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Brasil

17/04/2017


Revista NORDESTE: Um “porto seguro“ em construção

Lucena, cidade litorânea da Paraíba, receberá porto de reparo de grandes navios, se tornando o único no Atlântico Sul; obra terá investimento de R$ 2,8 bilhões e trará 6,5 mil vagas de trabalho diretos e indiretos

Por Jhonattan Rodrigues

A empresa norte-americana McQuilling Services irá construir em Lucena o primeiro estaleiro de reparos de navios de médio e grande porte do Atlântico Sul. A previsão é que as obras se iniciem já no final de julho deste ano e perdurem por pelo menos quatro anos para estar em pleno funcionamento, mas é provável que em 2019 já comece a operar como hydrolift (sistema de docagem de navios). Ao fim das obras, o estaleiro contará, além do hydrolift, com dois diques secos. O porto se chamará Empresa Docagens Pedra do Ingá (EDPI), em homenagem ao monumento arqueológico localizado na cidade de Ingá. O escritório que cuidará do negócio já está instalado em Lucena.
No Atlântico Sul existem apenas dois estaleiros para reparos: um no Uruguai e outro no Rio de Janeiro, mas ambos para embarcações de pequeno porte. Para médios e grandes navios, nenhum. Isso despertou o interesse da empresa americana, que desde 2010 vem estudando construir o porto. O crescimento dos negócios marítimos transatlânticos consequentemente aumentou o porte dos navios que chegam a 500 e 600 metros de comprimento, carregando de 4 a 6 mil contêineres.
Igual a qualquer outro veículo, navios precisam de manutenção e reparos. “Os navios, por lei internacional, não podem trafegar sem ter seguro, e a companhia de seguros, para se proteger, só faz o seguro da empresa se ela periodicamente parar num estaleiro de reparos de navios”, explica Roberto Braga, da RB Consultores e Associados Limitada. Os reparos são feitos em média em cinco anos para navios novos e em 3 para os mais antigos. No país existem diversas construtoras de navios, mas não estaleiros para reparos. A construção deste posto no país será uma revolução no mercado, pois será o primeiro. “As empresas saem com os seus navios daqui e, quando estão perto de vencer o prazo, vão para Singapura, China ou Portugal. Há nos Estados Unidos também, mas dedicado a navios de turismo, que são diferentes, pelo acabamento”, explica o consultor. De acordo como Braga, a economia dos cargueiros será em torno US$ 450 mil a US$ 500 mil, com os reparos sendo feitos aqui, em vez de terem de ir à Singapura ou China.

Grandes mudanças


Será uma mudança ainda maior no cenário local da pequena Lucena, de 12 mil habitantes. O investimento será em torno de R$ 2,8 bilhões e irá criar cerca de 6,5 mil vagas de trabalho diretos e indiretos. A empresa norte americana resolveu construir o estaleiro na Paraíba após falta de interesse do governo pernambucano. Em audiência com o governador paraibano Ricardo Coutinho (PSB), o negócio foi fechado e a McQuilling Services iniciou a busca pelo local de construção. Através da Promom Engenharia Ltda., de Portugal, parceira da McQuilling Services e que já havia trabalhado em Santa Rita na instalação de um sistema de energia termelétrica, a empresa estadunidense ficou sabendo que a área de Lucena seria perfeita para o empreendimento, uma vez que a cidade tem precedentes em receber navios durante a época da pescas de baleias.
O investimento no estaleiro estará todo a cargo da empresa norte americana. Os gastos por parte dos governos municipal e estadual serão feitos nas melhorias locais necessárias para abarcar mudanças que serão feitas, como estradas de acesso para caminhões, poços de água e tratamento de esgoto, além de repensar o projeto urbano da cidade que começará a receber empresas atraídas pelos negócios marítimos, e portanto mais moradias e estabelecimentos. O consultor revelou que a prefeitura arrecadou no ano passado cerca de R$ 1,4 milhão de ISS (Imposto Sobre Serviços). Com a atividade do estaleiro, essa quantia irá decuplicar para R$ 14 milhões. “85% do faturamento internacional (da empresa) e os outros 15% locais, tudo isso faturamento em dólar.”

Além dos barcos, empregos

Para dar conta de toda mão de obra será necessário a capacitação de profissionais, e isto será feito em uma parceria entre a Federação das Indústrias da Paraíba (Fiep), Sebrae da Paraíba e a Promom Engenharia. A empresa vai se instalar na Paraíba por um período de um ano para iniciar o processo de treinamento dos brasileiros. O estaleiro será instalado em área de 83 mil metros quadrados de galpões e oficina e já é estimado a vinda de pelo menos 16 empresas que irão dar suporte para o investimento, como segurança, engenharia e eletricidade. “São seguranças do estaleiro e da área, seguranças patrimonial, funcionários para restaurantes para alimentar todas essas pessoas, comércio, área de treinamento, centro médico, que inclusive vai ser aberto para a própria população, andaimes, por exemplo”, detalhou o consultor. O investimento de R$ 2,15 bilhões foi aprovado em dezembro do ano passado pelo Fundo da Marinha Mercante (FMM). O fundo tem natureza contábil destinado a prover recursos para o desenvolvimento da Marinha Mercante e da indústria de construção e reparação naval brasileiras. O FMM é administrado pelo Ministério dos Transportes, por intermédio do Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante (CDFMM), tendo como agentes financeiros o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e os demais bancos oficiais brasileiros. “É um fundo dirigido a construção de portos, navios, estaleiros obtidos dos impostos sobre fretes marítimos que constituem fundo para que a área se desenvolva no país. No mundo inteiro é assim”, explica Braga. Segundo o consultor, o EDPI “foi aprovado por unanimidade, publicado no Diário Oficial da União, ou seja, o investidor que chegar agora para assumir tudo isso já tem o dinheiro garantido para fazer.” 

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