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Brasil

30/12/2016


Revista NORDESTE analisa como foi o ano no Brasil e no mundo

Democracia em xeque

2016, Adeus Querido! 

Por Paulo Dantas

Este foi um ano profundo e complicado. Profundo, porque tudo ficou mais complexo, parece que milhares de interconexões foram se fazendo e tornado tudo muito mais interligado. O mundo nunca esteve tão próximo em suas guerras, eleições, escolhas, caminhos e descaminhos, como num episódio de Sense8 – no seriado oito personagens sentem, pensam e têm experiências em conjunto. Tudo também ficou mais complicado, ainda que muitos tenham desejado fazer escolhas que parecem mais objetivas (como eleger Trump nos EUA e apoiar o impeachment de Dilma Rousseff, no Brasil), acreditando que assim iriam simplificar as coisas, parece que tudo isso colocou mais tensão no ambiente, e o que era para ser simples tornou o mundo e o entorno mais estranho. A angústia e a insatisfação deu o tom das massas.

Movimento conduzido pelo impeachment de Dilma Rousseff fez Brasil pender para a direita.

Marine Le Pen, candidata da ultra direita que pode ganhar as eleições presidenciais na França.


O cientista político Vitor de ngelo Amorim falou desta insatisfação e do desejo de mudança que permeou o imaginário das pessoas à Revista NORDESTE. Segundo ele, esse desejo foi bem canalizado pela direita. No entanto, Amorim afirma que esse desejo de mudança levou a uma transformação radical e para fora de propostas democráticas. “Quando a gente olha por exemplo o cenário francês, você vê que lá temos um presidente socialista aprovado por 4% da população francesa. É o presidente mais impopular desde a segunda guerra e os dois candidatos que apontam para a disputa presidencial do ano que vem como possíveis vitoriosos é o François Fillon, que é de direita, e a Marine Le Pen, que é de extrema direita. Então há um contexto favorável a esse discurso da direita, que não está apenas no Brasil. Se formos aos Estados Unidos veremos a mesma coisa”, pontua.


Uma das explicações, para Amorim, seria o medo. Na Europa isto estaria dentro do contexto do terrorismo. A sensação de insegurança geraria um temor grande, enquanto as bandeiras da esquerda sejam mais associadas a defesa dos direitos humanos, as direita aposta no combate bélico, típico de um discurso mais conservador. “Isso acaba sendo muito frágil, para uma parcela expressiva da opinião pública. No Brasil algumas dessas coisa são bastante parecidas. A questão do terrorismo não se coloca, como eu disse, mas tem uma série de outras questões que estão na ordem do dia para uma série de países na América do Norte, na Europa, no Oriente”.

 

O movimento que acontece hoje no Brasil não está desagregado do que é visto no resto do mundo. Além da eleição de Trump, e a já certa ascensão da direita na França, nesse caldeirão econômico, social e político, é importante frisar a saída da Inglaterra da Comunidade Europeia, o Brexit; a eleição de Maurício Macri, na Argentina. Também é possível agregar a esse cenário, Vladimir Putin, a guerra na Síria e o imenso deslocamento de refugiados pelo mundo. Confrontos com grupos terroristas com ataques nos EUA, França e Bélgica. Além disso, uma disputa pela Lua entre EUA, China e Rússia, promete novos capítulos e tensões. O mundo está em transição e caminha a passos largos para o conservadorismo, discutindo e colocando em dúvida avanços conseguidos nos últimos anos em lutas pelos direitos das mulheres, LGBTs e negros. O psicólogo Rossandro Klinjey, entrevistado nesta edição nas páginas azuis, explica essa guinada à direita de boa parte da humanidade da seguinte forma: “O conservador dá uma resposta simples. As pessoas querem alguém que cuide delas. O conservador é aquele que chega e diz assim: eu vou fazer a América grande novamente, eu vou fazer você ter emprego, vou trazer a fábrica para cá, vou resolver o seu problema. O que acontece nesse momento de angústia é que as pessoas querem que alguém venha com uma receita pronta”, explica.

 

Mudanças no Brasil não atenuam crise


Para um dos líderes da esquerda no Brasil, Guilherme Boulos, da coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), 2016 foi um ano de retrocesso no Brasil. Retrocesso democrático e social nos direitos. “Democrático porque se consumou um golpe parlamentar, institucional. 2016 vai ficar lembrado nos livros de história como o ano de um golpe, esse golpe atacou a soberania do voto popular e colocou um governo ilegítimo no comando do país, mas também de retrocesso social porque o programa que vem do Governo ilegítimo é um programa de retrocessos brutais nos direitos sociais. Como a PEC do Teto, que é uma verdadeira desConstituinte… congela investimento público durante 20 anos, uma coisa inédita. Nenhum país no mundo adotou uma medida tão draconiana como essa, como foi representada agora a reforma da previdência… é um 2016 que vai ficar marcada como ano de retrocesso”.

Apesar de saída de Dilma e ascensão de Michel Temer ao poder, país continua com sensação de desgoverno, segundo analistas.


Já para um dos líderes do Movimento Brasil Livre (MBL) e hoje eleito vereador de São Paulo, Fernando Holiday, 2016 foi o ano em que milhares de brasileiros resolveram tomar o destino nas mãos. “2016 foi um ano mais do que tenso. Nós tivemos profundas mudanças. Antes de mais nada, nós tivemos a conclusão de um processo de impeachment que começou lá atrás nas ruas, no dia 15 de março de 2015 com a até então maior manifestação dessa história. 2016 conseguiu superar essa manifestação. Hoje nós temos cavado na história do país a maior manifestação contra o governo do PT, contra um governo de esquerda. A sociedade deu um show e disse de forma muito clara para que lado ela queria que o país fosse guiado. As próprias eleições municipais mostraram isso. O MBL foi a iniciativa liberal que mais elegeu pessoas pelo país, teve o resultado fantástico para um movimento que começou há 2 anos exatamente. Elegeu nove pessoas pelo país inteiro. Pessoas que vieram desses movimentos de rua. Além disso apoiamos prefeitos com viés mais liberal, com viés diferente daquele que vinha sendo hegemônico nas últimas eleições. 2016 foi o ano em que o Brasil deu uma sinalização: não quer mais continuar caminhando para a esquerda e que quer uma mudança significativa no seu rumo”.


Vitor Amorim acredita que o Brasil acabou sendo uma espécie de espectador privilegiado da turbulência mundial. “Aqui, ainda mais, tivemos ingredientes de todas as origens: politicas, econômicas, sociais. Só aumentaram a crise”, pontua o cientista. “Porque a gente continua envolto em problemas econômicos, políticos, sociais. Foi um ano, não vou dizer de transformações, mas certamente de muitas mudanças. Acho que as transformações ainda estão por vir. E elas decorrem especialmente da agenda que esse governo vai acabar implementando mais cedo ou mais tarde. Especialmente na área econômica e social”.


Realmente, a política econômica implementada pela equipe de Michel Temer não têm surtido o efeito desejado. O governo já anunciou redução da projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas produzidas em um país) em 2017, de 1,6% para 1%. Para 2016, a projeção, que era queda de 3%, piorou, passando para uma contração de 3,5% da economia. As informações foram divulgada pelo secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Fábio Kanczuk. O governo também revisou as estimativas da inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pelas novas previsões, o IPCA acumulado em 2017 ficará em 4,7%, ante 4,8% estimado em agosto. Para 2016, a projeção para a inflação caiu de 7,2% para 6,8%, segundo a equipe econômica.

Guilherme Boulos afirma que Brasil pode viver convulsão social em 2017.


Em relação ao Nordeste, as noticiais também não são das melhores. A região enfrenta piora mais acentuada em seus principais indicadores econômicos na comparação com a média do país. Além disso, tem alta dependência dos municípios por verbas públicas e enfrenta uma seca que já dura quase cinco anos. Em relação a inflação o índice da região ainda é superior ao nacional. A avaliação é do Escritório de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), órgão de pesquisas do Banco do Nordeste. Segundo o Etene, os gastos que compõem o grupo "Saúde e Cuidados Pessoais" subiram 0,70%, sendo responsáveis por quase metade da inflação do Nordeste em novembro. Em Fortaleza e Recife, esses produtos tiveram aumento mais elevado, de 0,77% e 0,71%, respectivamente. Salvador, por sua vez, teve o crescimento percentual para esse gênero, com alta de 0,65%. No acumulado de doze meses, a inflação regional registrou 7,89%, superior à nacional, de 6,99%. Assim, apesar da boa expectativa de Fernando Holiday, o cenário continua nada auspicioso. O país se mantém em rota de turbulência e para o FMI, o Brasil agora é a 9º economia do mundo.

 

A democracia em xeque no mundo


Donal Trump ganhou eleições nos EUA e lança grande interrogação sobre como será a política externa dos norte-americanos.

 

“Durante muito tempo houve uma interpretação corrente, existe ainda, na ciência política, sobretudo, que uma vez consolidada a democracia, ainda que a sociedade não tivesse valores democráticos, as instituições permaneceriam. É uma confiança, quase mística de que a democracia é uma coisa inexorável, então uma vez que se alcançou é como chegar ao paraíso. E há uma corrente mais contemporânea que vem questionando essa interpretação, à luz do que acontece no Brasil, na Europa, nos estados unidos, no Japão, na Coréia do Sul. São países cujas democracias estão acima de quaisquer suspeitas, incluindo a do Brasil, uma democracia sólida do ponto de vista institucional. Basta ver que excetuando-se qualquer divergência com relação ao caráter do impeachment, se foi um golpe ou não, o fato é que o país não acabou. Saiu um presidente, entrou outro, existem as instituições que funcionam, independentemente dos resultados que elas produzem. Então a democracia do ponto de vista formal, existe. Só que quando olhamos um nível abaixo, do ponto de vista substancial, que é o que está sendo questionado, então a democracia parece ser algo muito, muito frágil. A representatividade das nossas elites é muito questionável, não só aqui, a pluralidade e o respeito à pluralidade tem sido cada vez mais um enorme problema. A intolerância tem progredido como nunca. As saídas fáceis e as saídas conservadoras, reacionárias tem ganhado cada vez mais espaço. E isso você vê em várias nações”, argumenta o cientista político Vitor Amorim.

 

Jair Bolsonaro deve disputar eleições presidenciais em 2018.


A questão, em parte é econômica, afinal existe uma crise mundial desde 2008 que não foi superada e ameaça retornar constantemente. A Grécia continua patinando numa economia praticamente destruída, o desemprego em Portugal bate recordes, e a Espanha e a Itália não conseguem deslanchar. Apesar de uma leve recuperação da Inglaterra, a Alemanha é de fato o único país que ainda parece imune a crise. O mundo começa a ver que a globalização mostrou seus problemas, apesar dos inúmeros ganhos.


Assim, no conjunto de países que alcançaram maturidade para o regime democrático, no entender de Amorim, é possível ver o regime fazendo água do ponto de vista social. O cientista político acredita que isso acontece porque a sociedade não entende que a democracia é um regime inexorável, com valores inquestionáveis. Para abalizar esse ponto de vista o cientista lembra uma pesquisa de opinião pública feita em toda a América Latina onde uma parcela expressiva dos latino americanos já consideram que os valores da democracia podem ser, dependendo da circunstancia, suspensos. “Ou seja, a democracia é vista como um regime importante, mas existem circunstâncias em que talvez você possa apelar a outras formas de poder político. Isso abre brecha, pensando em uma eleição nossa que se avizinha em 2018, para candidatos à semelhança desse que se vê hoje na França, sendo de direita ou, pensando no Bolsonaro, de extrema direita. Então esse é um cenário que está claramente colocado no Brasil de hoje, e que, no meu entender, não tem nada de positivo, ele é extremamente perigoso”, avalia.

Rossandro Klinjey acredita que uma crise nos modelos existentes no mundo.


Rossandro Klinjey entende que o que está acontecendo no mundo é o esgotamento dos modelos. Modelo de educação, de fazer política e padrões de sociedade. “No momento que há esgotamentos de modelos temos dois movimentos: um movimento que tenta avançar e um movimento que com medo do avanço tenta recuar. Aí você vê um radicalismo de direita e um radicalismo de esquerda”, entende. O psicólogo que viaja o mundo dando palestras motivacionais acredita que houve um exagero do discurso das minorias que começaram a se impor como mais importante que a maioria. “Nos EUA, por exemplo, que é um país de maioria cristã, impor uma agenda LGBT gerou um ressentimento muito profundo nas pessoas. Uma coisa é você tentar fazer com que a sociedade seja tolerante e outra coisa é impor isso como um modelo superior. (Dizer que) todo mundo que apoia isso é moderno, é inteligente, sagaz, capaz, e todos que são contra isso são idiotas, alienados religiosos, políticos e pobres. Quando você cria essa divisão muito simplista, cria ressentimento. Claro, um grupo fica aguardando um momento… aquilo que quando Trump ganhou a gente viu lá nos cartazes que é: ‘eu sou a maioria silenciosa’. Ou seja, estavam aguardando o momento para mostrar que continuavam tendo as suas opiniões. Se é para pegar a pluralidade das ideias da sociedade tem que se respeitar até esse grupo que tem dificuldade de aceitar essa pluralidade. E ele não foi respeitado. A gente tem visto isso também no Brasil com o discurso de Bolsonaro”, alerta.

Cientista Político Vitor de Ângelo Amorim: crise na democracia.


Questionado sobre quais os próximos passos que serão dados pela humanidade, Vitor Amorim e Rossandro Klinjey apontam para mais turbulência no futuro. Amorim lembra a escritora Hannah Arendt, autora de “As origens do Totalitarismo” que diz que uma das principais coisas de qualquer pensador é olhar com surpresa os fato, porque só assim consegue desnaturalizar. “Ela está falando isso há 60 anos. Em uma sociedade como a Alemanha dos anos 30, onde vai aparecer um fenômeno como o nazismo. Quando se achou que já tínhamos visto de tudo, guerras medievais, primeira guerra, conflitos de toda ordem, aparece uma experiência como o nazismo. A história é dinâmica. Isso é uma obviedade, mas é uma coisa que nos acalenta, no seguinte sentido: aquilo nos anos 30, 40 não foi o fim do mundo; pode ter coisa pior no futuro; a história continua e o que nós estamos vivendo hoje não é o pior que a humanidade já produziu. Mas não deixa de ser surpreendente, não deixa de ser impactante. E fugindo de uma questão mais política, quando você vê, por exemplo a atuação de um estado islâmico, de um Boko Haram, essas questões políticas que estamos tratando aqui, a crise em escala mundial que se arrasta desde 2008, um pouco mais, um pouco menos, aqui e ali, se percebe que está em uma quadra difícil da história, e longe de ser intransponível. Logo depois da segunda guerra mundial tivemos trinta anos gloriosos do capitalismo, que é a expressão que se conhece ali, dos anos 30 aos anos 70, mais ou menos. Depois de uma tempestade como essa, muito possivelmente a gente terá uma outra fase. Mas quanto vai durar isso aqui e quais serão seus desdobramentos é como tentar responder, no nosso caso, quando a crise acaba. Quem viveu nos anos 80 nunca imaginou que viveria um período de tanta bonança quanto se viveu, por exemplo, no governo Lula, um momento muito virtuoso no Brasil e no mundo. Ou seja, depois de um ciclo de crise é claro que aparece um ciclo de maior bonança. Mas quanto dura cada ciclo e a intensidade dele são questões muito difíceis de responder”.

Klinjey argumenta na mesma linha. Para ele hoje há um hiato entre o novo modelo e o velho. Onde o velho modelo está falido e não dá conta de resolver os problemas da atualidade, mas o modelo novo não está pronto para substituí-lo. Nesse processo entre o novo e o velho, há um hiato, e é nesse hiato que se vê todo esse sentimento de caos. Já que a velha ordem não funciona e a nova ordem não está pronta e se vive uma anarquia. “Porque há uma perda de comando. O país está com essa sensação”, ressalta. Contudo, Klinjey acredita que os ganhos sociais já obtidos não serão perdidos. “Não vai voltar uma sociedade homofóbica, racista. Pode até tentar, mas não vai conseguir. Não vai ter tempo histórico e espaço histórico para isso. (…) Então, a tendência é que depois dessa barafunda toda venha uma síntese. Ou seja, que aquela sociedade que quer a liberdade de expressão dos direitos em todos os sentidos, sexuais, raciais e religiosos, também entenda que tem gente que quer um pouco de ordenamento moral na cabeça deles. Eles acham que isso seria a representação do imoral, quando na realidade não é, mas a gente tem que entender essa visão que eles têm”, alerta. Todo esse movimento ajudará a reencontrar uma síntese, já que para Klinjey a tendência de voltar ao passado também vai se mostrar inviável e “daí, depois de passada a crise, só pode vir algo que é uma síntese, o equilíbrio dessas forças”.
 

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