menu

Cultura

17/11/2017


Revista Nordeste: Falando a língua do NE

Nascido no cariri paraibano, Efigênio Moura expressa em seus livros a paixão pela região onde nasceu, retratando cenas do cotidiano e o linguajar do nordeste interiorano

Por Jhonattan Rodrigues

Qual a importância da língua para um povo? Para Efigênio Moura, a importância é tão vital, que ele dedica seu trabalho como escritor a reverenciar a língua de sua região, mais estritamente o falar, o linguajar do povo simples, das pessoas comuns. Nascido no que hoje é a cidade de Zabelê, antigo distrito de Monteiro, no cariri paraibano, Efigênio Moura, em todos os seus cinco livros publicados, dá destaque ao Nordeste. Cresceu na fazenda Macaxeira, a qual ele se refere com muito carinho. A vegetação rasteira da caatinga, o solo seco, a paisagem rochosa, o sol que incide como se estivesse descendo sobre o mundo, tudo isso fez parte da infância de Efigênio. Mas o que sempre chamou sua atenção são as pessoas. O povo e sua fala, esse é o verdadeiro símbolo do nordeste para ele. As beatas e suas rezas, os padres e seus sermões, os enamorados nas praças, os carros de som, as mães brigando com os filhos, por tudo isso a língua permeia e tem suas características próprias. “Eu posso arriscar a dizer que eu sou o único escritor brasileiro que escreve como se fala, de acordo com o Nordeste. Há muito da língua da maneira como eu escrevo”, explica o escritor.

Efigênio Moura é neto de Efigênio Teixeira de Moura, poeta alagoano. Além do nome, ele herdou também o amor pelas letras. Deu seus primeiros passos na poesia, informalmente, mas foi bem mais velho, “já véi da vida que só a gota”, que ele teve uma epifania: do alto da ladeira da Borborema, no centro histórico pessoense, uma ladeira generosamente íngreme, ele viu uma senhora gorda que subia acompanhada de uma criança. “A cada passo que a mulher dava a criança dava três, cinco. Eu achei a cena muito hilária”, conta. Ele a partir daí escreveu o conto “Peleja”. Em sua cabeça, por trás da cena tragicômica, se escondia a história de uma mulher, Das Neves, de Monteiro que vai até Basílica de Nossa Senhora das Neves, em João Pessoa, para pagar uma promessa. É a senhora gorda. “A partir daí comecei a criar uma história e essa história foi tendo um bocado de capítulos e sequências”, diz ele. Introduziu no enredo Seu Agripino, motorista de alternativo, que leva a senhora de volta até Monteiro. Todas as desventuras que ocorrem no meio do caminho deram origem ao seu primeiro livro “Eita Gota!, Uma Viagem Paraibana”.

 

Com 5 livros já publicados, o cenário e personagens de Efigênio são retratos do Nordeste

Essa forma de escrever, um capítulo levando ao outro, foi a regra nos livros que seguiram. Muitos escritores acordam cedo, preparam um café e escrevem por um período fixo ou até atingirem uma meta; outros são menos regrados. Efigênio se encaixa nessa segunda categoria. Ele conta que já tentou manter uma rotina, “não deu muito certo”. “Não depende de mim. Chega a vontade de escrever e eu escrevo. E aí tem vezes que eu escrevo cinco horas, já passei a noite escrevendo e é assim”, diz.

Casado, pai de quatro filhos e com um neto, Efigênio atualmente mora em Campina Grande, onde trabalha em marketing na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), por onde também lançou quase todos seus livros, através da editora Eduepb. Depois de Eita Gota! vieram “Ciço de Luzia”, “Santana do Congo”, “Caderneta de Fiado” e “Apurado de Contos”. Apesar da dedicação, não vive da escrita e ironiza: “sou escritor, preciso trabalhar. Aqui no Brasil, não se vive dessas coisas. Mas quem sabe um dia?” No tempo livre ele se entrega a suas três paixões: futebol, escrever e viajar. Quanto ao futebol, é torcedor do Campinense, time de Campina Grande. Virou tema no livro Apurado, onde ele aborda a rivalidade dos times da cidade com os da capital. Quanto à suas outras paixões, escrever e viajar, ele une o útil ao agradável e visita sua cidade natal e adjacências com frequência, “a cada quinze dias”, conta, “justamente para beber da fonte daquilo que ela pode me ofertar”. Congo, Prata, Ouro Velho, Sumé, Taperoá. Ele então saca seu caderninho e anota as coisas que vê em tópicos, detalhes que lhe interessam, personagens, palavras que lhe soam atraentes. Depois vai “ponteando”, costurando os tópicos e as “ideias vão se encontrando”. “Não tenho nenhum planejamento para fazer um livro. O começo nasce não sei de onde e o fim vem não sei de onde.” Nesses momentos de inspiração, quando está produzindo ao som de Nanado Alves, Maciel Melo, Luiz Gonzaga, ele conta que se torna “muito introspectivo”. “Eu me visto do personagem”, diz. Mas, claro, sempre há espaço para a esposa, com a qual, diz ele, debate a criação dos personagens.

O Matutês

Efigênio Moura: “as palavras significam o costume da gente, o nosso passado”

“Às vezes as palavras caem em desuso e são esquecidas; Mas as palavras significam o costume da gente o nosso passado […] Não existe um falar errado. Nós éramos índios, aí vieram portugueses, e pessoas de diferentes nacionalidades que trouxeram seu linguajar para cá e saiu o nosso ‘nordestinês’. Mas claro, existe a regra, senão vira anarquia. Mas escrever oxente, pru modi, pra riba, não vejo pecado nisso não […] A manutenção dessa tradição, desse costume, fez com que eu trouxesse esse modo de falar para os meus personagens”, explica Efigênio. De sua dedicação em retratar o linguajar nordestino, veio o reconhecimento. Em 2013, o livro “Ciço de Luzia” esteve entre as obras do vestibular da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Em razão disso, fez mais de 40 palestras no estado e em Pernambuco. “Todo ano eu sou chamado quatro, cinco vezes para fazer palestra nas escolas, não sobre o livro, mas sobre a forma como eu escrevo. A forma como eu escrevo é estudada em universidades estaduais e federais, em escolas em Brasília trabalham meus livros”. No ano de 2015, o autor foi eleito membro da Academia de Letras de Campina Grande, ocupando a cadeira 18, cujo patrono é Salatiel Pimentel. Suas obras são estudadas em salas de aulas da Paraíba, Pernambuco e Distrito Federal.

Trilogia cangaceira

O rei do baião, o cangaço e Padre Cícero, para o escritor, são os temas mais simbólicos do Nordeste. Unindo esses dois últimos, ele começou a desenvolver sua tarefa mais ousada até o momento: uma trilogia sobre o cangaço. A história se passa logo após a morte de Lampião, em 1938. Querendo abandonar o cangaço, Pedro Jeremias, personagem criado por Efigênio, um dos chefes do bando de Corisco, decide deixar suas armas no túmulo de Padre Cícero, falecido em 1934. Obstinado, entra em uma epopeia, passando pelo interior de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, até Juazeiro do Norte, ao longo de três livros. “Dos cinco anos que eu passei fazendo os livros, três foram estudando o cangaço, um fazendo laboratório nos lugares onde estudei, e o resto foi escrevendo”, explica. “Eu vou recontar a história do cangaço. Falar da época, da geografia, dos personagens da época.” Segundo Efigênio o primeiro deve sair ainda em novembro deste ano e os outros dois, em 2018 e 2019.

Notícias relacionadas