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Cultura

28/03/2018


Revista NORDESTE: Totonho, o som de vanguarda

Totonho é um cabra cósmico. Suas letras bebem da ficção científica e seu som tem um pé no psicodélico, no côco, na música eletrônica. Natural de Monteiro (PB) e residindo atualmente em São Paulo, está preste a lançar seu terceiro disco, onde ele decidiu flertar com o samba.
Para o trabalho, intitulado Samba Luzia Gorda (uma homenagem à sua mãe e à força das mulheres do Nordeste), Totonho reuniu uma equipe de peso e está animado com o projeto, que para ele marca uma nova fase, mais madura e onde ele tenta alcançar ares tão altos quanto suas ideias.

NORDESTE – Há um zum-zum-zum nos guetos e ambientes cults de São Paulo de que você está com novo trabalho pronto. Se procede, o que significa na sua carreira artística?

Totonho: Então, deixei o Rio há dois anos atrás no intuito de formatar um novo álbum. João Pessoa é hoje um dos mais qualificados centros de produção autoral do Nordeste. Resolvi investir no segmento de samba, porque tinha um pacote de músicas relativamente boas, e que estava no nível dos sambas feitos no Rio. Algumas dificuldades, mas consegui gostar do projeto. Fiquei ansioso na demora para criar condições para que esse novo trabalho fosse a minha volta pro mercado nacional e internacional. Enquanto esperava, produzindo o coco ostentação. Fiquei feliz por estar com capacidade de compor no nível dos meus pares do sudeste. Carlos Dowling, assumiu a produção executiva. E viemos pra São Paulo flertar com gravadoras. Ficamos felizes por a YB ter feito uma proposta de contratação. O Maurício Tagliari além de ter produzido meu primeiro disco, era um dos sócios da gravadora, e começamos o processo que está em fase final de produção.

NORDESTE – Qual o sexo do(a) Cabra? O que lhe inspirou para este novo trabalho esperado?

Totonho: Compositor é um animal híbrido, mas a inspiração virou uma obsessão em homenagear minha mãe. Então SAMBA LUZIA GORDA reserva um substancial olhar para as mulheres. É talvez uma alusão a sociedade matriarcal do interior do Nordeste onde as mulheres representam o chão, a base. Poucos coronéis teriam poder e ênfase em suas aldeias sem suas mulheres fazendo plantações, para seus filhos crescerem com mais decência do que seus pais tiveram.

NORDESTE – Como se chama, a que se propõe e para onde quer ir?

Totonho: SAMBA LUZIA GORDA, é também uma prova de que nordestinos manejam sambas. Que desde Jackson do Pandeiro, a Paraíba não tinha um sotaque tão singular do gênero.

NORDESTE – Que estilos, ritmos e/ou letras buscam dizer ao público ávido por novidades?

Totonho: É o álbum de Samba, Funk e Hip Hop do Mato. Um estilo que venho desenvolvendo. Aprendi no Rio com o pessoal das velhas guardas das escolas com quem convivi. Samba é o que você tem pra dizer. Apoie pronto. Tenho muito pra falar, coisas que sambas doutras regiões não disseram. É meu disco mais politizado. Um pouco sobre amor e safadezas, sobre pactos, sobre urbanidades, sobre o olhar e mistérios das mulheres no pasto de opressão que vivem no Brasil. Muitas metáforas mas, um álbum sem bula. Tem que mergulhar e vai rir e vai chorar

NORDESTE – Quem está com você neste projeto em fase de lançamento, não só como músicos, mas estrategistas, áudio visuais, etc?

Totonho: Músicos. Chamei só caras que concordam e amam minha existência musical. Pessoas só coração. Moreno Veloso, André Abujamra, Otto, As meninas dos Tambores Femininos do MBJI, Rica Amabis. Jorge Ceruto, trompetista e cantor Cubano. Quinteto da Paraíba também. A maioria mais respeitada fora do país. Potizinho Lucena e Luis Humberto que fiz questão de trazer pra provar o compromisso que tenho com a Paraíba. Carlos Dowling e Shiko cuida das imagens e capas e clip. Só pessoas incomodadas por eu ficar 10 anos sem lançar um disco nacional, com chances de visibilidade.

NORDESTE – Você consolidou sua carreira misturando sample com côco e improviso. Isso tem raiz no Sertão brabo, agora misturado com música de periferia. Que caldo cultural se propõe a novo trabalho?

Totonho: É o primeiro disco sem samples. Fiquei com medo porque meu cérebro é eletrônico. Minha palavra é ligada na tomada. Mas agora tive a oportunidade de revisitar o Jaguaribe Carne, é a essência de uma música inspirada no caos, mas querendo colaborar com as saídas democráticas.

NORDESTE – A música brasileira anda infestada de porcaria na Grande Mídia. Como você pretende ter espaço neste Deserto árido de canções de merda?

Totonho: Isso é entretenimento, não exatamente apenas música. Amo o funk, mas faço um funk que não agride a inteligência de ninguém. Agora não componho apenas por grana, por sobrevivência mas pra consolidar minha aldeia, Monteiro. Para dizer que temos de fato um diferencial poético.

NORDESTE – As canções instigantes e críticas estão raras. Quando seu trabalho pode ser um alento neste sentido?

Totonho: Gosto de baladas. Trago algumas. A dificuldade de selecionar 30 músicas e gravar apenas 11 mostra que aos 53 anos estou no páreo. Disputo com qualquer compositor brasileiro da velha e nova geração. Trata-se de uma obra autoral. Assino todas as faixas. E o que mais me conforta é saber que não serei infeliz se minha música não bater 100 mil, um milhão de visualizações. Chegará um momento que a mídias e os consumidores irão ficar surpresos do porquê essa música não foi reconhecida.

NORDESTE – Quando e onde pretendes lançar aos Vivos?

Totonho: Abril pra fora, França e outros da Europa. Maio Brasil. Nunca se sabe mas esta parte já não depende mais de mim. O disco tem como produção o FIC, Governo do Estado, e espero que estes se orgulhem e parem de tratar como um centro histórico, ABANDONADO.

Dirigindo a inquietude

Mauricio Tagliari conhece a fundo a direção musical no eixo Rio – São Paulo, mas se especializou em Totonho desde os primeiros tons e sons no Rio de Janeiro

 

NORDESTE – Na condição de Diretor de Produção do novo trabalho musical de Totonho, como você define a Obra em fase de conclusão e lançamento?

Maurício Tagliari: Vejo este projeto como o mais maduro de Totonho. é retrato de uma vivência do artista circulando por um mundo sem fronteiras, pelas ruas, os movimentos sociais e a internet. As letras estão mais afiadas, as melodias mais elaboradas, as ideias mais contundentes.

NORDESTE – Esteticamente como conceituar o novo trabalho dele?

Maurício: Impossível enquadrar o Totonho. Este disco começou muito inspirado em samba. Mas os horizontes sempre se expandem com o cabra. Tem samba. Tem batida de samba. Mas não é só samba. Longe disso. É música brasileira atual.

NORDESTE – Do CD “Totonho & os Cabras” até “Côco Ostentação”, como conceituar a evolução estética e musical do artista?

Maurício: Sempre houve um lado regional grudado em algo mais experimental. O elemento eletrônico sempre esteve presente. Quando produzi o primeiro disco o mundo era outro e Totonho falava de um cara saindo de sua terra e descobrindo outros problemas e outras alegrias. Adoro o Côco Ostentação. Já é mais surreal. Mas o novo disco, de certo modo, filtra melhor essas vertentes. É mais síntese.
NORDESTE – Qual o peso das letras/mensagens em tempo de tanta coisa ruim sendo exposto na Música Brasileira?

Maurício: Totonho é um poeta espontâneo. Não que seja naïve. Pelo contrário. Coloca muita informação nas letras. Muitas imagens, viagens, ideias. Não vejo suas canções como temas instrumentais. As letras são fundamentais. As melodias são veículos. O peso é enorme. Não gosto de falar em porcentagem.

NORDESTE – Em síntese, qual o objetivo de novo trabalho em termos de mercado nacional e internacional? Onde será lançado?

Maurício: O objetivo é sacudir as ideias, instigar, botar o povo para refletir e dançar. Totonho vive em São Paulo, depois de temporadas no Rio e na Paraíba. Ele pode fazer show com banda, com um violãozinho ou com um DJ. Sua mensagem vai rolar. E espero que role o país todo. Se vier algo no exterior, que venha. Mas antes ele tem que espalhar e circular este trabalho aqui. Acho fundamental que ele toque muito pelos confins do Nordeste todo. Ele é uma ponte entre o passado e o futuro. Entre o sertão e a urbe.

 

 

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