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Brasil

13/03/2017


Revista NORDESTE: UNE – 80 anos de resistência

UNE realiza a 10ª edição de sua Bienal em Fortaleza e comemora 80 anos reunindo engajamento e cultura em evento que contou com debates com líderes da esquerda, atividades culturais e shows

Por Jhonattan RODRIGUES

Completando 80 anos em 2017, a União Nacional do Estudantes (UNE), continua firme na luta pelos direitos do movimento estudantil brasileiro. Além disso, nessas oito décadas, abraçou as lutas de outros movimentos sociais e hoje reflete a realidade do movimento negro, feminista, LGBTT e movimentos de melhorias urbanas. Teve parte também na luta pela democracia ao longo do século passado e neste, sendo uma das figuras principais dos movimentos de Diretas Já, dos Caras Pintadas e nas jornadas de junho 2013. Como não poderia deixar de ser, a luta pela democracia se torna mais intensa devido ao momento de política conturbada pela qual o Brasil passa.

Comemorando o octogésimo aniversário a UNE realizou também a 10ª edição de sua Bienal. O evento deste ano foi realizado em Fortaleza, no Centro Cultural Dragão do Mar, e reuniu debates, oficinas, estandes, exibições e shows, congregando estudantes de todo o Brasil. A Bienal da UNE é realizada desde 1999 e hoje é considerada o maior evento estudantil da américa latina. É um momento de confluência para estudantes de todo o país discutirem política, sociedade e cultura, um momento de apresentar e descobrir ideias. E também demonstrar resistência. “A Bienal da UNE foi o primeiro grande fórum social brasileiro depois do impeachment. Eu acho que serviu para a gente organizar os próximos passos e dar resistência democrática ao gente vem travando”, conta Ivo Braga, tesoureiro da UNE e um dos organizadores do evento deste ano.

Feira da Reinvenção do Brasil

O tema dessa edição foi Feira da Reinvenção, ressaltando a importância das feiras livres no país como ágoras modernas, um espaço de manifestação cultural e convergência de ideias. “A gente tem muito da cultura popular circulando nas feiras livres no interior e nas capitais, onde vêm os cantadores, os repentistas e uma série de expressões populares. O próprio surgimento das cidades tem a ver com as feiras com o comércio. Então a gente tentou fazer uma síntese dessa questão urbana e cultural, tentando trazer um toque de novidade, reflexão, renovação, por isso a ‘reinvenção’. Foi um espaço onde a gente pudesse refletir, tanto do ponto de vista político do movimento estudantil, mas também do ponto de vista cultural, novas formas de interagir se adaptando às novas tecnologias, etc”, pontuou Braga.

Ao longo dos 4 dias do evento, de 29 de janeiro a 01 de fevereiro, os estudantes que por lá passaram tiveram oportunidade de participar de encontros, atividades autogestionadas, debates e shows. Ao todo 150 trabalhos de estudantes foram apresentados e eles tiveram a oportunidade de trocar ideias com pessoas de todo país. A estimativa de público nos quatro dias foi de 64 mil pessoas.

Os debates contaram com presenças de representações políticas importantes do cenário nacional discutindo a situação conturbada pela qual o país passa e as melhores formas de sair dela. “O que teve mais público, o mais concorrido foi a mesa que aconteceu logo no primeiro dia, no domingo, dia 29, que foi uma mesa que buscava soluções para a crise econômica e política. Foi a mesa que participou o Ciro Gomes, a Luciana Genro, a senadora Vanessa Grazziotin e o Wellington Dias, governador do Piauí. Essa mesa mobilizou mais de mil jovens no espaço da Praça Verde. Foi transmitido ao vivo, teve mais de 20 mil pessoas acompanhando online e foi a palestra que teve mais repercussão”, relata Ivo. Na terça, ele conta, a mesa que teve participação do ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), também foi bastante movimentada.

Também faz parte da programação de toda bienal visitas a comunidades próximas, atividade chamada LocalC. Nesta edição, três grupos de estudantes foram a 10 comunidades de Fortaleza, todas que contavam com programas socioculturais. “A gente procura encontrar projetos culturais que existam naquelas comunidades para que tanto as pessoas que são atendidas naquele projeto tenham contato com pessoas do Brasil inteiro, quanto os estudantes que vêm de fora possam reconhecer a realidade local”, explica Ivo.

Dragão do Mar virou capital da cultura estudantil

Os shows também tiveram grande mobilização. Todos gratuitos, foram bastante convidativos para a população cearense: um tributo a Belchior, interpretado por cantoras locais (Nayara Costa, Lídia Maria, Mulher Barbada e Lorena Nunes), Gaby Amarantos, Guetto Roots e Preta Rara e Emicida. “O show do Emicida mobilizou toda uma parcela da população daqui de Fortaleza, da periferia, que teve a oportunidade de assistir um show aberto, na praça, de graça, e foi bastante bacana ver a população de Fortaleza interagindo com a gente durante a Bienal”, conta Ivo. “A gente conseguiu utilizar todas as estruturas do Dragão do Mar, desde os museus, os auditórios, os teatros, as salas de cinema […] até nos shows a gente usou a praça Almirante Saldanha que fica em frente, praticamente dentro do centro cultural. Foi bem bacana porque conseguimos fazer as atividades da Bienal de forma bem concentrada. A gente conseguiu transformar o Dragão do Mar na capital da cultura estudantil brasileira.”

Cultura e mobilização política

Ao fim de toda edição da Bienal é realizada a chamada “culturata”, uma passeata cultural para mostrar a resistência e a movimentação de rua, características da UNE. A culturata serve como um fechamento para as bienais, juntando estudantes e toda sociedade para demonstrar que cultura e engajamento andam juntos. “A passeata no final da Bienal, a culturata, teve como tema essa questão da ocupação dos espaços públicos, mas também denunciava os cortes de investimento em educação, em programas sociais, falava da defesa da universidade pública, denunciava a reforma da previdência, trabalhista e do ensino médio […] Mesmo no período de férias, mais de 5 mil estudantes do Brasil inteiro saíram em passeata para reivindicar suas opiniões, suas posições. Eu acho que tem esse duplo papel: organizativo, mas também de pressão política. A gente sai fortalecido de mais uma edição da Bienal. Próximo da Une completar 80 anos, mostra quão jovem e pulsante ainda é o movimento estudantil e fica mais essa página na história da Une para que a gente possa seguir lutando que é a tradição da União Nacional de Estudantes.”
 

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