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Brasil

23/12/2016


Revista NORDESTE traz relato de professora que viu praça de guerra em Brasília

Por Pedro Callado

O dia 29 de novembro de 2016, sem dúvida ficará marcado para muitas pessoas e não de uma forma positiva. Não é só porque nesta data o Senado aprovou em 1º turno, com um placar de 61 a 14, a Proposta de Emenda À Constituição 55 (antiga PEC 241), que congela os gastos públicos durante 20 anos, causando enorme prejuízo, especialmente para a Saúde e a Educação. Nesta fatídica terça-feira cerca de 40 mil pessoas, em sua maioria estudantes e professores, se viram no meio de um verdadeiro campo de batalha, em que policiais militares avançaram para cima de quem quer fosse, sem distinguir jovem, idoso ou criança.


“À medida em que recuávamos, a polícia avançava. Ela não poupava ninguém. Quando o protesto começava a tomar corpo, já se aproximava do fim do expediente dos trabalhadores. Ninguém foi poupado. Vi idosos, mulheres com crianças, e nós, os militantes, apanharem muito. O desespero era fugir do gás e, simultaneamente, retirar quem estivesse atingido ao lado: foi a maior lição de solidariedade que vivi”.


Essas palavras são da professora da Universidade Estadual da Paraíba, Mauriene Freitas, que fez um relato detalhado no Facebook sobre o dia 29 de novembro, quando ela e mais dois colegas saíram de Campina Grande, na Paraíba, e foram com 42 alunos até Brasília protestar contra a PEC e outras medidas do Governo Federal.


Confira o emocionante relato da paraibana:

A Revista NORDESTE conversou com a professora Mauriene e ela falou mais um pouco sobre o que viveu naquele dia. “A viagem para Brasília mostra que a gente tem que se organizar cada vez mais para enfrentar esses retrocessos. Embora, tenha sido em primeiro turno, a votação no Congresso que em teoria foi feita pelos nossos representantes, não representa os direitos das pessoas, ao que parece representar seus próprios interesses. E não tem volta, depois vem a reforma da previdência, e depois a reforma trabalhista, já imaginou, você ganhar a mesma coisa que você ganha e trabalhar muito mais? Imagina, podem cortar o 13º, podem aumentar a carga de trabalho”, disse.


Em seu relato, a professora deixa claro que toda a confusão começou a partir de uma ação da Polícia. Todos os veículos da grande Mídia, a exemplo da Folha de São Paulo e do Globo, afirmaram que a confusão começou depois que um grupo de manifestantes virou e vandalizou o veículo de uma rede de televisão. Mas segundo Mauriene, esse fato foi já uma represália devido a ação de policiais que aconteceu momentos antes. “Nosso grupo rapidamente chegou ao gramado que antecede o espelho d’água. Sem aparente identificação, os policiais já estavam posicionados para nos receber. Até então não tinha havido nenhum tipo de embate, apenas algumas pessoas dentro da água. Do lado oposto ao que estávamos, uma mulher dizia algo para os policiais. Nesse momento tive a ideia de abrir a bolsa e pegar o celular. Nessa fração de segundo ouvi uma vaia generalizada e levantei os olhos: a mulher estava inerte na água. Todos se revoltaram com o fato de o policial jogar spray de pimenta algumas vezes e ela não recuar. No entanto, a maior revolta foi a agressão física que a fez desmaiar na água: enquanto jogava o spray, ele a chutou no rosto. Lembrem- se que ela estava no nível mais baixo (na água) e ele no terraço do Senado. Sim, a polícia provocou e começou as agressões”, contou.


A partir daí sim, como relata Mauriene, começou a ação de represália dos manifestantes e a Polícia foi com tudo para cima. Sem identificação, os policiais já estavam preparados para cometer atos pelos quais não iriam se responsabilizar. “Aí tudo virou um caos. Um grupo virou um carro branco, acendeu o fogo e em seguida o empurrou em direção aos policiais, numa espécie de barricada para tentar resgatar a moça. Outras pessoas foram de mãos levantadas para cima para tentar negociar a retirada da garota, mas também levaram spray de pimenta. Nesse momento, as bombas de gás lacrimogêneo começaram a cair por todos os lados. Uma caiu na nossa frente, saímos de lá com aquela sensação de queimor insuportável, mas, ao mesmo tempo, já estávamos com pequenas quantidades de vinagre (já que este e o leite de magnésio são eficazes para barrar os sintomas que o gás causa). Todas essas recomendações recebemos e propagamos na viagem, bem como as estratégias de rota de fuga (com uma montagem de um mapa do plano piloto) em caso de embate com a polícia, dispersamento ou desencontro”.

A estimativa da Polícia Legislativa é de que haviam cerca de 12 mil manifestantes no dia do ato. Entretanto, organizadores do ato afirmavam ter mais. A professora estimou que houvessem aproximadamente 50 mil pessoas. Além disso, segundo Mauriene, muitas dessas pessoas participavam pela primeira vez de uma manifestação, ou nunca tinha presenciado um movimento dessas proporções. “Minha impressão é que 85% dos que estavam ali eram estudantes universitários e secundaristas. Tinha professores e alguns outros segmentos da sociedade, aquela coisa toda. Ninguém sabia de nada, não sabiam como agir (diante da repressão policial)”.


Os jornais relataram que a Polícia atirou bombas para dispersar, mas também afirmaram que as polícias Militar e Legislativa avançaram para cima de toda a manifestação. Diferente de outras manifestações que as represálias policias aconteciam em alguns pontos. Diante do avanço da Polícia, Mauriene destacou a presença dos Black Blocks na manifestação. “Nossa janela de fuga (sim, porque 95% das pessoas que lá estavam não foram preparadas para uma guerrilha urbana) foi proporcionada pelos Blacks BLOCKs. Eles retardaram o avanço da polícia e criaram, junto com alguns militantes mais experientes, barricadas para conter o avanço policial. Eles também apanharam muito. Carros foram queimados para distrair a atenção dos agressores, painéis e alguns prédios de ministérios foram quebrados na tentativa de diminuir as agressões e salvar as pessoas feridas”.
Mauriene contou para a NORDESTE que não sabia que o grupo Black Block estaria lá. E nem mesmo notou a presença deles até que a ação começou. Segundo ela, eles têm uma presença intimidadora, mas a professora também admitiu que foi fundamental que eles aparecessem, caso contrário o cenário poderia ter sido bem pior para os civis.

 

Violência, gás e spray de pimenta

 

ntrou em ação a Cavalaria da Polícia. Esse foi o momento mais aterrorizante, segundo Mauriene. Existia um medo real de que as pessoas fossem mortas debaixo das patas dos cavalos. “O pânico tomou conta. As pessoas corriam enlouquecidas com medo de serem pisoteadas pelos cavalos. E o confronto seguiu nesse terror. Estávamos assustados demais para reagir e, em nosso grupo, a prioridade era proteger os alunos já que a maioria deles nunca tinham presenciado embates tão duros. Hoje percebo que o país inteiro não tinha vivido tão recentemente tamanha truculência. Pude perceber que existia prazer em alguns policiais em agredir as pessoas, outros, nos indicavam com um olhar uma rota de fuga”, contou.


Enquanto os deputados e senadores, sentados no conforto de suas cadeiras, decidiam o futuro do país, estudantes do país inteiro temiam pela própria vida fugindo de bombas e cavalos. O grupo da professora Mauriene conseguiu se salvar, mas os últimos tiveram que ser resgatados. “Boa parte do grupo conseguiu ir para o ônibus, mas ainda tínhamos que pegar os outros no nosso ponto de fuga. Criou-se assim uma espécie de equipe de resgate. Nesse momento trocamos de blusas, tiramos broches/adesivos e jogamos as bandeiras fora. O mais importante era restabelecer em segurança o grupo. E as bombas continuavam a cair. Um dos aspectos que a bomba causa é o impacto psicológico: elas têm um som ensurdecedor e treme o chão quando toca o solo”.
A professora contou que uma de suas alunas ficou desacordada sob o efeito das bombas. Ela acabou sendo encontrada por uma enfermeira que a socorreu até o hospital da UNB. “Para esta pessoa os meus mais sinceros agradecimentos. Não são todos que se dispõem a salvar a vida do outro, colocando a sua própria vida em jogo. Não podemos esquecer da equipe médica que a atendeu. Não tenham dúvidas de que foi um belíssimo trabalho, já que nossa aluna possuía uma fragilidade pulmonar que complicou os sintomas do gás em seu corpo”.


Através da aluna, Mauriene soube um pouco do cenário que era dentro do hospital. “Ao acordar, nossa aluna conseguiu passar as informações para o pessoal do hospital, que entraram em contato com familiares e professores de sua unidade de ensino que, por sua vez, entraram em contato conosco. Ela nos relatou que o hospital estava cheio e que, em sua maioria, mulheres eram as principais vítimas, sobretudo as que estavam com os seios desnudos. Impossível não fazer uma leitura sociológica desse fenômeno. Ela também nos relatou um caso de uma criança de (aparentes) 10 anos. Ela e sua mãe estavam muito machucadas: a mãe com marcas roxas pelo corpo causadas pelos cassetetes, a criança com 15 pontos na boca em direção às maçãs do rosto. A mãe foi buscá-la na escola vestindo uma camisa do "Fora Temer" e, por azar, estava no olho do furacão. A mãe foi agredida pelo policial que, não satisfeito com o espancamento, partiu para agredir a criança”.


Às 9 da noite a professora finalmente pode ficar tranquila com todos os alunos de volta no ônibus e prontos para voltar para casa.

A rebeldia da juventude inquieta

Ainda muito comovida com tudo o que viveu, Mauriene relatou o choque que foi ver o que aconteceu ali. “Foi uma experiência muito controversa, porque ao passo que foi muito construtivo e muito especial, também foi uma expêriencia muito aterrorizante, porque a gente não esperava encontrar aquilo. A gente é acostumado com protesto aqui na Paraíba, com protestos pacíficos, teve uma única vez que teve uma ação mais agressiva da Polícia em Campina Grande, mas não conhecíamos aquela praça de guerra. Imaginávamos que haveria represália, aquela coisa toda, mas não achávamos que era daquele jeito. De fato, foi o Estado contra a sociedade. Eu digo isso com a clareza de quem estava lá e que viu. Quem iniciou o confronto não foram os manifestantes! Foi a própria Polícia! A polícia não estava identificada! Sabe o que é os policiais não estarem identificados? É complicado dizer isso, é assustador. Você pensa: você trabalha, paga seus impostos, no meu caso, minha formação foi praticamente bancada pelo Estado. Eu fiz universidade pública, eu tive bolsa de iniciação científica, que é um projeto de iniciativa pública, fiz mestrado em uma universidade pública, tive bolsa de mestrado também em consequência disso, fiz o doutorado em uma instituição pública. Ou seja, eu tive formação pública e a minha concepção do que é público era essa, o Estado que me ajudou a crescer na vida. Quando eu cheguei em Brasília, o Estado queria me matar! O Estado queria me machucar! A todos que estavam lá. A sensação que fica de resistência é ao mesmo tempo de choque de ver que o Estado não está para a sociedade. O Estado, que hoje está posto está para defender os interesses das pessoas que estão lá, que deveriam nos representar, mas não nos representam. Eles defendem interesses privados”. Em seu relato a professora encerra com as seguintes palavras: “A PEC passou e irá passar. Mas o sentimento de que fiz (fizemos) tudo que estava ao meu (nosso) alcance me conforta, mas não me resigna. Saio mais convicta da necessidade da luta”.


Vale ressaltar, a PEC 55 foi aprovada pelo Senado em segundo turno no dia 13/12 e deverá ser sancionada por Michel Temer.
 


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