” ou a síndrome do “idiota confiante”. Trata-se de uma espécie de distúrbio cognitivo dos indivíduos que ignoram o limite da própria ignorância. Quando o indivíduo não sabe aferir o que realmente não sabe e ao invés de adotar uma postura mais comedida em relação a desafios que estão além da sua competência, se mostra mais confiante. O conceito foi criado em 1999 em um artigo publicado pelos dois psicólogos norte-americanos, como resultado de uma pesquisa. Para os pesquisadores, a confiança excessiva parece ser um indicador de incompetência, enquanto a humildade parece ser um indicador de competência. 


Em julho, o próprio Dunning sugeriu que sua teoria seria a chave para justificar a ascensão do candidato republicano Donald Trump à liderança das pesquisas na eleição presidencial americana. O pesquisador aponta que Trump é enfático em suas afirmações, mas desconhece temas fundamentais à presidência dos EUA, como o programa nuclear ou a política externa. O discurso, segundo Dunning, é aceito facilmente por eleitores que vivem situações materiais e emocionais adversas. Eles gostam das bravatas de Trump, mas são incapazes de reconhecer suas gafes como erros porque não sabem que elas são erros. Uma outra questão ‘levantada’, agora pelo filósofo galés Bertrand Russel (1872-1970), é que “o problema com o mundo moderno é que os idiotas estão seguros e os inteligentes cada vez mais cheios de dúvidas”. A frase escrita na década de 1930, antecipava a ameaça totalitaristas do nazismo, fascismo e comunismo. 

A inteligência e o totalitarismo

Bortolo Vale afirma que há algum tempo ao se falar em intolerância e na aceitação do diferente se combatia a ignorância, mas hoje não é uma questão das pessoas não saberem. Quem defende ideias como o retorno dos militares são pessoas inteligentes e que têm acesso a informação. Essas pessoas, além da ideia do idiota confiante, seriam como idiotas perfeitos, aferrados numa espécie de lógica que não aceita o diferente e ainda consideram que têm argumentação com fundamento para isso, sejam argumentos religiosos, de raça ou de padrão psicológico. “O bom no Brasil é o paulista, o sulista, esses trabalham. Nordestino não é bom, então fora com o nordestino. Tem gente esclarecidíssima defendendo a separação do sul do resto do Brasil. (Eles pensam), o Brasil do sul é uma coisa, o nordeste é que não trabalha, que não produz, que não está dentro da lógica do que é ser o suposto brasileiro, esse tem que ser colocado para fora. A lógica diz assim: o importante é o macho e a fêmea, o homem e a mulher. Aquele que não é o homem e a mulher, no sentido de macho e fêmea, biologicamente falando, esses são gente que têm que jogar fora, combater, dar paulada”, ressalta. O filósofo lembra que esse raciocínio busca fazer com que o negro seja como um branco, assim ele será aceito. Em relação a mulher, Bortolo explica que o ocidente nunca gostou da mulher, sempre a colocou em segundo plano, preferindo aquela que esquentava a barriga no fogão e ficava horas no tanque. “O humano é plural, é fundamentalmente diferente. E quando a gente não consegue trabalhar com o diferente acontecem as perseguições: Eu não gosto do estrangeiro, do nordestino, de quem não pensa comigo, que não veste a mesma coisa que eu visto, que não ouve o que eu ouço, que não se comporta do mesmo jeito que eu me comporto”, lamenta.
O termo Idiota Perfeito, apresentando por Bortolo, significa aquele que tem conhecimento, mas que se coloca dentro de uma espécie de ideologia que não dá lugar no seu discurso ao diferente. “Então a gente está vendo surgir hoje, e isso é nefasto para a espécie humana, uma gente que vai contra toda a diversidade do que é propriamente dito humano, que não quer colocar isso nas suas pautas sociais e políticas. É uma lástima! Brigar com gente que tem conhecimento, lê, estuda, mas não consegue enxergar um palmo a frente do nariz”, lamenta.

Para o Idiota Perfeito, segundo Bortolo, o discurso tem que ser incorporado, o contrário precisa perder sua identidade ou ser eliminado. “Porque o diferente me causa medo, me desinstala, coloca a minha convicção em xeque. Isso a gente vê na relação do Sul em relação ao nordestino. De onde que é? Do nordeste. Pode vir alguma coisa boa do nordeste? Não pode. Então esse tem que ficar fora. Eu faço concessõeszinhas a ele. Ah, o nordestino tem uma coisa boa, a alegria, o São João. Mas é só isso. Então eu vou permitir que entre (na minha casa, bairro, cidade). Como eu posso permitir?! Eu tenho capacidade de permitir que o outro entre, que o gay entre, a mulher, o negro, o estrangeiro. Isso é terrível para o nosso tempo. Isso vai contra o sentido humano. Todo mundo tem que aceitar o mesmo Deus? Quem disse?”, questiona. “Para o diferente só tem duas saídas: ou nós o cooptamos, trazemos o diferente para o nosso lado, ou nós o eliminamos. Dar a identidade que se quer que elas tenham. O branco quer que o negro seja branco, o sulista quer que o nordestino seja sulista, o homem quer que a mulher pense como homem, o gay tem que ser escorraçado porque faz coisas que o homem normal não faz”. Para o filósofo, a consequência disso tudo é mesmo a volta ao totalitarismo, de certa forma já pontuado pelo discurso do Donald Trump, nos EUA, e pela ascensão da direita na Europa.

Radicalismos de esquerda e direita

Bortolo lembra que a riqueza do diferente pressupõe o diálogo. “Diálogo é fundamental em política. Eu não sou obrigado a pensar como você, mas eu tenho que defender o seu direito. A tensão sempre vai existir. Tensão é a essência da política, agora o problema é quando eu, do meu ponto de vista, não consigo olhar para o ponto de vista do outro. Aí cai no fundamentalismo de direita ou de esquerda, ambos são perniciosos”. O filósofo ainda afirma que não há defesa possível à cusparada – a referência é a cusparada dada por Jean Willys ao deputado Jair Bolsonaro durante votação do impeachment de Dilma. “Eu acho que quando você é bicho, tudo bem. Quando pega a expressão: animal racional, e fica só com o animal, então vamos cuspir. A cusparada está no mesmo nível de queimar na inquisição, colocar num campo de concentração. A cusparada é um argumento do idiota perfeito. É a mediocrização da discussão. Quando não tenho argumento, parto para a violência”, pontua. “Nós já tivemos coisas do arco da velha como seres ditos irracionais. Como vamos explicar coisas como a escravidão, servidão da mulher, a morte aos estrangeiros. Como explicamos isso do ponto de vista racional? Não tem como explicar. Por que vamos à escola? Por que eu vou aprender português, inglês? Para dizer que o inglês é mais importante que o português? Espera aí, né. Como eu vou pensar desse jeito? Quem disse que o inglês é mais importante que português, que a música americana é mais importante que a brasileira? Que o homem é mais importante que a mulher? Que o macho é mais importante que o gay? O paulista é mais importante que o nordestino? O branco é melhor que o negro? Como vou dizer isso? Eu vejo que no sul há certos narizes tortos aos haitianos que estão aqui. Ah, Haiti fede. Seres humanos que fedem! Como vamos explicar isso do ponto de vista humano? Não tem explicação… Do ponto de vista do bicho tem. O bicho refuga o outro bicho, agora do ponto de vista humano acho meio estranho isso”.

 A reflexão e a educação na escola

Bortolo afirma que o que mais assusta é que todo o aparato educativo e informativo que foi sendo construído ao longo do tempo e hoje a sociedade tem a disposição, não tem ajudado a mudar a intolerância. “Eu fico muito preocupado com as redes sociais. As redes sociais ao invés de promoverem uma espécie de união estão fazendo acirramentos. O nosso tempo é um dos piores. Se você olhar a história você vai perceber o quanto nós fizemos violência. Agora o mais dramático hoje é capacidade que nós temos de justificar a violência e isso diante de um mundo que se abriu ao diferente”, ressalta.

O filósofo critica a ideia de uma escola sem partido que tem ganhado força e vem sendo defendida por vários movimentos. “De onde saiu isso?! Quem é o gênio maravilhoso que teve esse lampejo de colocar um ambiente informativo como a escola sem partido. Vou fazer o quê na escola se não vai ter partido, não vai ter diferença, se não vamos enfrentar as coisas. Eu fico imaginando qual o gênio?! E esse gênio, provavelmente, deve ser um gênio que tenha doutorado”. O movimento da Escola Sem Partido foi idealizado em 2004, pelo procurador do estado de São Paulo, Miguel Nagib, que enxergou conteúdo ideológico após um professor de sua filha citar que o revolucionário argentino Che Guevara e o santo católico São Francisco de Assis, abandonaram a riqueza pela causa que acreditavam.

O projeto acabou sendo encampado pelos filhos do deputado Jair Bolsonaro, o deputado estadual, Flávio Bolsonaro (PSC), e o vereador Carlos Bolsonaro, que apresentaram projetos respectivamente na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e na Câmara de Vereadores. O projeto já foi aprovado em ao menos três cidades, no estado de Alagoas, e tramita em ao menos outros cinco estados e oito capitais. Os principais pontos do projeto são impedir qualquer afronta às convicções religiosas ou morais dos pais e dos alunos e impedir a apresentação de “conteúdo ideológico” para os estudantes.

Na mesma manifestação que confrontou Letícia Sabatella, foi notícia uma foto em que uma manifestante carregava um cartaz em defesa da Escola Sem Partido e o livro “Professor Não é Educador”. O livro polêmico foi escrito pelo filósofo Armindo Moreira, português de nascimento, que já lecionou em Angola e agora ocupa cadeira na Unioeste, no Paraná. No livro, Moreira argumenta que educar e instruir são coisas diferentes. Ainda segundo o filósofo, o professor não seria educador, porque educar pressupõe uma relação de amor com os alunos e isso não deveria ser obrigação em troca de salário, essa seria uma função da família. A função do professor seria instruir, proporcionando conhecimentos e habilidades que permitam à pessoa ter seu ganha-pão. Ainda que as afirmações de Moreira não sejam sofismas, e possam ser consideradas verdadeiras, talvez a questão seja mais profunda e esteja sendo abordada pelos movimentos brasileiros de forma superficial, de qualquer forma Bortolo é contra a ideia. “Essa situação é estarrecedora, dantesca. Então aí a gente vê o processo educativo se esvaindo. Educação política de quê jeito? para fazer o quê? para preparar para quê? Para o igual? Não se vai preparar para o igual, chama os militares e bota todo mundo igual, todo mundo pensa igual, tira a liberdade de expressão. O que é o espaço informativo para a democracia e para a política? É um espaço para ver que o mundo é feito de diferenças”, defende.

Brexit e xenofobia

A atual situação no Brasil, com o crescimento da polarização e dos movimentos conservadores, inserem o país num movimento em escala mundial. Algo parecido tem acontecido na Europa, quando os ingleses pedem para que estrangeiros deixem o país, após a saída do país da Comunidade Europeia, os poloneses em marcha gritam para que os refugiados da Síria sejam expulsos da Europa e brigas dentro da Alemanha sinalizam o retorno de ideias nacionalistas. Enquanto isso, nos EUA, Donald Trump, avança pregando o medo e a rejeição ao estrangeiro. A xenofobia europeia sempre existiu e assim cria-se e é reforçada uma identidade inglesa, francesa, e alemã, lembra o filósofo. “E nós estamos no mesmo compasso, no mesmo nível. Mas quando nós tentamos entender como nos formamos enquanto brasileiros, vemos que o nosso passado é plural, só que nós achamos que alguns desses elementos é que são os verdadeiros brasileiros. E essas diferenças vão se acirrar cada vez mais. Porque antigamente elas não eram ditas, elas hoje são ditas. Essas vozes, caladas antes, hoje têm liberdade. Nós sempre fomos contra alguma coisa, mas não tínhamos coragem de falar. Quando o Bolsonaro fala que gay tem que morrer, é uma coisa que muita gente queria falar. Agora o que ele faz, ele fala do ponto de vista de alguém que tem poder de fazer leis e inclusive para isso. Agora junte um louco desses com mais outro louco desses, com mais dez iguais a esses e veja onde vamos terminar”, finaliza. 

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