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Brasil

07/10/2016


Revista NORDESTE revisita A Utopia, Shakspeare e Cervantes

por Marcos Formiga

Uma breve visita à literatura mundial               

Brasília setembro de 2016

Núcleo de Estudo do Futuro e Coordenador dos Eventos acima.         

Em 2016 o mundo está celebrando 500 anos da obra “Utopia” e 400 anos da morte de Miguel de Cervantes e William Shakespeare. Durante o ano, a Universidade de Brasília reuniu especialistas nas obras e dos três escritores. O colaborador Marcos Formiga participou dos eventos.

O Núcleo de Estudo do Futuro, do Centro de Estudos Multidisciplinares CEAM, da Universidade de Brasília(UnB), realizou ao longo do ano de 2016 três eventos marcantes que fazem do ano em curso uma data maior para o calendário da literatura mundial; quando se celebra 500 anos de “Utopia”, de Thomas Morus; 400 anos de Miguel de Cervantes e William Shakespeare falecidos, por coincidência, no mesmo dia: 23 de abril de 1616. Para o evento sobre Thomas Morus foram convidados os Embaixadores Alex Ellis, do Reino Unido-UK, e João Almino, Diretor da Agencia Brasileira de Cooperação – ABC, especialistas na obra quincentenária, para avivarem seu papel transformador em uma sociedade melhor, mais civilizada, preparada intelectualmente e moralmente, comprometida, cada vez mais, com o futuro que precisamos construir para o Brasil.

Em 23 de abril de 1616, morreu Miguel de Cervantes em sua casa em Calle del Leon, em Madrid. Pela grandeza e genialidade do consagrado escritor espanhol, a UnB celebra os 400 anos de Cervantes, em homenagem a sua obra prima: “Dom Quijote de la Mancha”, como visto, publicada a primeira parte em 1605 e só concluída no ano anterior a sua morte. Em relação a Dom Quixote, o escritor peruano Mario Vargas Llosa, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, apresenta em 2005 a edição comemorativa da edição de 400 Anos de “Dom Quijote de La Macha” sob o título “Una Novela para El Siglo XXI,” subtítulo com o qual a Universidade de Brasília com apoio da Embaixada de Espanha pelo seu Embaixador Manuel de la Camara Hermoso, e do Instituto Cervantes de Brasília, pela sua diretora, a Professora Rosa Sanchez, teve como palestrante do evento em 14 de junho, o especialista cervantino do porte de José Manuel Lucía Megias, Coordenador espanhol das comemorações dos 400 anos de Cervantes, e reconhecido como uma das maiores autoridades na biografia e obra do maior escritor espanhol.

William Shakespeare, reconhecido como basilar da literatura mundial, teve no evento em sua homenagem, os seguintes palestrantes que contaram sobre a visão de futuro de Shakespeare: Frederic Litto, Professor Emérito da USP; Gustavo Franco, Professor de Economia da PUC/RIO e ex-Presidente do Banco Central do Brasil e José Roberto Castro Neves, Professor de Direito da PUC/RIO. Todos inspirados na sempre lembrada Barbara Heliodora, crítica teatral e maior especialista, divulgadora, educadora da obra de Shakespeare no Brasil.

Aqui registramos um sumário sobre os homenageados e suas obras monumentais.

No limiar do Sec. XVI, apenas dezesseis anos após a chegada dos portugueses ao Brasil, Thomas Morus lançava em Londres, como de costume no Renascimento, seu livro com título e conteúdo em latim “De Optimo Reipublicae Statu deque Nova Insula Utopia” ou como ficou mundialmente conhecido somente “A Utopia”.

É um marco da Idade Moderna, como a invenção da imprensa por Gutemberg e os grandes descobrimentos marítimos a partir Península Ibérica. Portanto, o Brasil, como “A Utopia”, são contemporâneos, construídos e construtores da modernidade renascentista.

Thomas Morus em “A Utopia” imagina a vida dos habitantes de uma ilha de mesmo nome onde vive uma sociedade ideal que pode ser o oposto idealizado em sua Ilha Britânica, ou no continente europeu, de então. Não estava contando uma parábola, sem apelar para um mundo fantasioso, mas, chamando a atenção de seus contemporâneos para uma comparação de uma situação inatingível na Inglaterra do início do século XVI.

Morus é o autor de um projeto humanista de profunda mudança social; e a genialidade futurística de “A Utopia”, servia não apenas para sua época, mas, continua a desafiar-nos 500 anos depois. Aí está, a atualidade do pensamento transformador de Thomas Morus, embasado em princípios universais, tais como:

– Os habitantes da ilha Utopia conheciam os recursos materiais disponíveis em base de critérios racionais. Antecipava-se, assim, o conceito vintenista de Sustentabilidade.

– O trabalho socialmente necessário repartido de forma equitativa, sem classes oprimidas: visualização, com antecedência de III séculos, da categoria da “mais valia”, por Marx.

– Apontava soluções inteligentes dos utopianos habitantes da Ilha, para problemas que ainda se arrastam em nova civilização pós-industrial em plena “Era do Conhecimento”, dentre eles:

– Criminalidade e sua punição

– Problemas da família

– Conflitos religiosos, e

– Guerras e disputas territoriais

A busca permanente e contínua por um mundo livre para, e com homens e mulheres livres, faz a UnB, criada quatro séculos e meio depois de “A Utopia” se reunir para celebrar 500 anos de uma mente brilhante e de um clássico da humanidade, que continua a inspirar a todos.

Miguel de Cervantes Saavedra, nasceu em Alcalá de Henares em 09 de outubro de 1547. Seus estudos foram feitos em diferentes cidades: Valladolid, Córdoba e Sevilla, possivelmente em colégios Jesuítas, mas, não alcançou a Universidade. A família de seu pai, cirurgião Rodrigo de Cervantes, se estabeleceu em Madrid em 1566. Na cidade, Miguel frequentou o Estúdio de La Villa, cujo regente, o catedrático de gramatica Juan Lopez de Hoyos, seu mestre preceptor que incluiu três poesias de Cervantes em livro sobre a rainha Isabel de Valois, constituindo-se assim, sua primeira chance como escritor.

Fugitivo de Espanha, foi para Roma em 1569. “Fui soldado por muitos anos, escravo por cinco anos e meio (em Argel) e foi ai que aprendeu a ter paciência na adversidade”. Em 1571, participou da batalha naval de Lepanto, formando parte da armada cristã enviada por Dom João da Áustria em apoio ao Rei Espanhol Carlos V. À época, Nápoles era um enclave espanhol. Orgulhava-se de ter participado da batalha de Lepanto e ter saído como herói, apesar de ter perdido parcialmente parte e movimentos da mão esquerda, o que não impediu de continuar guerreando.

Somente em 1580 consegue sua libertação e retorna a Madrid. Logo em seguida mudou-se para Portugal, aonde estava a corte de Felipe II. Desejava um emprego em Índias, mais não obteve.

Em um relacionamento com Ana Rojas, mulher de um taberneiro, teve uma filha chamada de Isabel de Saavedra. Em 1584 casa-se com Catalina de Salazar y Palácios. Entre 1581 e 1583 escreveu sua primeira obra literária “La Galatea”, conjunto de seis “livros” correspondente a primeira parte, com poesias e novela pastoril com inúmeras influências italianas.

Entre 1587 e 1600, Cervantes fixou residência em Sevilla, e ganha a vida exercendo humilde ofício de comissário de abastecimento ao serviço de provedor de navios reais. Outra vez, em 1590 tentou ir para as Índias, mas teve seu pedido negado pelo Rei.

Também tentou ir para América do Norte e novamente não obteve permissão. Mas, graças a negativa de estabelecer-se na América, seguramente não teria escrito sua genial novela. A América perde um imigrante, a Espanha ganha seu maior escritor. Em 1603, muda-se novamente para Vallodolid onde estava a corte de Felipe III, no ano seguinte, obteve o privilégio real para publicar “Dom Quijote”. Lança em 1605, a primeira parte da sua magistral obra e em seguida acompanha a Corte que se muda para Madrid, e lá se estabelece definitivamente na Calle del Leon.

O êxito de Dom Quijote motivou a Cervantes – já que havia passado vinte anos que antecede o lançamento de Quijote sem publicar. Lança “Novelas Exemplares” em 1613, e em 1614 “Viagem ao Parnasso”. Em 1615 a segunda parte “Dom Quijote” e mais dois livros póstumos “Persiles” e “Sigismunda”.

Deste modo, o tempo e as circunstâncias vivenciadas por Cervantes, à época do chamado “Domínio Espanhol”, sob o qual Portugal e a sua Colônia brasileira foram submetidos, também influenciaram a Miguel de Cervantes a escrever e relatar aqueles conturbados acontecimentos narrados a partir de uma vida de verdadeiro “cavalheiro errante”.

Ou melhor, expresso na voz e na escrita do próprio Cervantes:

“Para isto esforçou-se o meu engenho, leva-me por aqui a minha vocação; eu me considero – e assim o é – o primeiro a novelar em língua castelhana, pois as inúmeras novelas que nela andam expressas são todas traduzidas de língua estrangeira e estas aqui são minhas mesmas, não são imitadas, nem roubadas; concebeu-as o meu talento, pariu-as a minha pena e vão crescendo nos braços da imprensa”. In Prologo – Novelas Exemplares”

Willian Shakespeare

Nasce em Stratford Upon Avon, em 23 de abril de 1554, falece na mesma data em 1616, aos 52 anos. Sua produção intelectual é primorosa em qualidade e impressionante na quantidade, escreve 37 peças: 14 comédias, 12 tragédias, 11 épicos históricos e 154 sonetos. A mesma registra 884.647 palavras, sendo 14.376 usadas apenas uma vez, e cunha, cria, 3.000 novos vocábulos.

Shakespeare é o autor mais traduzido no mundo, suas obras estão vertidas em mais de cem idiomas. Por ser considerado autor-referência da literatura mundial, a data de seu nacimento, 23 de abril empresta justa homenagem como o Dia Internacional do Livro.

Desempenhou papel fundamental da construção do idioma Inglês moderno, tornado língua franca mundial; pela Globalização Econômica, ao lado da aceitação quase universal da moeda norte americana.

A Inglaterra, seu pais, e mais tarde o Reiuno Unido, sua nação, consideram seu maior legado a capacidade de educar seus cidadãos e os cidadãos do mundo. Shakespeare é uma espécie de Professor universal, que, além de sua portentosa e diversificada obra literária, foi capaz de idealizar e manter realizações definitivas que alavancam seu legado: o Royal Shakespeare Company – RSC, em sua cidade natal Stratford Upon Avon e o Shakespeare Globe Theatre em Londres.

A propósito, este teatro Elizabethiano foi inaugurado em 1599, incendiado em 1613 durante a montagem da peça Henrique III e foi demolido em 1644. Em 1990 foi reconstruído a margem do rio Tâmisa, a 300 metros da construção original, por mecenas e bardólatra norte americano, ator e diretor Sam Wanamaker. Em junho passado tivemos a oportunidade de assistir in loco a peça King John, como parte das celebrações dos 800 anos da Magna Carta, promulgada em 1215 pelo soberano inglês e com apoio dos seus nobres, e ratificada em 1225, pelo Rei Henrique III. Sem dúvida, este e o documento basilar do Parlamento Contemporâneo, considerada a primeira Constituição do Estado Moderno.

Ainda como parte das celebrações dos 400 anos de Shakespeare foi construída uma réplica do Globe Theatre em Auckland, na Nova Zelândia, durante o ano em curso estão sendo encenadas peças ao ar livre e seguem, encenadas pelo mundo a fora, a preço popular, para plateias em bancos rústicos de madeira em pé-tal como o (original). A réplica de Auckland foi programada como um relâmpago a desaparecer após a encenação de A tempestade. 

No Brasil também terá sua réplica, a cidade mineira de Rio Acima, com 10 mil habitantes e localizada a 40 km de Belo Horizonte – BH, almeja projeção mundial com o ambicioso projeto em curso, denominado Complexo Cultural de Gandarela, inspirado no bem sucedido museu ao ar livre do Inhotim, o projeto inclui filial do Globe Theatre, graças a um acordo assinado em 06 de março de 2012 entre o Shakespeare Globe e o Instituto Gandarela.

Uma curiosidade: há um clã nordestino brasileiro da família Shakespeare. Scott Kirk, sobrinho neto em decimo terceiro da linhagem de Joan, irmã do bardo, migra em 2009 para a Paraíba em busca de sol e praia. Em Natal-RN encontra a professora de Inglês Dayana, casa-se e muda-se para Stratford Upon Avon, lá nasce sua filha Suzana Áraujo Kirk, que recebe o nome da primeira filha de Shakespeare. Suzana Araújo Kirk, foi batizada na Holy Trinity Church, mesmo local de batismo e túmulo onde repousa William Shakespeare. Hoje, a família Áraujo Kirk reside no Canadá.                                                                                            

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