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Brasil

13/10/2016


Revista NORDESTE: “Região é a mais afetada com cortes do Governo”

entrevista exclusiva

Cortes afetarão mais região Nordeste

Nordeste precisa receber atenção diferenciada do governo federal para manter avanços já conquistados

O cenário internacional é de restrição econômica e de incertezas, em face dos desdobramentos da crise global de 2008; tendo em vista o fim do superciclo das commodities; da consequente desaceleração ocorrida na China, Rússia e Brasil; além dos desdobramentos do Brexit. O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta crescimento moderado da economia global em 2016 (3,1%) e uma pequena elevação em 2017 (3,4%). Em relação ao Brasil, a previsão é de uma queda no PIB de 3,2% em 2016, e uma leve retomada da economia em 2017 (1,1%). No Nordeste, os motores da economia, Bahia, Pernambuco e Ceará, estão em recessão. A Bahia registrou retração de 3,7% no primeiro trimestre de 2016, comparado ao mesmo período do ano anterior. A agropecuária, a indústria e os serviços baianos apresentaram números negativos. O Produto Interno Bruto (PIB) de Pernambuco, por sua vez, caiu 9,6% no primeiro trimestre, resultado influenciado pela agropecuária (-7,1%), indústria (-14,3%) e serviços (-7,6%), que contribuíram para o recuo na economia estadual. O PIB da economia do Ceará também declinou (-5,5%) no primeiro trimestre de 2016. O setor agropecuário foi o único que aumentou no primeiro trimestre de 2016 (8,9%). Para entender o atual momento para a região Nordeste, a Revista NORDESTE conversou com o economista-chefe do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) Luiz Alberto Esteves. O economista tem doutorado pela Università degli Studi di Siena, na Itália (2009) e é mestre em Economia pela Università di Siena, também na Itália. O profissional é bacharel em Economia formado pela Faculdades Metropolitanas Unidas e é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) desde 1999. Ele é pesquisador associado da University of London, no Reino Unido, e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da UFPR. Na entrevista concedida à NORDESTE, Esteves afirma que a região não está numa situação fiscal tão complicada quanto a do Sudeste e do Sul, mas deve sofrer mais com eventuais cortes feitos pelo Governo Federal em programas sociais e investimentos dos bancos públicos.

Revista NORDESTE: Como o BNB está vendo o cenário econômico do Nordeste?
Luiz Alberto Esteves: Esse ano o cenário continua ruim para a economia nacional e local. O que acontece, só para entender um pouco. Desde o final de 2014, começo de 2015, a economia entrou em recessão. A primeira coisa que precisa entender em relação a recessão é o seguinte: o boom, o ciclo econômico acontece em qualquer tipo de economia, ela pode estar bem administrada, a economia ser boa ou ruim, os ciclos existem. Então, isso é uma característica inerente, esses ciclos econômicos. Entramos num ciclo longo, grande, com recessão profunda. Em geral elas não costumam ser tão intensas, longas e graves, como está sendo o caso da brasileira. Uma economia quando começa a entrar em recessão começam a surgir indicadores ruins, depois fica tudo ruim, a economia está declinando. Quando chega no fundo do poço, o fundo da recessão, o piso, que é o que a gente acredita ser agora, o que acontece? A economia começa a se recuperar. Mas ela começa a se recuperar devagar. Nesse segundo semestre todo mundo aposta nisso, e a gente aqui não é diferente. Os dados têm mostrado isso. A gente mais ou menos já chegou no fundo do poço, o que é pior. Começa agora uma recuperação. Nesse semestre, até o final do ano, provavelmente, vamos conviver com indicadores bons chegando, mas ainda com uma velocidade menor do que a gente desejava, mas vão começar a aparecer alguns sinais de recuperação. Ou alguns sinais que o pior já passou. Isso é um pouco do que a gente pode falar para daqui até o final do ano. Não é o suficiente para deixar todo mundo animado… Esse ano ainda vai ter recessão, ainda vai continuar o PIB negativo. No próximo ano já tem uma previsão de crescimento da economia.

NORDESTE: O que representam esse aumento das contratações do FNE, do BNB, de 2016 em relação a 2015. O cenário dos números não é um negativo, isso já é uma tentativa de melhorar a economia?
Luiz Alberto Esteves: Essas informações não são consistentes ainda, porque a gente verifica consistência quando a gente pega um, dois, três, quatro meses de melhora de indicadores. A própria recessão é quando tem dois, três meses de nível de atividade caindo. O fato de ter aumentado (as contratações) é um alento, mas não significa ainda que é uma recuperação sustentada. Precisa de uma série um pouco longa de informações para verificar que de fato você está tendo a melhora. Então o que acontece? Muitas vezes é um entusiasmo. As pessoas estão acreditando que agora está saindo, fazem investimento, mas verifica-se que nem todo mundo embarcou nessa onda de otimismo, nem todo mundo está acreditando na economia ainda. É um pouco isso. É um alento, mas não dá para dizer que é uma coisa sistemática ainda. Vamos ter que esperar uns três, quatro meses para verificar se aqueles indicadores que começaram a aparece de forma positiva, se esse efeito positivo se sustenta. Ainda é muito cedo para falar que é uma recuperação. Para isso precisaremos de dados mais robustos e dados mais robustos significa ter uma série com dois, três, quatro meses seguidos apresentando melhora.

NORDESTE: Para entender melhor os bons dados dos investimentos do BNB, no FNE, dados que mostram uma melhora no quadro da crise. Podemos lê-los como uma gota d’água no meio de uma grande crise?
Luiz Alberto Esteves: É a mesma coisa do teu filho que está indo mal na escola, você diz que vai colocar num professor particular. E aí ele vem com uma nota alta em história. Mas tem que ver se vai ter nota alta em português, matemática. A economia tem um ciclo. Tivemos um ponto fora da curva. Mas é preciso ter um pouco mais de cuidado, para saber se já caracteriza uma mudança de trajetória. É bom ser cauteloso, mas tem que esperar isso aparecer com consistência em vários meses, várias áreas.

NORDESTE: Temos notícias negativas como a redução do papel do BNDES, a possibilidade de redução do Minha Casa, Minha Vida, do investimento do BB, investimento do BNB, uma reformatação disso. Isso não prejudica diretamente a região Nordeste?
Luiz Alberto Esteves: A região nordeste pelas características da região, pela estrutura produtiva, de fato, cortes de investimentos governamentais teriam um impacto maior do que outras regiões do país, principalmente em relação aquelas que têm uma maior capilaridade, que têm mais setores. O que acontece? Quando você tem uma economia que é bastante complexa, podemos imaginar São Paulo, talvez seja a economia mais complexa que temos, temos Rio Grande do Sul e Paraná… o que acontece? Como você tem um portfólio de setores bastante grande… Quase todos os setores da economia têm planta e fábrica, cada setor da economia responde diferente a determinados estímulos, até mesmo numa crise você tem setores que alguns entram primeiro, outros entram mais tarde. Outros setores ainda só entram no final do início de uma crise. Da mesma  maneira, quando você está saindo de uma crise, se a economia tem um nível de sofisticação muito grande, o que acontece? Alguns setores começam a puxar a economia para cima, máquinas, equipamentos começam a puxar e começam a puxar outros, tecnologia da informação… Aí começam a chegar na própria cadeia de investimento, em bens de consumo, serviços…. Então, economias que têm uma diversidade grande, têm um risco diversificado. Uma atitude como corte de gasto governamental atinge todo mundo, mas onde você tem mais opções de atividade econômica o efeito é menor. Quando você pega economias menos sofisticadas, onde poucos setores têm uma grande representatividade, esses setores estão mais propensos a sofrer com os corte de gasto governamentais. Corte no Minha Casa, Minha Vida afeta a construção civil, a indústria de cimento, a cadeia produtiva da construção, que no nordeste, seja na parte de indústria ou do comércio, é proporcionalmente relevante. Em São Paulo é relevante, mas é uma parte inferior. E outra coisa, os próprios programas sociais, a região Nordeste recebe proporcionalmente maiores investimentos de programas de compensação exatamente por conta das desigualdades regionais, então quando você tem cortes, é claro que aqui vai afetar mais regiões como o norte/nordeste do que a região sudeste, porque lá é mais diversificado. Ela sofre efeitos iguais (o mesmo corte), mas lá esse feito é mais disperso. Não quer dizer que o efeito não existe, mas vai ser disperso com maior facilidade do que no local onde é muito concentrado (os setores da economia). Aqui, gastos sociais, gastos governamentais, são muito importantes. O Nordeste precisa reduzir o diferencial de infraestrutura comparado com outras regiões. Ou seja, necessita de investimentos de infraestrutura mais do que o que é investido proporcionalmente em outras regiões, e aí, é claro, que (os cortes) acabam sendo mais complicados.

NORDESTE: Vivemos um quadro de queda no FPE, FPM, queda na arrecadação de impostos que têm dificultado a vida dos governos estaduais. Eles se reuniram em maio dizendo que há perigo de haver um colapso nos serviços essenciais. Isso realmente pode acontecer?
Luiz Alberto Esteves: Eu acho que outros estados estão em situação mais complicada do que os estados do nordeste. Na região não tem nenhum estado que tem uma situação fiscal maravilhosa, mas os estados do Nordeste até têm uma posição relativamente melhor do que outros estados. Mas o que acontece é que a crise foi muito longa e aguda, e isso afeta diretamente a arrecadação tributária, reduzindo a capacidade de investimentos. O ponto é que numa crise clássica, os instrumentos clássicos seriam exatamente os governos utilizarem investimentos públicos, recursos públicos, para tentar compensar a queda de investimento privado. Mas pegamos uma crise onde a situação fiscal já era ruim. Ou seja, estamos numa crise fazendo corte de gastos, sendo que geralmente as crises, em qualquer outra circunstância, qualquer livro ou manual econômico, afirma que numa crise econômica onde o setor privado acaba por algum motivo reduzindo o nível de investimento, o estado pode intervir para lidar com o período de incerteza. A gente está numa situação onde os estados não têm recursos. Essa crise acertou a receita tributária. A crise se prolongou durante muito tempo, (agora) o comprometimento das finanças dos estados com funcionalismo e previdência são elevados, de modo que se tem pouco grau de liberdade para fazer investimento. Numa crise esse grau de liberdade desaparece e acaba comprometendo folha de pagamento, comprometendo o andamento de serviços básicos, isso pode acontecer. Já está acontecendo. No Rio de Janeiro teve um colapso no estado. Agora está num momento em que está sendo feito uma discussão dessas dívidas e grande parte do compromisso dessas dívidas é com a União. Esse risco existe, mas eu acho que outros estados de outras regiões podem ser que tenham problemas primeiro do que os estados do Nordeste.

NORDESTE: O senhor poderia detalhar, de forma geral, como andam os estados nordestinos, quem está melhor ou pior?
Luiz Alberto Esteves: Quem deu o start nessas negociações das dívidas do estados não foram os estados do nordeste, foi o Rio de Janeiro, o Rio Grande do Sul, São Paulo, que estão numa situação muito mais precária em termos de finanças estaduais do que os estados do nordeste. Teve até um encontro do Tribunal de Contas da União (TCU) que foi organizado aqui (Em Fortaleza), que foi colocado isso… Os estados do nordeste participaram da reunião, mas não foram eles que começaram o start, essa rediscussão de dívida está partindo de estados, inclusive, muito mais ricos. Tem uma queda de arrecadação, mas pelo que foi dito ali, em geral, o Nordeste não está nas piores situações. É claro que os governadores vão sempre colocar que estão em situação complicada… alguns falaram isso. Se você olhar em termos de Brasil, se olhar a negociação que está acontecendo em Brasília, com certeza estão muito mais preocupados com a situação do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, do que do Nordeste. Não é por causa da economia do nordeste, ou pelo fato de ser Nordeste, mas porque a situação do sul é bem mais grave mesmo.

NORDESTE: Alguns economistas já sinalizam uma nova crise mundial. É possível que o Brasil venha a sair da crise, possa encontrar outra crise mundial logo em seguida?
Luiz Alberto Esteves: O cenário internacional nunca foi de uma consolidação. Desde 2008 ele nunca passou muita confiança que a gente tinha deixado para trás qualquer risco de crise no curto prazo. Eu não descarto essa possibilidade de fato de a gente assim que sair dessa crise, dar de cara com uma crise internacional. Só que vamos estar vindo de uma situação muito ruim. Eu acho que a dinâmica interna da recuperação, ela pode fazer mais ou menos o que aconteceu com a crise de 2008 e 2009, a gente tomou um tombo grande, mas foi uma recuperação rápida. Lula falava: ‘isso aí é uma marolinha’. É um pouco isso, pode ser que a dinâmica interna ajude a mitigar o risco de uma crise internacional. Talvez uma crise internacional acabe pegando outros países mais do que a gente. Onde eu quero chegar? Como você sai de uma crise? Qual a lógica de uma saída de uma crise? Os ativos começam a ficar muito baratos. Começa a crise, ninguém compra nada, os ativos ficam baratos e aí chega uma hora que está tudo tão barato que as pessoas dizem que está na hora de comprar, mais barato do que isso não vai ficar. Isso acontece com o preço dos bens, de ativos e tudo mais. A gente já está numa situação em que está tudo muito barato. Ninguém acredita que vai ficar pior do que está. Onde eu quero chegar? Pode ser, eventualmente, que possa ter uma outra crise internacional, eu acho que talvez não chegue na que foi a crise de 2008. Aquilo foi um ponto completamente fora da curva. Mas eu não sei se chega a ser uma situação que vai jogar a gente de novo para o fundo do poço. Eu acredito que pode dificultar um pouco a nossa recuperação. Vamos perder fôlego se isso acontecer, mas não a ponto de nos jogar de novo para o fundo do poço e ficarmos lá mais alguns meses. Eu acho que isso não acontece.

NORDESTE: Essa crise coloca o Nordeste de novo atrás no desenvolvimento? Vínhamos tendo um crescimento maior do que o do Brasil. A diminuição de políticas, de investimentos, vai fazer com que percamos o passo do desenvolvimento?
Luiz Alberto Esteves:
Não dá para dizer isso. Vamos voltar para o que eu falei no início. Uma economia bem administrada ou mal administrada, ela tem uma trajetória, ciclos econômicos. Vamos ter períodos onde a atividade econômica vai bombar e outros que ela vai entrar em alguma recessão, mas isso gira em torno de uma trajetória. Onde eu quero chegar? É como se fosse a saúde, você faz esportes, se alimenta bem, vai no médico. Tem dia que você vai acordar melhor, ou pior, você tem uma saúde boa, mas vai estar exposto a alguns fatores exógenos com as crises. Então é só separar o que é cíclico do que é trajetória. Tem pessoa que se trata mal, é alcoólatra, fuma, não pratica exercício nenhum, tem uma saúde horrível, mas tem dia que acorda muito bem, e tem dia que acorda muito mal. Então isso é como se fosse a tua saúde e o que acontece  dia sim, dia não, em torno de uma média da sua saúde. As economias são iguais, elas têm uma média que funciona. O que acontece é que a economia do Nordeste conseguiu fazer um arranjo que fez ela crescer mais do que o resto da economia brasileira, mas foi uma questão de trajetória mesmo. Teve uma mudança estrutural. Melhorou a saúde das economias do nordeste.

NORDESTE: Esse é um ganho permanente?
Luiz Alberto Esteves
: A princípio sim. É uma coisa que ela absorveu. Mudou a sua estrutura. Uma crise não vai fazê-la perder isso. As pessoas incorporam tecnologia, informações, se progrediu em termos de treinamento de recursos humanos. Então isso é uma coisa que não se perde da noite para o dia. Um pouco igual a economia americana quando teve aquela crise (de 2008), se dizia que a economia americana ia virar pó. Mas lá tem Harvard, IMT, Princeton, os maiores pesquisadores, isso não se perde. Pode ter uma crise, as pessoas ficarem mais pobres… Parte dos benefícios do crescimento do nordeste, é que ele de fato tinha uma trajetória de crescimento alto, pode ser que tenha perdido isso, porque parte da dinâmica se perdeu. Foi muito motivado por vários outros fatores que a (agora) é possível que possamos ter perdido. Mas eu acho que não é um ponto das pessoas olharem e dizerem: a gente vai voltar para aquela situação anterior de quando a gente começou a mandar bem. Não é isso. Teve mudança de fato na estrutura econômica do Nordeste e ela absorveu isso. É um ganho permanente. Pode perder? Pode perder. Mas a questão é que essa pergunta o Brasil tem que fazer para ele também. E aí, acabou a crise, e o que a gente vai fazer agora. Na realidade, dependendo das escolhas, o Nordeste pode voltar a crescer, alias, mais que o Brasil, e pode ser muito mais do que antes. Mas é aquilo, o que você vai fazer com a sua saúde. Essa é uma pergunta que você vai fazer todo dia. Independe de você estar gripado ou não, se acordou ótimo ou não. A trajetória das economias é a mesma coisa. Qual é o problema? A economia brasileira até um tempo atrás, não sei se você já ouviu falar da expressão “PIB potencial”… O PIB Potencial é a capacidade que se tem da economia crescer independente de qualquer coisa. Há alguns anos atrás se falava que o Brasil tinha capacidade de crescer 4,5%, 4% e foi perdendo isso. Hoje saindo da crise se fale em 2%, 2,5%, até com certo entusiasmo. O nordeste era muito mais do que 4%. Pode ser que ele retomando depois da crise, já não tenha aquela capacidade. Mas não significa que vai crescer a taxas menores do que o restante do Brasil. A pergunta é quê estratégia vai ser feita daqui para frente? O Nordeste fez uma mudança que entrou no DNA e ficou. Agora como é que ele vai usar isso? Essa é uma pergunta que o sudeste vai ter que fazer, todo mundo vai ter que fazer. Não dá para falar que tudo aquilo que a gente ganhou, a gente perdeu, isso não faz muito sentido.
 

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