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Brasil

07/06/2017


Revista NORDESTE: António Nóvoa: “Tempo de uma nova educação”

Por Walter Santos

De passagem por João Pessoa para o 2º Congresso Ibero-americano de Educação Comparada – CIEC e o 7º Encontro Internacional da Sociedade Brasileira de Educação Comparada – EISBEC, realizado na UFPB, o professor e pensador da educação, António Nóvoa, achou tempo para dar uma entrevista exclusiva à Revista Nordeste. Doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Genebra e em História Moderna e Contemporânea, pela Sorbonne, é também professor e reitor honorário da Universidade de Lisboa e estudioso de reconhecimento mundial na área de educação. Foi também candidato à presidência de Portugal em 2016, concorrendo como candidato livre. Ainda assim reuniu apoio da grande esquerda portuguesa, que acreditaram em sua defesa pela educação. Desta forma, chegou muito perto de ganhar a eleição, perdendo com uma diferença de apenas 1% dos votos.

Em entrevista para a Nordeste, que você confere nas próximas páginas, Nóvoa explicou o papel central que a educação deve ter na construção do novo mundo que se aproxima e como o ensino público foi de suma importância para rentabilização e aumento da moral portuguesa, cinco anos atrás arrasada pela crise política que afetou a Europa inteira. Através da valorização da educação e da escola pública, Portugal se reergueu e se encontra sobre uma rocha forte em comparação com seus vizinhos continentais. Falou também da importância que a ciência terá na educação, da valorização da curiosidade e da pesquisa e de como a tecnologia se tornará essencial nas salas de aula em breve. Aproveitou também e deixou suas esperanças de um diálogo mais aproximado entre Portugal e Brasil, sobretudo com o Nordeste, separados pelo Atlântico, mas unidos pelos séculos, e afirmou “Portugal está preparado para fazer esta ligação com o Brasil”.

Revista NORDESTE: Qual a importância da educação para nossa sociedade, e quais os rumos que ela tomará?

António Nóvoa: Em 2012 eu era reitor da Universidade de Lisboa e presidente da república de então, Aníbal Cavaco Silva, convidou-me para fazer o discurso do dia 10 de junho, dia de Portugal. Nessa data o presidente escolhe uma personalidade o discurso do dia de Portugal. O presidente convidou-me e eu vou dizer a mesma coisa que eu nunca disse, mas como já se passaram cinco anos, já posso dizer. Quando ele me convidou, eu hesitei. Minha primeira reação foi dizer “talvez não”. Tive uma hesitação. O presidente da república na altura disse uma coisa muito importante. Ele disse “não, o senhor não está a entender. Estou a convidar o professor António Nóvoa. Mas não estou só a convidar o professor António Nóvoa. Estou a convidar o reitor da Universidade Pública de Lisboa. Isto para mim foi muito importante. Porque foi um gesto do presidente da república que disse “é uma escola pública e na universidade pública é que está o futuro deste país.” O futuro deste país está no investimento da escola pública, no conhecimento, na cultura e na ciência. Não há século XXI sem uma boa educação pública e ciência. Estas duas apostas que são apostas no conhecimento, são as apostas decisivas para o futuro do Brasil. Não há outras. As outras tantas vêm depois, pois são de outra ordem. Então é preciso ter uma escola pública inclusiva. A escola pública portuguesa é melhor do que as escolas privadas. As escolas públicas na Europa, de modo geral, são melhores do que as escolas privadas. O Brasil tem que ter uma escola pública melhor do que as escolas privadas. Uma escola onde estejam todos os alunos. Isso passa por um reforço dos professores, de sua autonomia, de seu prestígio, passa pelo envolvimento dos pais e das famílias, passa por um conjunto imenso de coisas que deveriam estar no centro do debate público brasileiro. E ao mesmo tempo a ciência. No século XXI tudo que é inovação, invenção, criação tem uma base científica. No século XIX, XX, não era assim. Hoje tudo que é invenção tem uma base científica. E se não tivermos essa base científica não chegaremos a lado nenhum. Eu disse isso em 2012, há cinco anos no dia de Portugal e muita gente pensou “ah, o discurso é bonito, mas o homem é um lírico, um utópico. Nós no meio de uma crise, tanto desemprego, tantos jovens formados em Portugal indo para o estrangeiro”. Cinco anos mais tarde são essas coisas precisamente que estão a fazer o sucesso de Portugal. São essas políticas que estão a fazer o sucesso de Portugal. Por que Portugal é assim hoje? Justamente pelo investimento forte nas escolas públicas e na ciência.

NORDESTE: Professor, a tecnologia, sobretudo o universo digital, trouxe à baila no tempo contemporâneo a presença das redes sociais, os elementos digitais a gerar uma revolução profunda nas relações humanas, na cultura em si e na cabeça. De que forma esta estrutura criou uma couraça de gerar um medo entre os professores que antes eram absolutos na informação que davam, ninguém questionava, mas hoje em uma sala de aula o professor pode dizer algo e o aluno ir no Google e dizer “professor, não é bem assim”. Como o senhor analisa essa realidade?

Nóvoa: É o ponto central do ponto de vista pedagógico. O que estás a colocar está no coração do debate pedagógico hoje. Esse medo é normal. Mas todos nós sabemos o medo que causou o caminho de ferro no século XIX, que as pessoas pensavam que aquilo era um monstro que cospia fogo e que ia destruir tudo (referência à ascensão ferroviária e dos imponentes trens durante a revolução industrial). Todos sabemos o medo que causou o automóvel no século XX. Achava-se que matavam pessoas, e sabemos que não matavam ninguém. Todos sabemos o medo que causou nos educadores o cinema. Houve gente que dizia que o cinema iria acabar com as escolas e com a educação. E portanto esse medo é um medo atual e compreensível. Mas ele tem que ser ultrapassado e tem que dar origem à prescrição de que esses instrumentos com todos os seus problemas, com todas as suas dificuldades é um instrumento poderosíssimo para incluir as crianças, para conduzir outras formas de aprendizagem, para trabalhar de outra maneira. O conhecimento, é importante dizer no Brasil, é decisivo na escola. A escola não é para entreter as crianças. Não é para fazer jogos. É bom que as crianças se divirtam na escola, mas o objetivo da escola não é divertir as crianças. O objetivo das escolas é que elas aprendam o conhecimento. Que elas sejam incluídas através do conhecimento. Mas este conhecimento já não é mais transmitido nas aulas tradicionais. É através da pesquisa, da descoberta. Porque eu falei da ciência há pouco? Porque nós temos que ir à ciência buscar a maneira hoje para organizar nosso ensino e a nossa aprendizagem. Problemas, descoberta, curiosidade, pesquisa, trabalho em conjunto para resolver problemas, ir à procura de solução, testar novas soluções. Isto, o modelo do que é ciência, é o modelo que temos que trazer para dentro das escolas com três, quatro, cinco anos de idade. Esta é a revolução pedagógica em curso, é uma revolução que deriva também da questão das tecnologias.

NORDESTE: Quando o senhor falou da reação de quando os grandes fatos da história se registraram, eu me lembro do velho do restelo, que jogavam pragas contras os descobridores que iam fazer de Portugal uma potência.

Nóvoa: Os velhos têm sempre razão, porque se você anunciar que vai haver um desastre, há sempre um desastre um dia qualquer. Então você tem sempre razão (risos).

NORDESTE: O senhor fala de Portugal de cinco anos atrás como se o país estivesse quebrado. E depois nos fala de uma recuperação breve, de quatro, três anos. O impacto dessa mudança vem com a tecnologia e vem com a autoestima que é aparente na sua fala. A educação teria sido um dos motores dessa recuperação?

Nóvoa: Sem dúvida. A educação, a ciência foi muito importante, e as universidades tiveram um papel muito importante, e sobretudo uma geração mais nova. Uma geração de 30, 35, 40 anos, que já tinha sido formada na democracia, que nasceu no momento da revolução de 74, uma geração 20 anos mais nova do que eu, que de algum modo tinha lá essa potencialidade. E eu dizia no momento da crise “Portugal é um país que tem liberdade, que tem boas infraestruturas, boas estradas, boas comunicações, boas redes digitais. É país que tem uma boa escola pública e uma boa educação. É um país que tem uma boa ciência e boas universidades. O que nos falta? Temos tudo para que isso dê certo.”

NORDESTE: E nesse cenário, como se deu a gestão do fator econômico?

Nóvoa: O fator econômico é o problema principal dePortugal. O que aconteceu do ponto de vista econômico? Aconteceu que se criou um clima de confiança. Hoje, a economia não é apenas uma soma de dois mais dois. Dois mais dois às vezes dá três e outras vezes dá cinco. Dependendo da percepção que temos das coisas. Cria-se um clima de confiança, um clima político de confiança. Começaram a baixar os juros dos empréstimos, de dívidas, etc. Começou a vir muito turismo para Portugal. Começou a vir muito investimento de fora para Portugal. Isso criou um momento, do ponto de vista econômico algum alívio. Mas os problemas econômicos estão lá. Esse é o grande problema de Portugal: precisa trazer aquela geração qualificada das universidades para dentro da economia. A economia portuguesa ainda é muito tradicional, do velho proprietário, pequenas empresas pouco incorporadas do ponto de vista tecnológico. Precisamos trazer esse jovens que a universidade formou para dentro da economia. Uma economia do século XXI, digital, com grande capacidade inovação, de abertura ao mundo, grande liberdade de ação. Estamos a conseguir, mas ainda falta alguma coisa. 

NORDESTE: Qual a principal atividade a compor o PIB de Portugal?

Nóvoa: Temos uma atividade econômica importante do ponto de vista das chamadas economias de serviços, que são hoje muito preponderantes na economia portuguesa. É um papel muito importante também do ponto de vista da capacidade de exportação. Temos também o turismo que é muito relevante em Portugal. Temos alguns setores tradicionais que se renovaram muito, como o setor têxtil, que a gente dizia que ia acabar com (a entrada) China, hoje é um setor muito renovado. Hoje o setor do calçado é muito renovado em Portugal. Temos uma atividade dos portos que é significativa. Isto tudo para um país de 10 milhões de habitantes.

NORDESTE: Esse são os pontos principais que diferenciam Portugal em relação à Europa?

Nóvoa: Nós temos do ponto de vista do que hoje nos diferencia da Europa, um país seguro, enquanto todos os outros estão inseguros. Quais são os países próximos de Portugal? Se olhar para Nordeste, tem a Inglaterra, o Brexit e todas as incertezas ali. Muita gente está fugindo dali para Portugal. Se olhar para norte, tem a França, com todos os problemas que tem vivido, toda a situação política, que agora deu uma acalmada, mas que não é fácil, com terrorismo, etc. Se olhar para leste onde a situação política continua em uma enorme instabilidade e se olhar mais para leste tem a Itália e um bocadinho mais tem a Grécia. Se olhar para o sul tem o norte da África, com todos os seus problemas. Então Portugal está em uma situação que no ponto de vista geoestratégico, na sua ligação com a Europa, com o Brasil e com a África, é uma plataforma absolutamente impressionante. E depois, com a questão que é para nós muito importante, a zona econômica marítima, temos hoje, em função dos novos acordos internacionais a maior zona econômica marítima da Europa toda. Porque atinge toda a costa de Portugal, mais os Açores e a Madeira, que portanto faz uma zona que é de uma riqueza ainda por explorar, na questão do fundo do mar, na questão dos oceanos. É impressionante. Portugal tem isso tudo. É um país muito atraente. As pessoas gostam de ir para Portugal. Os cientistas, pesquisadores gostam de ir e viver em Portugal. E é um país que estava quebrado.

NORDESTE: Em 86, com a novidade que foi o mercado comum Europeu, Portugal precisou se desfazer de alguns setores fundamentais como o da pesca, por exemplo, uma imposição da Espanha.

Nóvoa: Foi um erro. Foi uma Imposição da Espanha e da União Européia, de modo geral, mas foi um erro. E foi a maior desilusão da nossa história recente. Foi a ideia de que ao irmos para a União Européia ficaríamos protegidos. E abdicamos de muita coisa na área da agricultura, na área da pesca, em determinadas áreas da economia, que nunca deveríamos ter feito. Deveríamos ter renovado esses setores, mas construíndo uma capacidade própria que agora nos estar a faltar. E esse é o problema hoje da economia portuguesa. Devemos criar uma economia que tenha uma sustentabilidade do ponto de vista do país.

NORDESTE: E tradicional, do ponto de vista da pesca e de alguns setores.

Nóvoa: E renovando. Hoje temos uma zona marítima impressionante. E é preciso aproveitar isso.

NORDESTE: Portugal acompanha os avanços da tecnologia?

Nóvoa: Portugal tem uma estrutura tecnológica digital muito boa. Mas obviamente precisamos de muito mais. Quer dizer, na questão dos oceanos, hoje, há quem diga brincando ou como curiosidade que a humanidade conhece melhor o espaço do que conhece o fundo do mar. Nós nos viramos para o espaço e o fundo do mar tem provavelmente coisas que nenhum de nós sabe. Portugal tem um potencial impressionante para o qual é preciso muita ciência e muita tecnologia. 

NORDESTE: Qual o futuro das relações entre Brasil e Portugal, inserido no Nordeste.

Nóvoa: Esse era o primeiro ponto na minha carta de candidatura. Era a ideia de que Portugal tem duas identidades. Uma identidade européia, e essa identidade é central, foi hegemônica desde a entrada de 86. Parece que depois 86, para entrar na Europa, precisamos esquecer outra identidade. Viramos para a Europa e ficamos de costas para o mar. Nós não podemos ignorar a identidade européia, que é central para nós, mas ela tem que ser equilibrada com nossa outra identidade, que é a identidade que vem da língua portuguesa, da nossa relação com o Brasil, com o Atlântico sul, com a África, etc. E esta é uma das grandes potências de Portugal. Não há nenhum outro país na europa, nenhum, que tem o que Portugal tem, que possa ser ao mesmo tempo profundamente Europeu e enraizado na cultura européia e ao mesmo tempo profundamente atlântico, com essa dimensão de ligação com o Brasil. Devo dizer-lhe que Portugal, as universidades, a cultura, a economia portuguesa está muito preparada para fazer essa ligação com o Brasil.

NORDESTE: E o nordeste brasileiro, o que ele simboliza nesse contexto?

Nóvoa: Eu espero que simbolize muito, mas eu acho, não sei se é politicamente correto dizer isso, mas eu acho que Portugal está mais preparado para essa parceria do que o Brasil. Eu vejo mais resistências do Brasil para que isso aconteça, em coisas muitos simples. Por exemplo: mobilidade de arquitetos, de médicos. Portugal está preparado para isso. O Brasil está menos preparado. As corporações fecham-se. Não vale a pena grandes tratados de amizade nem grandes declarações de amor luso-brasileira se depois, no dia concreto, quando alguém chegar ao aeroporto, ou quando alguém quiser trabalhar aqui, houver um conjunto enorme de burocracias, de regulamentos de obstáculos, etc. Eu prefiro o concreto. Vamos tomar medidas concretas que facilitem essa ligação com o Nordeste. Estamos preparados para isso. As cidades portuguesas, que são cidades muito importantes, Porto, Braga, Aveiro, Coimbra, Leiria, nós estamos preparados para essa parceria, tanto no plano cultural, quanto no científico, no profissional. Se vocês também estiverem, temos aí um futuro pela frente. O Brasil é um país que tem um futuro imenso pela frente. Eu acho que valeria a pena dizer aquilo que o Mia Couto, escritor Moçambicano um dia disse sobre Moçambique, em uma oração de sapiência, na Universidade de Moçambique. Ele disse: “eu sou otimista, profundamente otimista. Porque o meu país é tão pobre e tem tantas dificuldades que eu não posso perder tempo com o pessimismo. O pessimismo é uma coisa de ricos. Eu tenho que ser otimista”. Eu acho que não podemos perder tempo com o pessimismo e o Brasil tem um futuro grande pela frente que passa por muitas das coisas que estivemos aqui a conversar. 

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