menu

Brasil

23/11/2016


Revista NORDESTE: Como um homem como Trump chegou ao cargo máximo do poder?

Por Jhonattan Rodrigues

O inesperado ocorreu. Contrariando todas as expectativas, Donald Trump é o novo chefe da Casa Branca. Nos últimos meses todas as pesquisas davam como certa a vitória da democrata Hillary Clinton, mas os norte americanos acordaram na manhã de 9 de novembro com a notícia de que Trump seria seu 45ª presidente. O resultado chegou às 5:30 da manhã e pegou o mundo inteiro de surpresa, que agora se mobiliza para tentar prever os movimentos do homem que comandará o país mais poderoso e influente do globo.
Bilionário, ex-apresentador de tv, Trump é um polemista. Sua candidatura foi marcada pela sua personalidade ácida e pelo discurso misógino, xenófobo e imperialista, que encontrou resistência entre o povo, artistas e intelectuais, que o vêem como o símbolo de uma ascensão conservadorista, e que encontrou resistência até mesmo entre membros de seu próprio partido. A campanha de Trump se baseou em uma valorização exacerbada do imperialismo norte-americano, que segundo a visão dele, estava enfraquecido. Culpa os mexicanos, os árabes e muçulmanos e os imigrantes como grande mazela do país. Como resposta, sugeriu a construção de um muro na fronteira com o México e dificultar a vida de imigrantes. Na parte econômica, prometeu valorizar o comércio do país, prometendo elevar taxas de importação, o que pode prejudicar o comércio para os chineses e até para o Brasil – Os EUA é um dos principais destinos das exportações brasileiras. As ideias vão na contramão da política de livre mercado, geralmente adotada pelo país.

O mercado internacional, inclusive, apostava ostensivamente na vitória de Clinton. As bolsas asiáticas e européias amanheceram em queda. O principal medo dos investidores é a personalidade imprevisível de Trump. "Com o Brexit tivemos um dia ruim, mas isso é diferente. Isso é o mais assustador em se colocar o cargo mais poderoso do mundo nas mãos de um homem que muitos acreditam ser temperamentalmente instável ", disse Donald Selkin, estrategista-chefe de mercado da National Securities em Nova York, segundo reportagem da agência de notícias Reuters. “Não se sabe o que prever do governo Trump. Ele teve uma retórica de campanha muito heterodoxa, contestando uma série de tradições de política externa americana; ele fez um discurso divergente do que vinha sendo proposto pelo grupo de países mais desenvolvidos, que é dar ênfase a prática de integração global, de elogio a globalização, de cooperação internacional, e o Trump tem um posicionamento protecionista que é o oposto a essa agenda que vinha sendo colocada nos últimos 20 anos. Desde os anos 90 que existe essa agenda pró-globalização. E ele faz um discurso que dá ênfase a uma ‘americanofilia’”, afirma o cientistas político Cloves Pereira. No dia de sua eleição, pessoas saíram em protesto em diversas cidades, como Nova York, Washington, Boston e Los Angeles.

Mas então, como um homem cujo discurso é contrário aos interesses de grande parcela da população, de políticos até do próprio partido e de empresários do mundo todo, conseguiu chegar ao poder? Para Cloves há um levante conservador que não é isolado aos Estados Unidos: “Eu acho que essa é uma tendência observada em escala internacional, uma grande emergência do comportamento conservador na política”, comenta. Essa onda conservadora é uma resposta às expectativas não atingidas pela geração anterior, de partidos alinhados à esquerda, no caso dos EUA, representado pelo democrata Obama. “Não é que Obama tenha falhado, é que a expectativa era muito grande. Por exemplo, por parte dos negros, que esperavam políticas muito mais afirmativas para a comunidade negra. E quando temos o aumento da violência policial contra os negros e ainda uma série de obstáculos para a integração dos negros no mercado de trabalho, gerou uma frustração. A mesma coisa pode ter acontecido em relação ao latinos. Os brancos pobres trabalhadores também devem ter tido um grau de frustração porque de alguma maneira eles estão enfrentando uma economia que estava se superando, mas não tinha atingido ápice de incorporação e oportunidade para eles”, explica o cientista político. “Essas candidaturas retratam a caracterização desse perfil de postura ideológica que encontra lastros também em muitos segmentos do eleitorado. Não é um discurso isolado, esquizofrênico e que retrate apenas os anseios do candidato. É um discurso que reproduz as expectativas e frustrações, a agenda também um segmento do eleitorado americano.”

A Vida de Donald

Nascido em 1946, no Queens, em Nova York, filho de um alemão e um escocesa, Donald Trump demonstrou desde cedo ter uma personalidade difícil. Tentando domá-lo, os pais o colocaram em uma academia militar, onde seguiu carreira alcançando o título de capitão em 1964. Em 1968 graduou-se em economia. Em 1971 assumiu o comando da empresa do pai, do ramo de construção, mas em vez das casas modestas construídas pela empresa até então, começou a construir mansões, hotéis e cassinos. Publicou alguns livros, do tipo “Como ficar rico” e “A arte da negociação”. Nos anos 90 ficou à beira da falência, mas deu a volta por cima e hoje a Forbes avalia sua fortuna em US$ 4,5 bilhões. Em 2004 se tornou apresentador do reality show “The Apprentice”. Quanto ao seu alinhamento político é tão movimentado quanto sua vida: já foi democrata, republicano, do Partido da Reforma, e agora voltou ao republicanismo. Durante sua campanha, correu pela internet o fato do desenho Os Simpsons terem previsto, há 16 anos, Trump na presidência. O desenho mostrava os EUA arrasados depois em uma era pós-Trump, e o roteirista do episódio comentou recentemente que escolheram o empresário porque esse era o “pior cenário que podiam imaginar.”
 

Nas ruas, as primeiras reações

Para muitos, a vitória de Trump se deu como um voto de protesto. Ainda na corrida pela candidatura, o principal concorrente do empresário era Bernie Sanders, democrata que se apresentou com linha de pensamento socialistas e com propostas como ensino superior de graça, aumento de salário mínimo e políticas mais afirmativas para minorias. Sanders aparecia com vantagem nas pesquisas em relação a Trump, mas o Partido Democrata acabou por escolher Clinton como sua representante, por considerá-la uma vitória mais certa. Entretanto a ex-secretária americana e ex-primeira dama, esposa de Bill Clinton, talvez tenha tido sua imagem corroída pela própria carreira. A candidata tentou emplacar sua candidatura na possibilidade de ser a primeira mulher americana presidente, mas a tática não pegou e as polêmicas acabaram por lhe tirar votos até em estados onde Obama havia ganhado nas duas eleições anteriores. A figura de Trump, um empresário iniciante na carreira política e sua personalidade controversa, pareceu se abalar muito menos na troca de farpas da campanha. A história já presenciou diversos líderes de caráter populista que chegaram ao poder em situações de crise, oferecendo soluções rápidas e práticas. Trump se apresentou como um não-político, a favor do povo e que valorizará sua nação ao invés de participar de joguetes de poder. Será que Trump conseguirá concretizar suas promessas, até mesmo as mais polêmicas? Talvez sim, talvez não, mas as coisas não serão tão fáceis quanto se pode fazer parecer: “Uma coisa é o discurso da campanha. Resta saber o que vai acontecer quando ele se tornar presidente da república. Porque é um cargo que tem uma série de poderes e elites que seguem regras de atuação. Regras pelo contato das disputas legislativas, porque existe controle do senado sobre as ações da presidência. Porque o presidente não é um imperador. Ele atua segundo o protocolo que é a regra de conduta e nesse sentido ele vai enfrentar não só resistência dos deputados democratas, mas também dos deputados republicanos, que também procuram preservar certa noção de respeito às regras constitucionais americanas. Ele não pode fazer tudo. Apesar dele ter se dito não político, ele atua nos limites da política”, conclui Cloves.

Notícias relacionadas