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Brasil

03/01/2017


Revista NORDESTE: Ao Brasil o que o Brasil não conhece

Cinema Novo, documentário do filho de Glauber Rocha, é um relato intimista de um dos movimentos cinematográficos e artísticos mais importantes do país, ainda desconhecido por grande parte do povo

Por Jhonattan RODRIGUES

Na década de 60 um grupo de cineastas brasileiros decidiu que queria inovar. Inovar a estética, a forma de contar uma história e as histórias que seriam contadas. Inovar na abordagem, no posicionamento, no espírito. O pessoal do Cinema Novo não estava de brincadeira. A revolta era a onda nos anos 60. A contracultura estava em sua plenitude na Inglaterra, o movimento hippie corria o mundo inteiro, e as bases do mundo chacoalhadas no pós guerra ainda permaneciam bamboleantes; a mente dos baby boomers era um solo fértil para o nascimento de todo tipo de flores, de cores e ideias que quisessem, e a primeira coisa que essa geração fez foi contestar seus pais. Com 22 anos, o baiano Glauber Rocha dirigiu Deus e o Diabo na Terra do Sol, sendo aclamado em Cannes em 1964, junto com Vidas Secas, de Nelson Pereira Filho. Glauber talvez seja o mais lembrado dos integrantes do movimento, quem sabe por ser o mais polemista, mas não era o único e certamente não é isso que passa o novo filme de seu filho, Eryk Rocha, Cinema Novo. Longe de ser uma homenagem ao pai, o filme é um sopro para manter viva a memória do movimento e todos seus integrantes. Ao contrário de apresentar novo dado histórico sobre, Cinema Novo revela o que foi o movimento pela própria ótica dos cineastas. Gustavo Dahl, Ruy Guerra, Leon Hirszman, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Nelson Pereira dos Santos, Walter Lima Jr., Paulo César Saraceni e o próprio Glauber Rocha comentam sobre o Brasil, sobre política, sobre fazer cinema e sobre o Cinema Novo, em registros onde estão sempre unidos. Entrecortando cenas dos filmes e de seus diretores à época, em um diálogo entre criador e criatura, Eryk ainda aproveita para fazer uma releitura intimista e com cenas clássicas de filmes Como Deus e o Diabo na Terra do Sol, A Falecida, Rio 40 Graus e São Bernardo, trilha sonora magnífica de Ava Rocha, também filha de Glauber.

Ganhador do Olho de Ouro em Cannes, e fazendo estreia como abertura do 49º Festival de Cinema de Brasília, Cinema Novo é a sétima obra de Eryk Rocha, que seguiu a trilha deixada pelo pai, mas como qualquer filho procurou o próprio caminho e se especializou em documentários. Seu anterior, Campo de Jogo, mostrava a realidade pelos olhos de Eryk de um partida de futebol em uma periferia da Zona Norte do Rio de Janeiro. Com Cinema Novo, ele tenta retomar o espírito de um movimento importante para ele, tanto pessoalmente quanto para todos aqueles que estão envolvidos com cinema. Nós não gostávamos dos filmes uns dos outros porque éramos amigos; éramos amigos porque gostávamos dos filmes uns dos outros”, diz Cacá Diegues logo no começo do filme. São várias as cenas em que os diretores estão reunidos, discutindo política e o cinema brasileiro. Como Glauber explica em determinado momento, o Cinema Novo é um movimento que não existe oficialmente, mas se manifesta pelo desejo de pessoas que estavam a procura de redescobrir um país. Um movimento de pensadores, feito não sobre temas distantes ou metafísicos, mas sobre a realidade do brasileiro. O que é o Brasil? O novo, de Cinema Novo, se referia a uma nova forma de pensar cinema, mas mostrava um Brasil velho conhecido, porém ignorado, desconhecido pelo próprio país. São tantas faces de um país, e até então pouco exploradas. Inspirados pelo Neo Realismo italiano e pela Nouvelle Vague francesa, movimentos cinematográficos da década de 40 e 50, que negaram a forma hollywoodiana de fazer um cinema superproduzido e levaram as câmeras para as ruas, a fim de produzir obras mais próximas do seio da realidade. 

Alguns marcos do Cinema Novo

Rio 40 graus, de 1955, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, foi um abre alas para se pensar em filmes produzidos fora de estúdio. Aproveitando a derrocada dos grandes estúdios paulistas e cariocas, como a Cinédia e Atlântida, Pereira decidiu fazer do Rio de Janeiro set de filmagem, contando a história de um grupo de garotos da favela que vendem amendoins em pontos turísticos cariocas em uma tarde de domingo. O filme foi censurado por mostrar aspectos “negativos” do Rio de Janeiro, sob alegação do título ser mentiroso, afinal a temperatura da cidade nunca havia passado dos “39,6 graus”. Vale citar também outro filme influente para o do movimento, Aruanda, do paraibano Linduarte Noronha, curta de 1960 que aborda a vida de uma comunidade quilombola isolada no interior da Paraíba, sobrevivendo apenas de sua habilidade em transformar barro em arte. Glauber Rocha se diria muito impressionado com o filme, que viria a influenciar a temática e estética de seu primeiro filme, Barravento, de 1962 e posteriormente a primeira leva do Cinema Novo, centrada no Nordeste, mais especificamente no sertão nordestino. Saindo da ideia do Brasil amigo, a primeira fase do Cinema Novo, composta por Deus e o Diabo, Vidas Secas, Os Fuzis, mostrava a violência, o autoritarismo e a realidade de uma população esquecida por seu país.

O público entretanto, não entrou em sintonia com as ideias, nem com os filmes do Cinema Novo. Como falar de libertação com um povo que não sabe que precisa ser libertado? O conforto apático da classe média é a força de uma minoria burguesa, e o status quo é a lei. A beleza do Cinema Novo é sua maldição. Vemos Leon Hirszman admitir no filme a contradição do movimento: filmes libertários e políticos para um povo não politizado. O resultado foi a baixa audiência, o que levaria os cineastas a buscar maior respaldo com o público a partir do fim da década de 60. É dessa época, auge da ditadura, filmes como São Bernardo (Hirszman, 1972), Os Inconfidentes (Pedro de Andrade, 1972) e Macunaíma (Pedro de Andrade, 1969). Glauber, nessa época, estava exilado em Cuba, mas ainda produtivo, tema mostrado em outro documentário de Eryk, Rocha que Voa (2002).
50 anos depois, as coisas não mudaram muito. Apesar da indústria brasileira ter se intensificado a partir da chegada dos anos 2000, a distribuição continua parca. Filmes brasileiros continuam ganhando prêmios, mas não sendo assistidos por seu próprio povo, que, inclusive, os vê com maus olhos. Cinema Novo, o documentário, veio no momento certo. Em tempos onde a política nacional parece ter ganhado vida própria e estar se movendo sozinha, independentemente dos desejos do povo para o qual ela deveria servir, o fogo libertário começa a se reacender e os filmes de um movimento de 50 anos nunca foram tão atuais. Correu pela internet recentemente, uma cena de Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967). A obra retrata um golpe no país sulamericano fictício de Eldorado e a luta de um jornalista poeta por sua libertação. A cena em questão, compartilhada na rede durante a posse de Michel Temer, mostra a posse do ditador Porfírio Diaz (Paulo Autran), que enquanto recebe sua coroa, exultante de poder, pronuncia os dizeres “Aprenderão, dominarei essa terra, botarei essas histéricas tradições em ordem, pela força, pelo amor da força, pela harmonia universal dos infernos, chegaremos a uma civilização.” O documentário de Eryk Rocha veio em um momento oportuno, para lembrar a um país a realidade e um cinema que ele próprio desconhece, e que ousou lutar contra a dominação apenas com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.

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