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Brasil

06/01/2015


Revista NORDESTE afirma que mulheres ainda enfrentam conservadorismo

ÚLTIMA EDIÇÃO

por Flávia Lopes

Os primeiros passos femininos rumo ao caminho da conquista de direitos foram dados em 1893, na Nova Zelândia, guiados por Kate Sheppard, personagem de maior destaque na luta pelo sufrágio das mulheres. Desde então, a evolução do gênero em espaços políticos e sociais têm sido gradativa. No Brasil, em 1932, antes do voto ser universal, o direito era resguardado apenas a mulheres casadas com o aval do marido ou viúvas, as solteiras podiam votar caso tivessem renda própria, além de também poderem se eleger. Levou dois anos para que a garantia da cidadania fosse realmente concedida às mulheres, independente de sua condição, com a aprovação do Código Eleitoral, em 1934, instituído no governo Vargas. A busca pelos direitos femininos, no entanto, continua, e essa democracia jovem ainda reflete heranças do conservadorismo.
“A sociedade ainda vê como finalidade principal da mulher a maternidade e o casamento, isso é cultural e é muito difícil de desconstruir”, diz Rosana Schwart, socióloga, historiadora e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, comentando a queda de nove posições do Brasil no ranking de igualdade de gênero. O levantamento, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, mostrou que este ano o país está na 71ª colocação da lista, quando em 2013 apresentava a 62ª posição, entre 142 países. O relatório levou em consideração as diferenças entre homens e mulheres em vários setores da sociedade como saúde, educação, economia e indicadores políticos.
A igualdade entre os gêneros se manteve apenas nas áreas de educação e saúde, em que o Brasil obteve, respectivamente, as notas de 1 e 0,98 (quanto mais perto de 1, maior a equidade e o valor zerado significa desigualdade total). Rosana explica que os índices positivos nesses aspectos mostram que as mulheres vêm se cuidando profissionalmente e estão também tendo mais sucesso. “Aumentou muito a faixa etária média dos casamentos e isso faz com que a mulher tenha tempo de se capacitar, de se planejar”, afirma.
Porém, o que chamou atenção no levantamento foi a perda que o Brasil obteve na participação feminina na economia e na política. No ranking político, o país conseguiu a 74ª posição e alcançou o índice de 0,148. O valor é maior que o obtido no último levantamento (0,144) em 2006, mas a evolução ficou aquém do crescimento de outros países, o que não interferiu na sua alavancada na lista. O relatório apontou também uma “ligeira queda na desigualdade salarial e renda média estimada” para as brasileiras, colocando o país na 81ª posição da lista nessa área.
Em entrevista à Revista NORDESTE, a ex-candidata à Presidência da República, Luciana Genro (PSOL), afirma que os índices são reflexos negativos do conservadorismo da sociedade. “O machismo é um componente que constitui a sociedade tal qual ela é, carregada de exploração e opressão. Nosso país carrega esses traços desde a colonização, o papel do homem no comando da família, das instituições, da polícia, da política. Essa posição de domínio do homem infelizmente se traduz em violência contra a mulher, ainda física e também simbólica”, comenta Luciana. Iniciada na vida política desde os 17 anos, ainda no movimento estudantil, ela pontua que o Brasil está muito atrasado no combate ao machismo. “Mesmo que reconheçamos as campanhas de prevenção ao câncer de mama e a Lei Maria da Penha, outras causas de morte das mulheres, como a questão do aborto, ainda são observadas pelo prisma religioso e não como deveria ser, uma questão de saúde pública. Nesse caso e em outros, a força do machismo ainda se impõe”, declara.
A ex-vereadora Sandra Marrocos conta que enfrentou diversos preconceitos durante seu trajeto político, principalmente quando chegou à Câmara Municipal de João Pessoa, onde exerceu o cargo de vereadora. Hoje, à frente da Fundação da Criança e do Adolescente (Fundac), também na capital pessoense, ela assegura que as mulheres carregam um fardo simbólico. “Somos referências das bruxas que foram queimadas, as mulheres que foram acusadas de bruxarias porque ousaram desafiar naquele tempo histórico; das mulheres que foram para as ruas, que lutaram pelo direito de votar. A gente tem 80 anos de condição de votar, isso é muito pouco”.

Empoderamento político
Os espaços políticos do Brasil têm ganhado maior participação feminina, chegando até mesmo a eleger a primeira presidente da República mulher: Dilma Rousseff. A socióloga Rosana Schwart acredita que a eleição dela serviu como um passo importante para a efetivação da imagem da mulher nas instâncias de poder. Além disso, Rosana mostra como o cenário das últimas eleições foi significativo para a representação feminina no poder.
“Nesta eleição, nós tivemos três grandes mulheres disputando, que tiveram uma trajetória política importante. Uma mulher de esquerda, com uma luta muita forte, que é a Luciana Genro, que mesmo tendo seu pai na política, teve uma história independente disso. A Marina, que criou todo um objetivo e caminhou para alcançar esse objetivo. E a Dilma, que é militante, sofreu tortura, repressão e continuou crescendo no patamar das discussões políticas, mostrando que é capaz”, declara.
Ter uma mulher como representante de uma federação é significativo, porém, analisando o quadro de governadores eleitos neste ano, a situação mostra que os homens ainda lideram, consideravelmente, o espaço político do Brasil. De todos os estados, apenas uma mulher foi eleita governadora, em Roraima. Com 54,85% dos votos, Suely Campos (PP) assumiu a candidatura depois da impugnação do seu marido, Neudo Campos.
Rosana explica que os resultados das eleições são reflexos do contexto social atual e que a inclusão das mulheres na política ainda precisa de impulsos como cotas e apadrinhamento, por exemplo. “Muitas vezes as mulheres entravam na política por causa das cotas, apenas para preencher as vagas. Muitas outras entravam porque eram parentes ou esposas de políticos que já estavam no poder, ou que já tinham uma carreira na política”, explica.

Poder feminino
A socióloga Rosana Schwart acredita que quanto mais mulheres nos poderes executivos e legislativos, mais chance há de se levantar assuntos considerados polêmicos. “Eu acredito que, aumentando o número de mulheres na política, aumenta as chances de discutir alguns temas tabus. As mulheres estão mais abertas para discutir outras sexualidades. Ela trata a homossexualidade, por exemplo, com mais facilidade porque não barra no machismo. Como ela já foi discriminada nesse sistema, tende a olhar com mais cuidado para as minorias, para quem sofre ou sofreu opressão”.
Luciana Genro, no entanto, que participou ativamente das últimas eleições, chegando a ter mais de 1 milhão de votos, aponta que a participação feminina na política ainda é baixa, principalmente nos cargos eletivos. Ela afirma também que é difícil ser mulher e fazer política.
“São poucas mulheres que conseguem deixar marido e família em casa para ir a uma reunião à noite ou para passar o final de semana em seminários e congressos políticos. A política é um ambiente masculino e machista, que trata de descaracterizar as mulheres, em especial as com posições firmes. É normal que se façam comentários de uma mulher na política sobre a sua beleza, cabelo, se usa batom ou não, definem as mais combativas como loucas ou histéricas, muitos homens tratam de estigmatizar a presença das mulheres na política. Vencer essas barreiras é um desafio a ser conquistado. A auto-organização das mulheres é fundamental nesse aspecto”, declara.
Também atuante política, e secretária geral do PDB, Sandra Marrocos conta que sentia o escárnio quando defendia suas posições de maneira firme na Câmara. “Fora o preconceito de achar que você não está pronta para fazer o embate quando é necessário. Eu tenho uma posição muito forte quando faço uma defesa. E o que é que dizem? ‘Ela está destemperada ou ela é louca’, querendo desqualificar o discurso da mulher. O homem quando faz isso é forte, a mulher é louca. Isso é o pior tipo de preconceito que existe”, desabafa.

Leia a reportagem completa na edição 96 da Revista NORDESTE que está nas bancas.

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