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Brasil

10/04/2017


Revista NORDESTE: O que é que o BaianaSystem tem?

Banda soteropolitana mistura rap, rock e música eletrônica com ritmos tradicionais, resgatando o espírito dos carnavais pré-camarote

Por Jhonattan Rodrigues

"Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”, diz a música de Caetano. De uns tempos para cá, o mesmo pode-se dizer do BaianaSystem, no que se refere ao público de Salvador. Formada na Bahia em 2009, a banda, uma mistura de rap com ritmos africanos, caribenhos, tambores, eletrônica, os graves do sound system e a melodia da guitarra baiana, conquistou o público e vem agitando os carnavais soteropolitanos. Contém todos os elementos para cair no gosto do Brasil inteiro – e o que até ano passado era uma promessa, hoje já vem se concretizando. Após o lançamento do segundo disco da banda, Duas Cidades, que já era considerado um dos mais esperados do ano, a banda vem se tornando o símbolo de uma revolução da música baiana. Por muitos anos abafado pelo Axé, o cenário alternativo da Bahia, principalmente de Salvador, começa agora a dar as caras através do BaianaSystem.

Para além do som, o visual

Composta por Russo Passapusso, na parte dos vocais e dos versos rápidos e inteligentes, cheios de trocadilhos, jogo de palavras e altamente politizados, pela melodiosa guitarra baiana de Roberto Barreto e pelo baixista Marcelo Seco (SekoBass), o BaianaSystem vai além da música e conta ainda com um quarto integrante: o fotógrafo Filipe Cartaxo, que cuida não apenas das fotos e vídeos, mas da identidade visual como um todo. Nas mãos de Cartaxo, todos os tipos de mídia visual convergem para dar à banda uma personalidade, ou porque não, um rosto. O símbolo é uma máscara que aparece nos encartes dos cds, nas artes, nos vídeos e é incentivada a ser utilizada pelos que seguem a banda e se identificam, se tornando um só. O som do grupo mistura diversos ritmos latino americanos, com batuques herdados das tradições africanas, mas vale o destaque a dois elementos chave: a guitarra baiana e o sound system. Esses dois dão o nome à banda e unidos aos vocais espertos de Passapusso carregam uma história interessante por trás.

Gênese do Carnaval

Na década de 40 os músicos baianos Dodô (Adolfo Antônio Nascimento) e Osmar (Osmar Álvares Macêdo)), assistiram a um show do violonista Benedito Chaves, tocando um violão clássico com um captador ligado a uma caixa de som. O instrumento, entretanto, apresentava microfonia. Dodô, técnico em eletrônica, junto ao amigo, passou a buscar uma forma de produzir um instrumento que pudesse ser amplificado, sem gerar o mesmo problema. Algumas tentativas mais tarde, chegaram ao que ficaria conhecido como “pau elétrico”: era literalmente um pedaço de madeira com um captador embutido. A guitarra elétrica como a conhecemos hoje, de madeira maciça, existiria só alguns anos a frente. Há quem diga até que o pau elétrico teria chegado ao Estados Unidos, influenciando o lendário Leo Fender, que trabalhava em um modelo de guitarra de corpo sólido e lançaria a Broadcaster, primeiro instrumento desse tipo vendido comercialmente. 

Teorias à parte, o pau elétrico foi a gênese da guitarra baiana, e uma revolução para o Carnaval soteropolitano. Na década de 50, Dodô e Osmar adaptaram um Ford 1929, a Fobica, e saíram nas ruas de Salvador tocando marchas de frevo, cada um com seus instrumentos e se intitularam “a dupla elétrica”. No ano seguinte adicionaram Temístocles Aragão, imortalizando então o nome Trio Elétrico. E até a década de 70, quem ditava o som dos trios elétricos era a guitarra baiana de Dodô e Osmar, juntando-se mais tarde Armandinho Macêdo, filho de Osmar. Em 75, após deixar os Novos Baianos, Moraes Moreira participou do bloco Armandinho, Dodô e Osmar, se tornando o primeiro cantor a puxar um trio elétrico. 

Paralelamente, as festas nos guetos de Kingston, capital jamaicana, eram animadas por enormes amplificadores com sistemas de som, tocando bases de músicas com ritmos caribenhos. Nascia a cultura sound system que se espalharia pelo mundo e seria o solo para o florescimento do ska e do reggae. Chegou ao Brasil, é claro, e fez a cabeça do jovem Roosevelt Ribeiro. Roosevelt, nome impronunciável na Bahia, mais tarde virou Russo e rodava as periferias da cidade com amigos tocando seus próprios sound systems. Roberto Barreto, que já tocava guitarra, foi produtor do programa Rádio África, na Educadora FM, onde teve contato com músicas de Angola e Congo, e junta essas influências com outros ritmos latino americanos como cumbia.

Axé Music e além

A partir da década de 80, após Moraes Moreira abrir espaço para cantores nos trios elétricos, Luiz Caldas, apareceu com sua música misturando as batidas africanas, ritmos regionais e reggae. O estilo único logo ganhou projeção nacional e levou o nome de Axé, uma saudação da umbanda que denota energia. O “Music”, do Axe Music, foi dado pelo jornalista Hagamenon Brito, que buscava ressaltar o apelo comercial e exportador do estilo. Dito e feito: o ritmo se espalhou pelo Brasil e virou sinônimo de carnaval baiano. O sucesso comercial levou aos carnavais fora de época, as chamadas micaretas, e o carnaval passou por um processo de elitização, com a cultura dos camarotes e abadás. A indústria cultural baiana passou muito tempo explorando isso. Mas como tudo tem um fim, o tempo corroeu a força do Axé, e o BaianaSystem virou uma espécie de espelho para esse novo cenário cultural que surge das sua carcaça em Salvador. Mas o Axé ainda está ali, o BaianaSystem não nega essas influências e ao mesmo tempo que catalisa o cenário alternativo do rock, do rap, da eletrônica, também abraça o carnaval, os batuques, o reggae. A guitarra baiana é um importante resgate, mas é usada buscando novas possibilidades para o instrumento, unindo aos graves do sound system. 

Essa mistura e afinidade com o carnaval fica evidente através do Navio Pirata, bloco no qual o grupo sai desde 2009, um trio elétrico em forma de sound system gigante. A banda vem sendo elogiada pelas apresentações ao vivo, que dão conta da grande parte dos fãs. Um vídeo que circula pelo youtube mostra uma enorme massa de pessoas cantando “Playsom”, faixa do álbum “Duas Cidades”, durante o carnaval deste ano. 

Música e contestação social

Outro fator que explica o sucesso da banda é a força de contestação social contida nas letras e posicionamento. O título do novo álbum “é uma referência às duas partes da cidade de Salvador, mas também como cidades muito diferentes do ponto de vista social e econômico”, afirmou Roberto Barreto. Esse é o tema central do disco, perpassando várias músicas, além da faixa homônima, cujo refrão indaga: “em que cidade você se encaixa: cidade alta ou cidade baixa?”. Essa mistura de ritmos aliada à crítica social está fazendo muitas pessoas compararem o que o BayanaSystem representa para Bahia ao que foi o Nação Zumbi para Pernambuco na década de 90. A banda foge da pressão de comparações e diz que são duas situações distintas, mas o tempo dirá. O fato é que 2016 foi um grande ano para o grupo e 2017 está sendo um divisor de águas. “Playsom” foi a única música brasileira a figurar no jogo Fifa 2016 e eles estrelaram o comercial do iPhone 7 com um cover de “Bloco na rua”, de Sérgio Sampaio. Também colocaram força política ao puxarem um grande “Fora, Temer” e um “machistas, fascistas não passarão” durante o Carnaval. Essa projeção causa certo receio em alguns de que a banda se afaste do público e do cenário independent. Até o momento a banda se faz muito presente no movimento baiano. Mesmo no início da carreira, o grupo realizou diversos shows fora do país, mas manteve forte sua ligação com suas raízes. Por exemplo, “Duas Cidades” teve grande parte do desenvolvimento em São Paulo, com o produtor Daniel Ganjaman (que produz Criolo, Otto, Nação Zumbi), mas buscaram regionais, com colaborações de Siba, o percussionista Márcio Vitor, do Psirico, e do grupo de tocadores e cantadeiras As Ganhadeiras de Itapuã, na faixa “Panela”. Em entrevistas os integrantes lembram sempre outros artistas que estão alimentando esse renascimento da cena musical baiana como Orquestra Rumpilez, OQuadro, Opanije, Manuela Rodrigues, Kalu, Daganja, Rafa Dias, Pali OJC, Complexo Ragga, Rumpilezz, Dão. Vale a pena conferir.

Com 8 anos de existência e dois discos, o BaianaSystem começa agora a despontar como uma das maiores bandas dessa nova geração de músicos da Bahia. E chegou de vez, abrindo um novo momento e já recebeu as bênçãos do “deus” da guitarra baiana, Armandinho Macêdo, herdeiro de Osmar Macêdo: “Um exemplo bacana de que a guitarra baiana é universal, moderna e pode integrar outros estilos musicais […] Robertinho prova isso, fazendo sucesso numa banda com Russo Passapusso, grande cantor, levando toda essa informação do funk, rap… Um exemplo para todos verem a nossa guitarra.” Uma banda para ficar de olho e não perder nenhum show.

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