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Brasil

20/06/2016


Roberto Requião: “Já temos número para derrubar impeachment”

Entrevista exclusiva

Por Paulo Dantas

O senador Roberto Requião (PMDB-PR) foi governador do Paraná por três mandatos e senador por dois, atualmente está no segundo mandato. Nos últimos meses o governador tem se mostrado um forte crítico do rompimento do PMDB com o governo da presidenta Dilma Rousseff (PT) e da consequente ascensão de Michel Temer ao Palácio do Planalto. Para Requião o PMDB contribuiu e ao mesmo tempo traiu o governo petista. Na entrevista que segue, o peemedebista volta a criticar o próprio partido e a política que é feita hoje no país. O senador lembra o termo lumpen-burguesia, para designar os atuais políticos.

O termo tem antecedentes em Karl Marx, quando descrevia a monarquia da França (1830-1848) como um sistema sob a dominação da aristocracia financeira, mostrando que “nas cúpulas da sociedade burguesa se propagou a inconsequência em nome da satisfação dos apetites mais insanos e desordenados. Uma inconsequência que vai buscar sua satisfação na riqueza procedente do jogo, o prazer dos que se tornam conscientemente crápulas, em esquemas onde o dinheiro o sangue fluem e confluem”. Requião ainda sinaliza qual será o fim do processo de impeachment no Senado e afirma que o melhor para o país seria Dilma voltar ao Planalto e serem convocadas eleições antecipadas.

Revista NORDESTE: Como o senhor tem visto hoje a política brasileira?
Roberto Requião
: Pois é. Quando a gente pensa que chegamos ao fundo do poço e que ultrapassamos o fim da picada, eis que as nossas gloriosas classes dominantes nos surpreendem com novos feitos. As assim chamadas “elites”, essa lumpen-burguesia atrasada, servil, mesquinha e tacanha, com uma longuíssima tradição escravocrata não admite que os trabalhadores, que as classes populares e que o país rompam o círculo da pobreza e da submissão. Examinem a nossa história e comprovem: é sempre a mesma coisa, repetidamente, monotonamente a mesma coisa. Quando se imagina que vamos quebrar as cadeias que nos escravizam e nos mantém presos no subdesenvolvimento, vem lá um golpe, seja a forma que toma, mas sempre um golpe. E a política brasileira é a expressão disso.

NORDESTE: O senhor tem se mostrado inquieto em relação ao momento atual do Brasil. O que motiva essa inquietação?
Requião
: Inquieto-me pelo que disse antes. Basta que avancemos um mínimo, um centímetro para que venha uma paulada nos trabalhadores e nas classes populares, nos homens e mulheres da cidade e do campo. Mas por que isso acontece? Acontece porque esse mínimo que avançamos na política social, na extensão dos direitos trabalhistas e previdenciários, nas políticas compensatórias não são acompanhados de mudanças estruturais na política econômica. É inegável que os governos petistas tiveram o mérito de apresentar para dezenas de milhões de brasileiros o mundo maravilhoso das três, quatro refeições diárias, da casa própria, do emprego, do acesso à universidade, do médico da família, do dentista, do remédio de graça. É inegável. No entanto, por outro lado, tentou uma conciliação impossível com o capital financeiro, com a banca, com os rentistas, com os interesses geopolíticos das grandes potências ocidentais, com a ganância imperial. E isso é tão antigo quanto o Brasil, mas parece que nunca aprendemos. Achamos que é possível domar o touro à unha, que podemos trapaceá-lo, enganá-lo, distraí-lo. Não é bem assim… Mesmo que os ganhos do povo sejam ganhos que mal cocem a casca dura dos proveitos e privilégios dos dominantes, esses, à primeira ameaça de perdas, jogam todo o peso da responsabilidade sobre o lombo dos assalariados. E eis aí, mais uma vez, as tais políticas de austeridade que conservam intactos os interesses do mercado, dos rentistas, da nossa gananciosa lumpen-burguesia e apresentam a conta para os trabalhadores. Em alguns estados brasileiros, do Norte e do Nordeste, segundo o IBGE, a idade média pouco ultrapassa os 65 anos. E o Meirelles, e o Goldfajn, o Serra, o PSDB, o DEM e esse condomínio maravilhoso de 35 partidos e as 594 correntes em que se dividem e subdividem, eles querem que o trabalhador se aposente aos 65 anos. Aposenta e morre, essa é a Previdência ideal para eles.

NORDESTE: Alguns estudiosos e políticos têm apontado uma crise de representação no atual Congresso Nacional e chegam a afirmar que a Câmara dos Deputados é a mais retrógrada das últimas décadas. O senhor concorda com essas afirmações? Por quê?
Requião:
Contam que quando alguém reclamava a Ulysses Guimarães sobre a qualidade da Câmara dos Deputados, ele dizia: “ Espere só para ver a próxima legislatura e depois dela a próxima, e a próxima…”. Desgraçadamente é a verdade. O que esperar de um Congresso cujos eleitos são financiados por grupos de interesses? O financiamento empresarial aos candidatos e aos partidos acaba produzindo um Legislativo com patrões, com donos de mandatos, com puxadores de cabrestos. Os parlamentares pouco se lixam para os interesses nacionais e populares. Eles aprovam a venda de nosso pré-sal como quem se desfaz de um carro velho, de uma quinquilharia. Eles aprovam medidas de austeridade, que vão lanhar ainda mais o lombo dos trabalhadores como quem aprova voto de congratulação pelo aniversário do município que representa. Desideologizado, com poucos partidos programáticos, dividido por mais de trinta siglas desprovidas de princípios, respondendo mais aos financiadores que aos eleitores, o que esperar do Partlamento?

NORDESTE: O senhor é a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff? Por quê?
Requião
: Absolutamente, radicalmente contra. Ela não cometeu crimes. Dilma errou e errou muito. Sua política econômica, especialmente neste segundo mandato, foi um horror. Às “levyandades”, seguiram-se as “barbosidades”, que não se diferem das “meirelladas”. No entanto, não cometeu crimes. Veja você, quem é o relator da Comissão do Impeachment no Senado? O ex-governador Antônio Anastasia, do PSDB, que fez em Minas Gerais exatamente aquilo de que acusa Dilma. É muito cinismo! Se os governadores, a maioria deles, fossem julgados com os mesmos critérios com que julgam Dilma, não restaria um sequer no cargo! E isso é feito às escâncaras, na frente de todos, para o Brasil e o mundo verem, e eles ão sentem qualquer constrangimento. O partido mais forte que existe neste país, a mídia monopolista, encarrega-se de domar e dominar a opinião pública. Na verdade, argumentar que Dilma não cometeu crime de responsabilidade por causa das tais pedaladas é perda de tempo. Isso não interessou à Câmara e não interessa ao Senado. Trata-se de mero pretexto. Os verdadeiros motivos do impeachment são o pré-sal, o nióbio, as privatizações da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, o fim do Mercosul e dos Brics, a ressurreição da ALCA, a manutenção de uma política econômica excludente e entreguista. Serra no Itamaraty é a volta da diplomacia sem sapatos, sem brio, sem autoestima. Vejam vocês as ironias da história. Quando houve o outro golpe, o golpe de 1964, Serra era presidente da UNE, refugiou-se no Chile e foi a vários países para denunciar o golpe, enquanto os militares mandavam o Carlos Lacerda para a Europa, a fim de dizer que o golpe não era golpe. Hoje, o Serra refaz o roteiro do Lacerda para explicar ao mundo que o golpe do impeachment não é golpe. Uma das razões para o outro golpe, o de 64, foi a encampação de refinarias de petróleo, entre elas a de Manguinhos, assinada por João Goulart no famoso comício de 13 de março, na Central do Brasil. Quem estava ao lado de Goulart no palanque? O José Serra, o mesmo Serra que hoje quer a venda de todas as refinarias da Petrobras. Para fazer isso, parta entregar tudo à Chevron e à Shell, como o prometido, é preciso afastar a Dilma. As pedaladas são um pobre e ridículo pretexto.

NORDESTE: O deputado Eduardo Cunha foi um dos algozes do governo de Dilma e agora Michel Temer está no Palácio do Planalto. Afinal, o PMDB fez parte do governo ou ajudou a derrubá-lo? Houve traição?
Requião:
As duas coisas, fez parte quando conveniente e ajudou a derrubá-lo quando conveniente. O PMDB é isso, o partido das conveniências. Por favor, bem entendido, não estou falando de lojas de conveniências, dessas que vendem tudo e mais um pouco…

NORDESTE: O senhor considera que os recentes áudios feitos por Sérgio Machado com Romero Jucá e Renan Calheiros confirmam a tese do PT e de alguns movimentos sociais que apontam a existência de um golpe? Por quê?
Requião:
Desculpem, mas vocês acham, há ainda algum resquício de dúvida de que se trata de um golpe? Ora, se não há crime de responsabilidade, e isso está fartamente provado, o afastamento da presidente pode ser classificado como o quê? Não se trata de tese deste ou daquele partido, deste ou daquele movimento social. Trata-se da realidade, a mais cristalina, límpida e insofismável realidade. E isso fica transparente até mesmo quando os que pretextam crime de responsabilidade abrem a boca. Eles não conseguem disfarçar a fraude.

NORDESTE: Atualmente, existe um racha no PMDB? Por quê?
Requião
: Bom, a novidade seria se o PMDB estivesse unido. O PMDB nasceu rachado. O PMDB é uma federação de opiniões e propostas, é uma frente. Sempre foi assim, desde sua fundação, quando reuniu todas as correntes que se opunham à ditadura. Não acho isso ruim. No PMDB você tem o espelho da sociedade brasileira, seus encontros e desencontros, suas contradições, suas virtudes e suas misérias.

NORDESTE: O PMDB passou por várias mudanças desde a época da ditadura e do MDB. Hoje, muitos veem no partido apenas o fisiologismo e um partido sempre pronto a estar próximo a quem está no poder. Qual a sua visão do partido?
Requião
: É inegável que parte do PMDB orbita em torno do poder como o inseto é atraído pela luz. É uma sedução, um fascínio, um encantamento irresistível. Sua ala mais conservadora, fortemente fisiológica, de fato está sempre pronta para amancebar-se com quem está no poder. O Jucá está sempre alerta, vigilante para ser o líder do governo no Senado, qual seja o presidente. Minha visão do partido explicitei anteriormente: não somos um partido, somos uma federação de correntes de opinião, uma diversidade de ideias e de comportamentos.

NORDESTE: O senhor afirmou recentemente que não reconhecia mais o partido em qual tinha entrado, por quê? Pretende sair do partido?
Requião
: Porque, lá atrás, quando entrei no PMDB – sou o primeiro filiado do partido no Paraná- apesar das divergências internas, tínhamos uma definição clara quanto a alguns princípios. O PMDB se definia como um partido afastado dos interesses do grande capital, como um partido das classes populares, dos intelectuais, dos pensadores e dos trabalhadores. Um partido nacionalista, democrático e popular. Falávamos em reforma urbana, reforma agrária, reforma política, reforma econômica, reforma educacional, reforma da saúde. Enfim, um partido apontando para o avanço da sociedade brasileira, para o desenvolvimento, para um país mais justo, mais igual, fraterno e solidário. Essa era a nossa utopia. Foi neste partido que entrei, o PMDB do magnífico e atualíssimo documento intitulado “Mudança e Esperança”, de 1982. E os atuais dirigentes do PMDB querem substituir o mais completo programa que um partido apresentou ao país pela mediocridade de uma tal “Ponte para o Futuro”. Meu Deus, eu nunca li nada tão pobre, tão fronteiriço, tão grosseiro e tacanho quanto esse texto da Fundação Ulysses Guimarães. Aliás, quem redigiu a “Ponte”? Ninguém sabe ao certo. Agora, quem redigiu “Mudança e Esperança” o Brasil todo conhece e respeita.

NORDESTE: A comissão do impeachment tem um presidente do PMDB, Raimundo Lira, e o relator do PSDB, Antônio Anastasia. O senhor acredita na lisura do processo nesta Comissão?
Requião:
Você já leu “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol? Lembra-se da Rainha de Copas, que primeiro dava a sentença, mandando cortar a cabeça do acusado, só para depois julgá-lo? A Comissão do Impeachment é isso.

NORDESTE: O que podemos esperar do processo de impeachment no Senado?
Requião:
Na Comissão, a condenação. No plenário, a rejeição do impeachment. Já temos votos suficientes para isso. Estamos discutindo agora o processo de transição. Queremos, e a presidente Dilma concorda, a convocação de um plebiscito, para que o povo decida se quer ou não antecipar as eleições presidenciais. Nada de “Volta Querida” ou “Fora Temer”. A soberania popular deve prevalecer.

NORDESTE: Na sua visão, qual seria a melhor opção para o país ultrapassar a atual crise política e econômica?
Roberto Requião:
O estabelecimento de um governo de transição, presidido por Dilma e composto pelas forças que se opuseram ao impeachment. Esse governo comandaria o país desde o enterro do processo de afastamento da presidente até a posse do novo presidente ou da nova presidenta, caso o povo decida por novas eleições. O governo de transição se ocuparia do que segue:
A. Determinar a redução das taxas de juros a patamares que garantam a retomada dos investimentos, novos negócios e a consequente geração de empregos.
B. Fazer do Banco Central uma alavanca do desenvolvimento brasileiro, preocupando-se não apenas com a inflação e sim, também, estabelecendo metas para o emprego, a utilização da capacidade produtiva do país e o volume de crédito ofertado à economia real.
C. Colocar imediatamente em movimento um amplo e revolucionário plano de novas obras de infraestrutura e de recuperação de obras, nas áreas rodoviária, ferroviária, de saneamento e de suporte à expansão das comunicações.
D. Manter como espinha dorsal as iniciativas de desenvolvimento do país, de criação de novos empregos, de elevação da qualidade de vida dos brasileiros, de aumento dos salários e da renda. E garantir, sobremaneira, os investimentos em saúde, educação, saneamento, habitação e segurança.
E. Manter uma taxa cambial favorável às exportações.
F. Adotar uma política econômica anticíclica, pela qual, diante da depressão e do alto desemprego, se admita déficit público temporário que logo será reduzido ou eliminado em função do aumento da receita pública e do PIB, com consequente estabilização da dívida pública.
Em síntese, essas seriam as tarefas de um governo de transição, preparando o país para o novo presidente ou nova presidenta. Como se vê, é um programa antítese do programa da dupla Meirelles-Goldfajn. Um programa na contramão daquele horror chamado “Ponte para o Futuro”. Um programa para, finalmente, libertar o Brasil dos rentistas, dos dependentistas, dos colonizados, dessa lumpen-burguesia que não quer produzir, quer viver de rendas e prebendas. Chega de um Brasil para os outros. Queremos um país para os nossos.

NORDESTE: Quais os seus planos para o futuro? O senhor pensa em se candidatar nas próximas eleições ao governo do Paraná?
Requião:
Como diria aquele famoso ministro, o futuro a Deus pertence. De uma coisa eu sei: jamais vou desistir do Brasil. 

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