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Brasil

25/11/2016


Revista NORDESTE: Piauí, pólo indutor de energias renováveis

Por Paulo Dantas

O Piauí é um estado de contrastes. Tem um dos mais baixos IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil, sofre com a seca, apesar de ter um solo subterrâneo rico com água. A indústria é incipiente, boa parte culpa da distribuição da energia elétrica precária. Apesar disso, abriga o que está sendo chamado de última fronteira agrícola do Brasil: Matopiba (ou Mapitoba), um cerrado, solo fértil para plantação de algodão, soja e florescimento do agronegócio. No turismo o estado tem belas paisagens, mas também falta infraestrutura hoteleira mais robusta e melhor logística de aeroportos e estradas. Para resolver esse problema o Estado elaborou através da consultoria Diagonal um Plano de Desenvolvimento Econômico Sustentável, com a previsão até 2050. A intenção é dar efetividade ao crescimento da economia, vislumbrando garantias mínimas para estes investimentos. São cinco grandes eixos que servirão de carteira de negócios para os empresários que queiram se instalar no estado: Turismo, Energias Renováveis, Mineração, Agronegócio e Infraestrutura. “O forte desses cinco segmentos, o que está se destacando, são as energias renováveis, parques eólicos que se instalaram ou que estão ainda se instalando na Chapada do Araripe e empresas que estão participando de leilões, que estão implantando energia eólica e solar”, conta Manuel Moedas, diretor de Estatística, Informação e Pesquisa da Fundação Centro de Pesquisas Econômicas e Sociais Do Piauí (Cepro).

Dados ainda referentes a 2013, últimos números divulgados pelo IBGE, apontam que o PIB do Piauí no ano de 2013 foi de R$ 31, 2 milhões. .O setor Agropecuário perdeu participação na estrutura produtiva estadual, passando de 7,86% em 2012 para 6,38% em 2013, diminuição de 1,5 pontos percentuais. As condições climáticas favoreceram essa retração. O setor Industrial sofreu uma redução em sua participação saindo de 15,28% em 2012, para 12,36%. Já o setor Serviços ganhou participação em 2013, saiu de 76,86% (2012) para 81,26% . A participação da Indústria no PIB do estado no ano de 2013 foi, 12,36%, ante 15,28% em 2012.

Desenvolvimento: da pecuária extensiva ao agronegócio

O histórico do desenvolvimento do Piauí, segundo o Cepro, está dividido em três fases. A primeira, mais longa, desde o início da fundação do estado, é onde a agricultura e pecuária extensiva grassavam absolutas. Só na década de 60 começa uma nova fase, onde é agregada a exploração extrativista vegetal, mais especificamente das ceras de Carnaúba. “Ainda hoje é um produto forte na economia do estado em termo de exportação”, conta Manuel Moedas. A terceira fase, que desponta a partir do final da década de 80, acontece com o agronegócio. Hoje mais de 90% da produção agrícola do Piauí está concentrada no cerrado, na região de Matopiba, ao sul do Piauí.

A atividade industrial no estado é composta pela indústria extrativa mineral, indústria de transformação, construção civil, produção e distribuição de eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de resíduos e descontaminação. Em 2013 essas atividades representaram 12,36% da economia piauiense, somando R$ 3,4 milhões. Os principais aumentos foram verificados na Indústria Extrativa 17,98%, na Construção Civil 9,31%, e na Indústria de Transformação 3,40%.

Observou-se retração no setor de geração de energia, mais um boom na Construção Civil em 2013 com crescimento de 9,31,% em relação a 2012 (6,01%), enquanto isso a Indústria de Transformação cresceu em 2013 (3,40%) e a Indústria Extrativa cresceu 17,98%, com destaque para extração de calcário, dolomita e extração de mineral para fabricação de adubos.

Agronegócio, crescimento e exportação

O cerrado piauíense faz parte da nova fronteira agrícola do Brasil. A região de Matopiba. Uma pesquisa realizada pela Fundação Cepro revela que o bioma cerrado ocupa uma área de 11,5 milhões de hectares, em 28 cidades nas regiões Norte e Sul do Piauí. O estudo, informa que a agricultura mecanizada se expande a partir dos grandes plantios de soja, arroz, milho, feijão, milheto e algodão. O avanço do setor agrícola impulsiona o desenvolvimento das cidades. De acordo com a pesquisa, os municípios de Uruçuí e Bom Jesus cresceram quase 40% nos últimos sete anos.

O nome Matopiba ou Mapitoba, refere-se a um acrônimo referente às duas primeiras letras dos estados em que faz divisa: Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia. A dimensão total do território é calculada em 414 mil quilômetros quadrados, quase o tamanho da Alemanha, e com uma população de 1.800.000 habitantes espalhada por 337 municípios. A produção de grãos do Matopiba é escoada principalmente por meio da ferrovia Carajás e do porto de Itaqui, no Maranhão. No Oeste, os destaques são os portos baianos de Salvador e Cotegipe.

Produção de grãos versus clima

Em 2015, os produtos com maior destaque na região foram soja e algodão herbáceo, com crescimento de 19,09% e 13,21%, respectivamente. Outro produto com resultado positivo foi o milho (6,45%). No entanto, a perda de parte da safra agrícola de 2015, devido a seca. Contudo, o crescimento de áreas plantadas acabou refletindo um aumento na produção.
Em 2016, a Produção Agrícola do Piauí apresentou estimativa de 2,9 toneladas de grãos, com previsão de queda de 13,92%, em relação à safra agrícola no mesmo período do ano anterior. Apesar da queda na safra, ainda devido interferências climáticas, o milho se destacou, com acréscimo de 24,25%, em razão do crescimento da área ocupada. Os demais produtos tiveram resultados negativos. O milho é um dos grãos com maior retorno e corresponde a 54,23% da produção de grãos do Estado, em função do incremento da área cultivada nos cerrados piauienses. Os dados são do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Quanto à área colhida, destaca-se o aumento nas colheitas de milho (22,15%) e feijão (3,36%). A área colhida de grãos no Piauí registrou estimativa, em 2016, menor do que 2015, provocada pela redução da cultura da soja nos cerrados. Serão colhidos os grãos em uma área de 1.350.598 ha, contra 1.370.609 ha realizados no mesmo período do ano anterior, significando uma pequena redução de 1,46%. Com relação aos três cultivos mais significativos, ainda destaque para o crescimento da área dedicada ao milho (22,15%), em contraste com a redução de 15,08% da soja e crescimento de 3,36% do feijão. O arroz ocupa o 4º lugar na produção agrícola do Piauí, porém com retração de 7,39% da área colhida. 

Os principais produtos da pauta de exportações foram soja, ceras vegetais, algodão, mel, produtos químicos e milho. No tocante ao comportamento das exportações no Nordeste, os Estados com maiores crescimentos foram: Piauí (57,13%), seguido do Rio Grande do Norte (26,53%), Sergipe (22,66%), Pernambuco (10,89%), Maranhão (9,11%) e Alagoas (6,80%). Convém ressaltar que o Piauí ocupou o 2º lugar no comportamento das exportações brasileiras em 2015, com incremento de 57,13% seguido do Acre. 

O Piauí é o 21º estado brasileiro em termos de exportações. No Nordeste, em 2015, o Piauí superou as exportações do Rio Grande do Norte, Paraíba e Sergipe. 

No tocante ao destino das exportações, os principais blocos econômicos de destino, foram: Ásia (US$ 260.833.988), União Europeia (US$ 73.117.270), EUA (US$ 23.704.639), Oriente Médio (US$ 14.981.298), África (US$ 13.256.603).

Principais culturas do Piauí em relação ao Nordeste

● Piauí é o 3º Estado na produção de soja;
● Piauí é o 2º Estado na produção de arroz, sendo superado pelo Maranhão;
● Piauí é o 3º Estado na produção de milho, atrás da Bahia e Maranhão;
● Piauí é o 4º Estado na produção de feijão, ficando atrás da Bahia, Ceará e Pernambuco.

O extrativismo, as indústrias e as ZPEs

Em termos de indústrias, o estado não é muito forte, mas podem ser destacadas as indústrias têxtil e do setor da construção civil. A têxtil teve sua fase áurea, mas já não existe mais. A instalação da indústria têxtil aconteceu na década de 80. A Coelho S/A se instalou em Picos, onde tinha uma polo forte de algodão, mas não conseguiu chegar aos dias de hoje devido a problemas climáticos e de gerenciamento. Outra indústria forte, ainda de pé, é a indústria de cimento Nassau, instalada em Itapissuma – Fronteiras. Há ainda indústrias de beneficiamento ligadas ao setor agrícola. Apesar de não serem indústrias de grande porte, têm mantido e crescido sua importância na economia ao fomentar áreas antes não desenvolvidas. Neste ramo podem ser citadas as indústrias de beneficiamento de Caju, com exportação de castanha e de beneficiamento de mel. Em Picos, a Cooperativa Casa Apis trabalha em escala industrial a exportação do mel e a Cocajupi na exportação da castanha. Os dois são exemplos que ganharam notoriedade nacional.

Outra ponto que chama a atenção, em relação as indústrias, são as Zonas de Processamento de Exportação de Parnaíba. No momento duas indústrias estão instaladas. A ZPE promete expansão para o futuro e o governo está investindo nesse processo. O objetivo é exportar produtos do norte do estado. Em agosto o Ministério da Indústria e Comércio Exterior autorizou a instalação da empresa Ecopellets do Brasil Ltda, na Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Parnaíba. A empresa vai implantar e operar unidade industrial destinada a produzir combustível sólido a partir de biomassa na forma de pellets e briquetes. O investimento foi orçado em cerca de R$ 7,2 milhões, dos quais R$ 6,4 milhões serão supridos por fornecedores nacionais. A aquisição da biomassa, que servirá de matéria-prima para essa indústria, deve injetar mais R$ 6 milhões ao ano na economia local, gerando mais empregos e renda no campo. O produto da Ecopellets é uma fonte de energia renovável obtida a partir de resíduos vegetais que são triturados, secos e comprimidos. O mercado europeu é o maior consumidor de pellets de biomassa, que é empregado no aquecimento de residências ou como fonte de energia para consumidores comerciais, plantas industriais ou termoelétricas.

Na ZPE de Parnaíba já está instalada a empresa Agrocera Piauí Ind. Com. e Exportação de Cera Vegetal Ltda cuja planta industrial para processamento da cera de carnaúba o empreendimento emprega cerca de 20 trabalhadores. Na primeira quinzena de setembro deste ano, a Agrocera Piauí começou o embarque de cera de carnaúba para o exterior.
Desde 2011 o Conselho Nacional das Zonas de Processamento de Exportação (CZPE) aprovou 12 projetos industriais para implantação nas ZPEs de Pecém (CE), da Parnaíba (PI) e de Senador Guiomar (AC) que totalizam R$ 18 bilhões em investimentos greenfield em novas plantas industriais com a previsão de geração de cerca de 15 mil postos de trabalho nas obras de implantação e mais de 5 mil empregos diretos na operação.

Plano de Desenvolvimento

Em agosto o Piauí passou a ter oficialmente um plano de ações de longo prazo, ao apresentar seu Plano de Desenvolvimento Econômico e Sustentável (PDES), que estipula metas de investimento em diversos setores econômicos até 2050. O Plano prevê uma aplicação gradual de R$ 65 bilhões em áreas específicas, gerando em retorno o montante de R$ 300 bilhões até a metade do século. As áreas em foco serão energias renováveis, agronegócio, mineração e turismo. A equipe do Plano de Desenvolvimento Sustentável entende que para desenvolver o estado em questões tão diversas, será preciso fazer um imenso esforço para melhorar a infraestrutura do estado. Três setores têm trabalhando na prospecção dos eixos do PDES, um coordenando parcerias publico privadas, outro na articulação da atração de investimento, através da secretaria de desenvolvimento econômico e ainda uma assessoria especial coordenando as cadeias produtivas. Segundo a professora Liége de Souza Moura, diretora de Estudos e Pesquisas Socioeconômicas e Territoriais do Cepro, há também um estudo feito por Câmaras Setoriais que apontam onde esses investimentos precisam chegar mais rápido. “Temos áreas estratégicas onde se tem um conjunto de possibilidades de ganho real com as energias renováveis e com o incremento da mineração, mas para isso é preciso também de infraestrutura. E aí tem as questões estruturais que estão sendo pensadas a partir das parcerias público privado”, pontua Moura. Os “sócios do estado” farão parte dessa garantia de desenvolvimento. “Tudo isso para não só dar garantias econômicas, mas também para dar garantias sociais. O que o Estado está fazendo não é uma garantia de investimento puro, mas criando condições”, frisa Liége. Para o governo há atrativos de sobra e o Estado quer fazer o seu papel.

Turismo em ascensão, história e belezas naturais

O setor de Serviços no Piauí participa com 81,26% e tem sido fomentado pela e Informação e Comunicação (23,56%), atividades profissionais, científicas e técnicas (9,37%); Atividades Financeiras (8,70%). A taxa de crescimento do Comercio no ano de 2013 foi 6,38% ante 5,26% em 2012. Foram realizadas 5.766 novas admissões no primeiro trimestre de 2016.

No setor de Serviços, a esperança recai sobre o Turismo. Cidades como Teresina, São Raimundo Nonato e Parnaíba são polos indutores. O setor hoteleiro aponta os três destinos não só com capacidade de atrair investimento na área e de alimentos e bebidas, como já com movimentação considerável. “Esses são setores dentro da cadeia produtiva do turismo que teriam demanda para uma oferta razoável e capacidade de atrair demanda”, informa Moedas. Além disso, há expectativa de ampliação dos serviços ligados aos parques nacionais, entre eles, o Parque Nacional da Serra da Capivara. “É um parque que já atrai turistas não só do Brasil mais de outros países, que estão indo para conhecer o parque nacional, mas também para fazer estudos. Alguns arqueólogos vão a Fundação do Homem Americano”, conta o estudioso.

O Problema ainda está ligada a questões de infraestrutura. É preciso incrementar os investimentos com relação aos aeroportos, O de São Raimundo Nonato está instalado, mas sem operação efetiva. Ainda é um voo regional e o aeroporto é pequeno para o que pode ser. “É um aeroporto com uma pista grande, uma obra belíssima, mas precisa colocar para funcionar”, avalia o diretor.

Apesar das dificuldades, neste mês o projeto "Voa Piauí – Do Litoral à Serra da Capivara" teve seu ponta pé inicial, foram feitos os voos iniciais para as cidades de Picos e São Raimundo Nonato. A decolagem está marcada para às 8h, no Aeroporto Petrônio Portela, em Teresina. Os voos para Picos e São Raimundo Nonato sairão de Teresina, sempre às segundas e quintas-feiras, às 8h, e retornam no mesmo dia, saindo de São Raimundo Nonato às 15h47. Nas sexta-feiras, a aeronave sai de Teresina com destino a Parnaíba, às 13 h, retornando no domingo para a capital, às 16h45. O voo para o litoral tem uma hora e cinco minutos de duração. Wellington Dias destacou que, desde a inauguração do Aeroporto de São Raimundo Nonato, o governo pensa estratégias para alavancar o turismo e o desenvolvimento da região. Além dos pontos turísticos no Sul do Piauí, a iniciativa também pode beneficiar o Ceará e o Maranhão, por meio da parceria com o Piauí na “Rota das Emoções” que promove o turismo no litoral dos três estados. "O papel do Estado é preparar para que o Piauí tenha bons equipamentos aeroportuários e hoje nós temos", afirma o chefe do executivo estadual.

Rota das Emoções

O Piauí ainda participa de um roteiro turístico que envolve os Lençóis Maranhenses, o Delta do Parnaíba e Jericoacoara, chamado de Rota das Emoções. O roteiro voltou a ser revitalizado no início do ano, graças ao envolvimento dos três governadores (Flávio Dino/MA, Wellington Dias/PI e Camilo Santana/CE). Os governadores assinaram contrato de rateio para reiniciar ações de promoção e desenvolvimento do destino. A Rota das Emoções tem uma extensão de cerca de 400 quilômetros e é formada por 14 municípios dos litorais maranhense, piauiense e cearense. Começa na cidade de Barreirinhas (MA) e termina em Jijoca de Jericoacoara (CE). Os três ícones do roteiro são unidades de conservação. Lençóis Maranhenses e Jericoacoara são considerados parques nacionais e o Delta do Parnaíba é uma área de proteção ambiental.
Com o PDS, o governo sinaliza que há garantia de infraestrutura e os eixos propostos são essenciais nesses esforços, mas é preciso que haja envolvimento do setor privado através das parcerias público privadas.
 

O impulso vindo das energias renováveis e da mineração

A grande aposta para o Piauí vem das energias renováveis. Investimentos em parques eólicos e de energia solar já estão em andamento. Em julho o governador Wellington Dias recebeu representantes da empresa alemã Wobben WindPower Enercon que apresentou seu o projeto de instalação de um parque eólico, numa área de 21 mil hectares, no município de Pio IX, localizada no sudeste piauiense a 444 km de Teresina, para a produção de aproximadamente um gigawatts de energia. Ao todo, o investimento aproximado na planta de energia é de nove bilhões de reais.

A empresa acredita que o Piauí será a nova fronteira eólica no Brasil. Para o governador Wellington Dias, o Estado dá um salto na produção de energia. “O Brasil já é o quarto maior produtor de energia eólica do planeta e o Piauí, o quarto maior produtor de energia eólica do Brasil. Nós saímos praticamente de um patamar que em 2006, 2007, nós não produzíamos e a partir do parque iniciado em 2004, no meu primeiro governo, inauguramos os primeiros 18 megawatts em Parnaíba e hoje falamos em mais de 1600 megawatts numa perspectiva de chegarmos a 6000 megas, isso equivale a mais ou menos 30 vezes o que a gente produzia de energia no estado”, informa.

O diretor do Cepro afirmou à Revista NORDESTE que há ainda perspectiva no setor de mineração para prospecções de níquel e ferro na região de Paulistana, em Capitão Gervásio, no sul do estado. A cidade possui uma jazida com aproximadamente 25 milhões de toneladas de níquel. O investimento pode chegar a R$ 2 bilhões. O prazo para instalação da empresa é 2017.

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