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Brasil

26/12/2016


Revista NORDESTE entrevista: psicólogo aponta motivos da crise econômica

exclusivo

A Angústia em direção ao novo modelo de mundo

Psicólogo clínico e escritor afirma que crise vivida hoje no Brasil e no Mundo é motivada porque modelos de vida e economia estão em xeque.


Por Paulo Dantas


Rossandro Klinjey é um homem que discorre facilmente sobre vários assuntos. Desde política internacional à educação. Anos de atendimento clínico, palestras pelo mundo e com contato com diferentes realidades afiaram a verve do escritor que é capaz de tocar em pontos chaves do processo de cognição humana. Palestrante no Brasil, Estados Unidos e Europa, o paraibano é escritor, psicólogo clínico e autor de livros, que versam sobre vários temas. Klinjey foi professor universitário por mais de dez anos, quando passou a se dedicar à atividade de palestrante. Hoje, ele atua nas áreas de recursos humanos, motivacional, liderança, perspectivas da educação, relações interpessoais, desenvolvimento emocional, entre outros. Na entrevista concedida com exclusividade à Revista NORDESTE, o escritor fala sobre como a angústia motivada por um desejo de mudança tem feito o planeta viver uma guinada à direita e pode gerar retrocessos ou crises mais acirradas em grupos que lutam para ampliar seus direitos, contra os que temem uma vida liberal demais. O professor acredita que a humanidade caminha para encontrar um novo modelo de inter-relação, a síntese do aprendizado em vários âmbitos da vida.

REVISTA NORDESTE: O que tem motivado um desejo de mudança hoje em dia nas pessoas? O que elas procuram?
Rossandro Klinjey:
O que a gente tem visto é o esgotamento dos modelos. Modelo de educação de filho que faliu, de fazer política, de padrões de sociedade. A promessa de que o capitalismo seria uma solução com o fim do comunismo, que também não funcionou. No momento que há esgotamentos de modelos temos dois movimentos: um movimento que tenta avançar e um movimento que com medo do avanço tenta recuar. Aí você vê um radicalismo de direita e um radicalismo de esquerda. Uma exacerbação desse movimento. Isso quando a gente pensa no plano político, o que justificaria, por exemplo, a eleição de Donald Trump, a saída da Inglaterra da Comunidade Europeia, e a ameaça, caso Le Pen ganhe na França também querer propor isso (Marine Le Pen é candidata de extrema direita com chances reais de ganhar eleições na França para presidente). No Brasil temos a queda de um governo de esquerda. Esse movimento acontece sempre quando se está para ter muitas mudanças. Anos depois da segunda guerra mundial a sociedade já é muito melhor, e estamos para dar um novo salto. Mas antes de dar esse novo salto aí há como se fosse um sentimento antagônico de contrapesos. (Para explicar esses contrapesos, podemos olhar) do ponto de vista mais macro. Temos, por exemplo, a reação do mundo muçulmano aos valores ocidentais com aumento dos grupos terroristas, que têm um discurso contrário a ideia de liberdade feminina e de uma sociedade democrática. No plano pessoal, o que acontece… Toda essa angústia, (vinda de notícias) tanto na esfera do poder político mundial, quanto da crise econômica, faz com que se caia o padrão de consumo… o padrão de consumo meio que anestesia essas crises.

NORDESTE: Não entendi, como assim anestesia a crise?
Klinjey: Quando as pessoas estão comprando, indo ao shopping, comprando roupas de marcas, indo para Disney comprar roupas no Outlet (mercado a preços mais baratos) e ver o Mickey, elas ficam anestesiadas com relação a essas crises, até as familiares. Vivem em função disso e esquecem que têm conflitos que não estão sendo trabalhados. Quando a crise econômica se abate sobre esse esquema todo, aí dá uma sensação de angústia. Uma sensação de depressão coletiva, que estamos dando um passo atrás. Chegamos há menos de oito anos a ser a sexta economia do mundo, falando especificamente do Brasil. Passamos a Inglaterra durante um tempo, aí houve um recuo agora. Uma recessão que se arrasta por anos. 13 milhões de desempregados, pessoas que a gente conhece passando necessidades, gente que não consegue pagar conta de água e luz, gente endividada com agiotas porque não conseguiu baixar o padrão de vida. Quando a gente vê o aparente colapso desses modelos, entramos numa sensação de caos. Claro, há também, não há como negar, há uma exacerbação da divulgação de notícias com relação a isso. Óbvio que existe até algumas pessoas que fazem mídia positiva, mas comparado com a maxmídia de um modo geral, planetariamente falando, é claro que dá mais ibope noticiar uma bala perdida numa comunidade do Rio, do que um trabalho de ação social feito no mesmo dia. A própria cobertura do acidente da avião da Chapecó, que foi uma semana inteira com a mídia o tempo todo com esse luto coletivo. Isso só faz aumentar a sensação de angústia e caos que toma conta da gente. Mas o que está acontecendo na verdade, é que como os modelos estão se esgotando eles vão ter que ser renovados. Aí existem duas formas de renovação. Renovação pacífica ou uma renovação mais conturbada, que pode beirar uma revolução. Não acredito que vá chegar a esse ponto. Tomara também que não haja uma ruptura social, porque não seria benéfica no momento em que estamos. Que essas mudanças venham o menos traumaticamente possível.

NORDESTE: E a possibilidade de uma guerra, pensando em termos mundiais. Nós já vivemos uma guerra na Síria, em alguns pontos do Oriente Médio. Na Rússia, conflitos nos Balcãs. Há possibilidade dessa crise vir a fomentar uma guerra?
Klinjey: Uma guerra mundial é algo que deve ser completamente evitado. Só que surgiu um elemento novo nesse cenário, a eleição de Donald Trump, que por enquanto é uma incógnita. Ele tem colocado no seu gabinete radicais de extrema direita com ideias extremamente complicadas. Se por um lado ele acha que não deve se meter na política dos Balcãs, das ex-repúblicas soviéticas, deixar (Vladmir) Putin a vontade lá. E também a China, ele não quer se meter no mundo oriental, quer fazer uma política de mercado interno muito grande. Por outro lado, ele sabe que as coisas não são tão simples, porque os EUA não podem abandonar, do dia para a noite, a posição de xerife do planeta, porque a gente não tem um planeta ainda tão ordenado para não ter alguém com poder de fogo e mando na mão. A China, por exemplo, ainda não está pronta para assumir esse papel. Além do que, ela tem uma desconfiança do resto do mundo ocidental porque é um regime fechado politicamente, os dados tanto da economia quanto do poder bélico não são tão claros quanto a gente tem em relação a EUA e a Rússia, depois dos vários acordos de desarmamento que foram executados de (Ronald) Reagan e (Mikhail) Gorbatchov para cá. Vamos ver quando a personalidade egocêntrica de Donald Trump vai interferir no governo dele. Porque se o presidente americano tem pouco poder na política interna, na política externa é diferente, ele tem bem mais liberdade. Aí é que está o perigo para o que você perguntou. Em contrapartida, o que vamos ver também é o teste da institucionalidade americana. O quanto as instituições americanas têm poder de barrar o presidente que, digamos, venha ultrapassar os limites do razoável na política e diplomacia internacional. Por exemplo, a ideia estapafúrdia dele de não participar mais da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e deixar a Europa descoberta na relação com a Rússia… Uma Europa que basicamente só tem dois países com potencial bélico significativo, que é França e Inglaterra, porque a Alemanha foi desarmada depois da segunda guerra mundial, os outros são basicamente insignificantes nesse contexto. É muito temerário. Tem muitos movimentos vão depender dos primeiros atos concretos da administração Trump e vamos ficar muito na expectativa disso.

NORDESTE: O senhor falou da angústia das pessoas gerada por fatores que têm acontecido no mundo. Por que essa angústia tem levado para uma escolha tão conservadora?
Klinjey: O conservador dá uma resposta simples. As pessoas querem alguém que cuide delas. O conservador é aquele que chega e diz assim: eu vou fazer a América grande novamente, eu vou fazer você ter emprego, vou trazer a fábrica para cá, vou resolver o seu problema. O que acontece nesse momento de angústia é que as pessoas querem que alguém venha com uma receita pronta. Porque mesmo que elas se sintam incapazes de resolver a própria vida, é mais fácil culpar os chineses pela fábrica que não está mais no estado e gerou desemprego, no caso do estado que votou majoritariamente em Trump, no cinturão do aço, como eles chamam. É mais fácil isso do que o cara pensar assim: eu não me reciclei, o mundo mudou. A realidade americana foi muito mais para o setor de tecnologia e serviços. Eu fiquei no ensino médio como técnico, num país que é muito mais tecnológico. E eu perdi emprego ao invés de me reciclar, me reinventar e repensar como muita gente fez, eu fiquei aqui esperando uma solução mágica. E chegou alguém que disse para mim que ia dar. Então sempre que chega um discurso desses de extrema direita, e no caso de Trump, tem além de extrema direita o componente do populismo, que é aquele que promete: Eu sou o pai de vocês, vou cuidar de vocês, fiquem tranquilos, voltem para casa menos vigilantes. Acrescente-se a esse fato uma novidade que foi muito bem atestada por ele. Ele começou a campanha um ano e quatro meses antes de Hillary Clinton, através das redes sociais. Ele tinha seis milhões de seguidores a mais do que ela. Ela gastou seis vezes mais em anúncio de TV do que ele, num momento em que as pessoas veem pouca TV e estão muito mais ligadas ao que acontece nas redes sociais. Outro fenômeno que as redes sociais também têm explicitado, é que as pessoas costumam ver aquilo que elas curtem e que concordam com ela. Quando eu estou vendo o jornal ou a TV eu posso ver uma opinião discordante da minha, mas quando vou buscar na internet, eu busco quem pensa como eu. Então há um empobrecimento da discussão, porque eu só ouço quem concorda comigo, eu só curto as páginas que pensam como eu penso e eu não tenho acesso ao contraditório. Inclusive saiu uma pesquisa que tem demonstrado que recentemente se comprovou que pela primeira vez que o QI humano deixou de crescer e começou a diminuir. O QI (Medida de Coeficiente de Inteligência), de 1920 até hoje as medidas vinham detectando crescimento, e desde o advento das redes sociais, com discursos rápidos, mensagens de whatsapp, comentários pouco profundos dentro do Facebook ou do Instagram, as pessoas empobreceram a capacidade de conhecimento e de leitura e vivência do contraditório. Então junta-se tudo isso a esse mundo novo que está acontecendo agora e esse discurso simplista do Trump e de todo mundo que é populista e a carência das pessoas que querem alguém dizendo que vai resolver (seu problema). Você junta tudo isso, e isso seria não toda a explicação, mas parte da explicação desse fenômeno.

NORDESTE: Temos visto hoje uma luta contra os movimentos sociais, negros, mulheres, movimento LGBT. Há uma intolerância mais forte. Por que isso acontece?
Klinjey: O que eu percebo, é uma opinião até polêmica, mas se a gente não disser o que pensa, nem vale a pena falar. Acho que houve um exagero do discurso das minorias que começaram a se impor como mais importante que a maioria. Não estou dizendo que não são importantes. Nos EUA, por exemplo, que é um país de maioria cristã, impor uma agenda LGBT gerou um ressentimento muito profundo nas pessoas. Uma coisa é você tentar fazer com que a sociedade seja tolerante e outra coisa é impor isso como um modelo superior. (Dizer que) todo mundo que apoia isso é moderno, é inteligente, sagaz, capaz, e todos que são contra isso são idiotas, alienados religiosos, políticos e pobres. Quando você cria essa divisão muito simplista, cria ressentimento. Claro, um grupo fica aguardando um momento… aquilo que quando Trump ganhou a gente viu lá nos cartazes que é: ‘eu sou a maioria silenciosa’. Ou seja, estavam aguardando o momento para mostrar que continuavam tendo as suas opiniões. Se é para pegar a pluralidade das ideias da sociedade, tem que se respeitar até esse grupo que tem dificuldade de aceitar essa pluralidade. E ele não foi respeitado. A gente viu isso muito claramente. A gente tem visto isso também no Brasil com o discurso de Bolsonaro. Que é um discurso assumidamente preconceituoso em vários aspectos e que atrai muita gente que pensa parecido, mas não tem coragem de dizer, porque há um discurso do politicamente correto, que tem que aceitar esse novo que se apresenta. E aí fica assim: quem é a favor desse novo são pessoas inteligentes, modernas e capazes e quem é contra é o contrário disso. Essa simplificação maniqueísta é muito complicada. Em Atlanta (capital da Georgia, EUA) eu estava fazendo uma palestra 20 dias antes da eleição. A Georgia foi um estado que eu sabia que Trump ganharia, porque onde eu chegava via as faixas dele. Eu conversei com uma mulher que estava no sinal com o cartaz dele e perguntei porque ela votaria num homem que disse tudo que ele disse sobre a mulher. E ela me disse que na Bíblia está escrito que a cabeça da casa é o homem e uma mulher jamais deveria ser um presidente americano. Existem pessoas que pensam assim, eu posso discordar? Posso, mas eu tenho que respeitar. Existem pessoas que são gays. Eu posso discordar? Posso, mas eu tenho que respeitar. Eu acho que a gente tem que entender que o que está em pauta é que tem que se respeitar todas as opiniões, até as que são de pessoas que desrespeitam. Não que você vai dar espaço para se desrespeitar, mas entender que elas não aceitam, não compreendem, tem dificuldades. Que foram educadas numa sociedade, em grupos sociais muito preconceituosos. Esses grupos se sentiram excluídos do debate. E aí é claro, uma coisa que também muitos analistas têm realçado, se a globalização foi importante porque incluiu muitos países, ela foi melhor para as empresas do que para as pessoas. Porque quando uma empresa vai fabricar uma coisa lá em outro país, com salário de miséria, quase escravidão, ela aumenta a margem de lucro, tira emprego em países mais organizados e ganham mais. Tanto que o que aconteceu mais recentemente, da globalização para cá, houve uma concentração das rendas e as pessoas muito ricas, ficaram bem mais ricas, e a classe média perdeu padrão de vida. Os milionários americanos ficaram multimilionários, e a classe média americana foi empobrecendo. O poder de compra diminuiu. Teve a crise do subprime (crise financeira desencadeada em 24 de julho de 2007, a partir da queda do índice Dow Jones motivada pela concessão de empréstimos hipotecários de alto risco) que foi uma grande cilada do mercado financeiro americano. Eles sabiam que iam ferrar com a vida de várias pessoas. Estavam fazendo hipoteca das casas, sabiam quanto aquilo iria causar, quando iria cair, mas iriam lucrar até lá. O lado nefasto do mercado financeiro. E houve pouca punição porque o governo ajudou todos os bancos. O Lehman Brothers foram ajudados para não quebrar a economia, mas eu tenho amigos lá que tinham casas, mansões e hoje moram num quarto na casa da filha. Tenho um conhecido que se matou porque não suportou. Então tem erros de todos os lados. Não existe uma coisa que está errada, uma pessoa que está certa. Os homossexuais tem todo o direito de expressar sua liberdade de orientação sexual e de querer lutar pelos direitos. Eu sou completamente a favor disso. Por outro lado, tem que respeitar quem não entende isso. Existem pessoas insatisfeitas num discurso de uma sociedade extremamente pautada na ideia que você tem que engolir as diferenças que nem todo mundo suporta. E não pode ser taxada como incompetente por isso.


NORDESTE: Esse aprendizado do ser humano da tolerância, que leva a entender mais o outro e aceitar mais as diferenças. Porque chegamos agora com esse aprendizado em xeque, com essa regressão?
Klinjey: Primeiro, porque quando você prega a tolerância, você também tem que tolerar quem não suporta a tolerância. Essa busca por tolerância meio que impôs uma agenda para o mundo, sem considerar que tem um grupo que ainda não está pronto para isso. E é esse grupo que está reagindo agora.

NORDESTE: A ‘tolerância’ foi intolerante, no final das contas?
Klinjey: A ‘tolerância’ foi intolerante. Porque ela achou que a pauta dela era superior, moral, ética e filosoficamente. E era assim: tem que ser assim e pronto. E existe um grupo que não está capaz de entender isso. E é preciso respeitar esse grupo. Agora está dizendo assim: a gente está aqui. Não que a gente vá ceder ou ter um retrocesso com relação a direitos das mulheres, direitos da comunidade LGBT, respeito a diversidade racial e religiosa, não é que tem que ter um recuo para isso, mas entenda, tem um grupo que não aceita isso. O mundo muçulmano é claramente contrário a tudo a isso. Eles não querem nada disso. Eles não aceitam a democracia. A gente achou que iria haver uma primavera árabe, e o que houve foi o contrário. O recrudescimento de grupos terroristas, o ISIS, o Estado Islâmico, surgiu a partir daí. A gente tem um país que está vivendo uma coisa terrível no início do século XXI (a Síria). Toda aquela tragédia que vimos daquela criança morta na praia… Isso é fruto do desmonte dos países com a pretensão ocidental de democratizá-los. Mas eles querem outro modelo, não querem a democracia. Esse grupo que votou em Trump não quer uma sociedade multidiversa. Não é que eu estou dizendo que eles estão certos, mas não posso dizer que só porque eu penso que tem que ser diverso eu tenho uma razão acima e superior, que tem que ser inquestionavelmente aceito. Esse grupo quer também que a agenda deles seja respeitada, e aí eles se aglutinam, obviamente. E qualquer um que venha dizer: eu sou a voz de vocês. Ah, então tá. Então alguém está dizendo o que eu penso, mas não tenho coragem de dizer, porque a mídia majoritariamente aceita essa diversidade. A intelectualidade universitária não só aceita como faz parte dessa diversidade toda. Então meio que pauta a mídia, pauta a produção acadêmica, pauta a produção cinematográfica de minisséries, com personagens… o que eu acho correto, não estou dizendo que sou contra. Mas no momento que se tenta influenciar todas as culturas achando que a partir daí vai se homogeneizar o pensamento do planeta, tem grupos que não aceitam e a gente tem que entender isso. A gente tem que atentar para algo que você meio que resumiu, houve uma intolerância daqueles que pregam a tolerância para aqueles que não suportam a tolerância. É meio redundante, mas é isso.

NORDESTE: Recentemente, num programa de TV, o senhor falou de um conflito hoje entre dois modelos de famílias, um mais tradicional e outro mais novo, com influência na educação. A partir daí, eu queria que o senhor falasse sobre a educação. Ou como a educação hoje não tem conseguido vencer esses obstáculos para construir pessoas um pouco mais complexas interiormente.
Klinjey: É exatamente o que a gente começou na fala. Um modelo se esgota e um novo modelo tem que surgir. Mas há um hiato entre esse novo modelo e o velho. Então assim, o velho modelo está meio que já falido, não dá conta de resolver os problemas da atualidade, mas o modelo novo não está pronto para substituí-lo. Então nesse processo entre o novo e o velho, há um hiato, e é nesse hiato que a gente vê todo esse sentimento de caos. Porque a velha ordem não funciona e a nova ordem não está pronta. Então meio que vivemos uma certa, não no sentido político, mas no sentido mesmo de desordem, uma anarquia. Porque há uma perda de comando. O país está com essa sensação. Há uma perda de comando e quando há uma perda de comando, todo mundo acha que pode. A gente vê isso na Segurança Pública. Todo menino de 16 anos acha que pode confrontar a Polícia, porque ele não é preso. Ele assalta. Temos visto uma desordem. No Brasil isso é mais forte, a nossa desorganização social perto desses países do primeiro mundo é maior, e isso pega mais fortemente a gente. Essa família antiga não vai voltar, esse pai ditatorial e machista. Também não vai voltar uma sociedade homofóbica, racista. Pode até tentar, mas não vai conseguir. Não vai ter tempo histórico e espaço histórico para isso. Mas ao mesmo tempo essa família e sociedade que tudo pode e é permitido, também tem mostrado alguns problemas. Então a tendência é que depois dessa barafunda toda venha uma síntese. Ou seja, que aquela sociedade que quer a liberdade de expressão dos direitos em todos os sentidos, sexuais, raciais e religio sos, também entenda que tem gente que quer um pouco de ordenamento moral na cabeça deles. Eles acham que isso seria a representação do imoral, quando na realidade não é, mas a gente tem que entender essa visão que eles têm. Isso acontece na família quando você tenta resgatar a disciplina que os país perderam, por incompetência, por preguiça, por medo, ou pelos três motivos. (Esse modelo permissivo) tem gerado crianças insuportáveis, que chegam no sistema de educação e não conseguem dar conta. Porque se eles não suportam frustrações e não respeitam os pais, não respeitam os educadores e nem respeitam o processo de educação que leva tempo, etapa e repetição. Eles não suportam isso. E aí tem os casos que temos visto crianças incapazes de aprender, que acham que qualquer leitura é grande demais, que querem tudo nas mãos, e os pais são verdadeiras babás, na verdade, mordomos dessas crianças. É claro que esse modelo tem mostrado seus problemas, a globalização mostrou agora seus problemas, e essa política de supertolerância demonstrou seus problemas. Então essa tendência de voltar ao passado também vai se mostrar inviável e daí, depois de passada a crise, só pode vir algo que é uma síntese, o equilíbrio dessas forças.

NORDESTE: O Senhor também já falou que o amor é uma emoção mais sofisticada, por quê?
Klinjey: Porque é preciso que antes que você consiga amar, desenvolva sentimentos anteriores a este sentimento. O objeto do amor tem que ser antes o objeto do respeito e da admiração. Dificilmente você vai amar aquilo que você não respeita antes e também não admira. A culminância desse sentimento seria o amor maduro. A criança gosta dos pais, mas elas têm interesses a serem atendidos e ela joga com os pais, com chantagem, com culpa. Os pais se sentem culpados porque vivem trabalhando, não dando atenção aos filhos. Ou quando chegam não dão mesmo, continuam em seu universo, deixando o menino no touch screen para ver se ele o deixa ‘em paz’. Não há diálogo. E aí, se eu não me faço respeitar, se eu não sou alguém que os meus filhos admiram, obviamente que eu não vou depois ter o amor dessas pessoas. Isso é muito fácil de ver, porque não é só no passado que tinha famílias funcionais (que possui regras, com relações baseadas no respeito, confiança e disciplina). Hoje tem famílias funcionais. Eu que há 20 anos atendo, quando vejo as famílias funcionais hoje em dia, é porque elas abarcaram essa nova família com mais diálogo, mais tolerância, respeito, um pai que chega mais presentemente na educação dos filhos, mas mantiveram a disciplina, a ordem, o respeito. Ou seja, equilibraram aquilo que era de positivo nas famílias anteriores. E aceitaram aquilo que foi de positivo nas famílias atuais. As que ficam nas super-regras criam filhos traumatizados, pessoas duras, difíceis. Mas essas pessoas, porque têm o mínimo de ordem e respeito, conseguem ser mais funcionais. Já as famílias altamente permissivas elas meio que destroem as crianças. Porque, se eu não treino meu filho para as dificuldades da vida, para o não, para o não pode, você não vai conseguir, você tem que aceitar seus limites. Toda vez que esses limites se apresentarem, e quando eu não puder mais resolver pelo meu filho, porque eu não vou poder estar sempre comprando para ele as coisas, sempre tampando as faltas e incompetências dele, quando ele tiver que enfrentar o mundo e o mundo não for gentil, ele vai se acabar. Aí você vê o aumento gigante de casos de depressão. Nos EUA saiu um dado recente que o número de suicídios entre crianças de 10 a 14 anos mata mais que o número de acidente de carros. Olha que dado alarmante! O que faz uma criança de 10 a 14 anos se matar? É porque ela foi educada com tanta incompetência emocional para suportar a vida e quando chega nessa idade… O que acontece nessa idade? Você fica mais vulnerável ao ambiente externo. Até então você estava muito protegido pelo ambiente familiar de um pai e mãe que fazia tudo por você. Quando você finalmente sai para a escola e passa a sofrer bullying, você não sabe lidar com aquilo. Porque antes ninguém lhe enxia o saco, ninguém lhe contrariava. Quando você é contrariado aquilo é tão nefasto, tão complexo que você é incapaz de lidar com aquilo e se mata. Claro, que essa não é a única explicação, mas certamente é uma explicação muito importante sobre esses eventos.

NORDESTE: Essa seria também uma saída para a sociedade, começar através do respeito e da admiração, para chegar nessa síntese?
Klinjey: Para a gente poder conviver com as diferenças. Nenhum grupo empurrando goela abaixo a visão do mundo do outro, mas se respeitando mutuamente. É isso que tem faltado. Houve uma superpropaganda para esses novos valores, desconsiderando que tem pessoas que não querem esses novos valores. É esse momento de síntese. Tem que se entender que tem gente que nunca vai entender. As vezes é a idade, é a formação religiosa. Isso não significa dizer que essa pessoa é ruim, má, perversa. Que ela é uma espécie de nazista, como pregam. Pegam, por exemplo, aquele grupo neonazista que se manifestou pró-Trump, e dizem que todo o eleitor de Trump é assim. E não é assim. Nas estatísticas muitas mulheres com formação acadêmica votaram nele. Esse discurso maniqueísta de tentar chapar todo mundo como um psiquismo só, não convence mais. Inclusive esse foi um dos erros fragorosos tanto das mídias americanas, como dos institutos de pesquisa. Há um deslocamento entre o que quem faz a mídia, de um modo geral, pensa que o povo pensa e o que o povo pensa. O que a gente não está pegando? Será que não há uma arrogância de achar que a intelectualidade acadêmica, mais a intelectualidade midiática, o cinema, a indústria de minissérie, elas estão criando um modelo que todo mundo já aceitou porque está lá sendo passado. Não, existem pessoas que não pensam assim. A gente tem que entender como elas pensam e respeitar o pensamento delas.

NORDESTE: E como podemos nos aproximar dessas pessoas ou do pensamento dessas pessoas?
Klinjey: A primeira coisa que a gente tem que entender é onde foi que a gente errou. Será que não foi na dose, na medida, na imposição desse modelo? A gente criou uma propaganda massiva de aceitação de tudo isso que é muito revolucionário para muita gente. Temos que descobrir qual a dificuldade que eles têm de entender. Será que é essa a forma? Impor-se? A gente está vendo que não. Então vamos tentar entender o que aconteceu, respeitar a opinião e o contraditório. Porque há uma acusação muito grande desses grupos progressistas… Olha, até a palavra progressista, grupo progressista e grupo atrasado, é muito maniqueísta. A gente não pode ir para o combate. Claro, não vai se abrir mão dos direitos conquistados. Mas deve se pensar o que aconteceu. No Brasil também está acontecendo isso. Não tem nenhuma solução mágica, mas a gente vai precisar de tolerância de ambos os lados, para a gente possa, pelo menos desenvolver um sentimento que é longe do ideal, mas se a gente tivesse hoje já seria maravilhoso… Não é nem de se tolerar, mas de suportar. A gente tem que trabalhar pelo menos a capacidade psicológica de se suportar. Porque se eu suporto você, mesmo que eu discorde completamente, eu não vou te destruir. A gente quis pular uma etapa sem ser capaz de suportar um ao outro. Isso vale nas famílias, no casamento e nas diferenças sociais.

NORDESTE: É possível prever quanto tempo dura esse momento antes de chegar a síntese?
Klinjey: Essa resposta vale um milhão de dólares (risos). Seria temerário da minha parte tentar dizer o tempo. Mas uma coisa é certa, vai ser mais rápido do que a gente pensa. Por quê? Porque a história tem sido mais rápida. A teoria do aceleramento histórico diz que a história da humanidade hoje é o resultado da história de toda a humanidade mais o dia de hoje. Então é como se fosse uma Progressão Geométrica. A velocidade dos fatos e acontecimentos vai fazer com que essas mudanças nesse final de síntese venha mais cedo do que a gente viu em outros momentos da história humana. Porque tudo tem sido muito rápido. Você, como jornalista, há de convir comigo que o frenesi de notícias que aconteceu no Brasil e no mundo vai dar dificuldade para alguém fazer, por exemplo, aquela retrospectiva. Porque teve tantos fatos importantes, que talvez tenha que fazer um programa de 5 horas para poder realmente fazer uma retrospectiva que contemple minimante tudo que aconteceu em termos de notícias relevantes. No cenário político, social e cultural, tanto brasileiro, quanto internacional. Ou seja, a série de mudanças têm sido muito intensa, então eu acho que também essa síntese vai vir mais rápido do que a gente pensa. Não posso te precisar quando, mas acho que sim, vai ser rápido.
 

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