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Brasil

07/02/2017


Revista NORDESTE: O papel contraditório da elite no Brasil

exclusivo

Historiadora que fez assessoria para filme ‘Joaquim’, sobre Tiradentes, faz paralelo de elite atual com o passado colonial do Brasil. Quando se via o país como uma terra de passagem onde se devia tirar o maior proveito possível das riquezas para despejar na Europa

Por PAULO DANTAS

A historiadora Laura de Mello e Souza é uma estudiosa atenta sobre o Brasil. Desde seu primeiro livro “Desclassificadores do Ouro : A pobreza mineiro no século XVIII”, ela vem buscando descortinar a história do país. Sua casa era frequentada por Sérgio Buarque de Holanda e Florestan Fernandes, dois grandes pensadores sobre o Brasil. Laura se tornou uma autora de estudos pioneiros em áreas como história sócio-cultural e político-cultural. Atualmente vive em Paris. Ocupa desde 83 a cadeira de História Moderna na USP. De sua autoria ainda podem ser lidos : ‘O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial’, ‘Inferno Atlântico: demonologia e colonização (séculos XVI-XVIII)’, ‘História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa (organizadora)’ e ‘O Sol e a Sombra: política e administração na América portuguesa do século XVIII’. Laura é considerada uma das principais historiadoras do Brasil. Seu primeiro livro deu mote ao diretor Marcelo Gomes, o mesmo de ‘Cinema, Aspirinas e Urubus’, para o filme ‘Joaquim’ que concorre ao urso de ouro no festival de Berlim, que acontece de 9 a 19 de fevereiro. A historiadora conversou com exclusividade com a Revista NORDESTE sobre sua consultoria para o filme e fez um paralelo entre a situação vivida hoje pelo Brasil e aquela época do surgimento de Tiradentes.

Revista NORDESTE: O diretor Marcelo Gomes, do filme ‘Joaquim’, afirmou recentemente que tomou o livro ‘Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII’ como norte para a produção do longa. Do que trata o livro?
Laura de Mello e Souza: O livro trata da sociedade das Minas Gerais no século XVIII, marcada por profundas desigualdades : época de grande produção aurífera e, ao mesmo tempo, marginalização – ou desclassificação – de vastos setores da sociedade. Tenta entender porque tanta riqueza não gerou uma sociedade mais igual, mas, ao contrário, reforçou as desigualdades.

NORDESTE: Como se deu a sua consultoria histórica para o longa?
Laura: O cineasta Marcelo Gomes leu meu trabalho, gostou, disse que a leitura foi inspiradora para fazer o roteiro. Enviou-me o roteiro, do qual gostei muito, e sobre o qual discutimos. Fiz sugestões. Na verdade, não fiz pesquisa especifica para o filme: tenho quarenta anos de pesquisa sobre Minas Gerais no século XVIII… Tentei dar-lhe subsídios históricos, num assunto que eu conheço bem, para que ele pudesse desenvolver seu argumento da melhor forma possível.

NORDESTE: Como foi abordado Tiradentes?
Laura: O Tiradentes do filme é ainda Joaquim: um moço, antes de ser o Tiradentes da inconfidência, e marcado pelo meio social no qual cresceu. Não é o herói da República brasileira: é um jovem que anda pelos caminhos, convivendo com variados tipos humanos, observando o mundo, aprendendo com a vida… O ovo de Colombo do roteiro é justamente trazer o herói para perto do homem simples e, na minha interpretação, sugerir que somos todos iguais, pequenos e grandes, comuns e extraordinários ao mesmo tempo. Isso é muito revolucionário : mostra que todos somos capazes de grandes atos, de grandes feitos, não nascemos com uma estrela na testa, predestinados. A circunstância, e o modo como nos colocamos nela, é a prova dos 9 dessa história.

NORDESTE: Em relação ao livro, por que escolher esse período da história para retratar em sua dissertação de mestrado? O que há de especial?
Laura: Porque eu queria estudar a sociedade colonial do século XVIII, e o papel desempenhado por Minas Gerais na época é fundamental. A descoberta do ouro em finais do século XVII mudou toda a dinâmica do império português. Acho impossível entender o império português do Atlântico sul sem prestar atenção ao que acontecia nas Minas. Na época, eu achava que as Minas sintetizavam toda a colônia. Hoje não sei mais se penso assim, mas continuo acreditando que ajudam muito a entender todo aquele período.

NORDESTE: Nesse período a exploração do ouro gerou muita riqueza, mas acabou por deixar como saldo uma enorme camada de miseráveis? Por quê?
Laura: Muito complicado explicar… Escrevi o livro inteiro para tentar entender isso… Mas acredito que o desenvolvimento do capitalismo sempre acarreta simultaneamente muita riqueza e muita pobreza. É o drama da desigualdade, que nos persegue até hoje, e se acentua no mundo contemporâneo. Paris, onde vivo hoje, está cheia de pedintes e mendigos de diferentes partes do mundo, atraídos pela enorme riqueza da França. Chegam aqui e não conseguem emprego: são uns desclassificados. Para as Minas acorreram pessoas de todas as partes do Brasil de então, e multidões de Portugal. Muitos morreram de fome, não tinha alimento para tanta gente numa região nova, até então intocada pelos portugueses…

NORDESTE: Quem eram os desclassificados do ouro, como viviam e qual a sua relação com a sociedade?
Laura: Em traços muito gerais, eram homens livres pobres, quase sempre mestiços e negros, mas brancos também, que não tinham muita razão de ser num mundo dominado pelas relações escravistas, ou seja: achavam-se condenados ao trabalho sazonal, intermitente, e a cada momento mais crítico eram jogados para baixo na escala social. Podiam ser capangas de poderosos, caçadores de escravos e de índios, trabalhadores que abriam estradas e construíam obras públicas, garimpeiros e faiscadores clandestinos, falsificadores de moedas… Um leque enorme de indivíduos, sem objetivos precisos, sem consciência própria… Na época em que me formei e escrevi, a questão da consciência de classe era muito importante, e eu quis tratar um pouco disso.

NORDESTE: Quais foram os instrumentos do poder da  coroa utilizados para manter a ordem dessa região?
Laura
: Seria impossível enumerá-los. Muito resumidamente, digo que a presença da coroa foi muito forte naquela região: uma das presenças mais atuantes em todo o império português, o que não quer dizer que tudo fosse conttrolado, pois havia o problema da distância entre Reino e colônia, além da vastidão territorial e do pequeno contingente humano capaz de atuar como forças da “ordem”.

NORDESTE: É possível fazer um paralelo entre aquele momento histórico e hoje?
Laura
: Sim, a meu ver é possível e mesmo necessário. Porque a injustiça social do Brasil é enorme, revoltante. Já há algum tempo atribui-se muito essa situação catastrófica que é a nossa hoje à escravidão e ao racismo difuso na sociedade brasileira. Acho isso importantíssimo, mas acho que é preciso agora atacar as raízes da desigualdade e tentar entender esse fenômeno, a meu ver o mais abrangente da sociedade brasileira.

NORDESTE: O Brasil hoje vive um momento onde se questiona a utilidade de cotas raciais e programas sociais como o Bolsa Família, voltado para os mais pobres. Pelo seu olhar histórico, é possível dizer por que ainda é tão difícil dar voz e direito aos mais pobres no Brasil?
Laura
: Não acho que haja uma só explicação. Há o escravismo do passado, mas há também um espírito rotineiro, conservador e egoísta das elites, que mudam, mas reproduzem sempre os mesmos vícios. E há o desapreço pela educação: não se paga decentemente os professores, que não têm condições de ensinar adequadamente com os salários ínfimos que recebem. Os governos se sucedem e muito pouco muda com relação à educação. Os privilegiados temem perder seus privilégios, o espírito público é acanhado… Uma infinidade de motivos.

NORDESTE: Ainda existem os desclassificados hoje? Em caso afirmativo, quem seriam?
Laura
: De uma certa forma sim, mas diferente do contexto que eu estudei. A sociedade brasileira hoje é de uma complexidade extrema. Mas os mecanismos de exclusão continuam aí, as prisões estão lotadas, os presos são tratados como se não pertencessem ao gênero humano. Continuamos desqualificando e excluindo setores da população: esses setores variam no tempo, mas estão sempre aí. São estigmatizados e excluídos.

NORDESTE: É possível explicar a elite de hoje tomando por base a história do país?
Laura: Em parte. A ideia de lucrar muito e rapidamente, como se o Brasil fosse terra para explorar, terra de passagem da qual havia que tirar o maior proveito possível a fim de retornar ao Reino, Portugal. Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira e personagem do filme Joaquim, dizia que Portugal era uma esponja que aspirava toda a riqueza das Minas para despejá-la na Europa. Antes dele outros, como o Padre Antônio Vieira, usaram essa imagem da esponja para acusar a exploração colonial. As elites brasileiras no passado superexploraram o trabalho dos escravos, dos imigrantes e, depois, dos operários. A legislação trabalhista do tempo de Getúlio Vargas e a Constituição de 1988 foram momentos decisivos no sentido de garantir os direitos dos trabalhadores. O governo Temer tem agido de forma vergonhosa no sentido de desmantelar todas essas conquistas. O que mostra o rosto de uma elite – porque há elites no plural, e nem todos os componentes dessas elites pensam e agem do mesmo modo –, repito, uma elite, infelizmente hegemônica no plano político atual, que é egoísta, mal-intencionada, atrasada, obscurantista, cínica (muitos se dizem religiosos…. que religião será essa, assentada na valorização da riqueza e não na solidariedade e na humildade, essência dos ensinamentos de Jesus Cristo ?) e, em última instância, criminosa.

NORDESTE: O coordenador da Operação Lava Jato, Deltan Martinazzo Dallagnol, atribuiu a corrupção no Brasil a colonização portuguesa, para ele teriam vindo degredados e criminosos para o país, essa visão encontra eco na história?
Laura: Pobres dos degredados e criminosos de outrora perto dos infratores que temos hoje soltos por aí e dando as cartas do jogo… Alguns vieram porque tinham destruído colmeias, outros porque eram bígamos, outros por serem visionários e se jugarem santos… A Austrália foi uma enorme colônia penal, e isso não fez dela um país de delinquentes… Todos os impérios coloniais deslocaram infratores de um lado para outro de seus domínios. Essa formulação demonstra grande desconhecimento da História. Não vale a pena continuar comentando, mas é um lugar comum reproduzido há décadas sem qualquer reflexão crítica.

NORDESTE: A senhora poderia fazer uma breve análise histórica sobre a formação da identidade do brasileiro enquanto cidadão? Na sua opinião, existe uma identidade brasileira enquanto nação?
Laura: O brasileiro é um povo com enormes qualidades e defeitos, como qualquer povo, ou como qualquer ser humano. Não gosto muito da idéia de uma identidade brasileira, porque acho que há várias, ela é sempre plural. Eu sou paulista, com antepassados mineiros, paranaenses, cariocas e gaúchos. Quando conheci o Nordeste, já adulta, pareceu-me um outro país, fiquei fascinada, apaixonei-me perdidamente, sobretudo porque era um mundo novo e desconhecido. Nem sempre gosto de ser paulista, sobretudo nos últimos tempos, mas não sei e não posso ser outra coisa senão paulista, minha vida está posta nessa região, devo tudo o que sei à universidade de São Paulo, à cidade onde cresci, cheia de imigrantes de todas as partes do mundo, riquíssima do ponto de vista cultural. Vejo o mesmo sentimento em meus amigos do Pará, da Bahia ou de Rio Grande do Sul : uma certa divisão entre o sentimento regional e o nacional. Mas ao mesmo tempo amo profundamente o meu país, e penso ter batalhado a vida toda para que ele se tornasse um país melhor, mais justo, mais igual, mais educado. O país inteiro. Do Oiapoque ao Chuí, sem distinção. Então acho que talvez a identidade seja isso: ser ao mesmo tempo o seu lugar e o seu país, querer bem aos dois ao mesmo tempo e de modos diferentes. Tenho uma ternura enorme pelo povo brasileiro. Batalhador, sofredor, persistente. Do Brasil de hoje, só posso dizer que ele é infinitamente melhor do que o seu governo. E que cabe a nós virar esse jogo, lutar, cada um com suas armas, pela conscientização desse povo sofridíssimo, variado, feito de tantas caras, raças e procedências geográficas. Ensinar a sua história, defender a sua memória, preservar seus edifícios, monumentos, documentos. Fazer um país fraterno, onde o individualismo dê lugar ao espírito coletivo, público, à generosidade e ao amor verdadeiro a seu próximo. 

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