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Bahia

23/07/2015


Sem Centro de Convenções, Bahia perde ritmo no mercado de eventos

Neste mês de julho completam-se sete anos que o Ministério do Turismo colocou à disposição da Secretaria do Turismo da Bahia (Setur) R$ 5,85 milhões para a climatização do Centro de Convenções (CCB). Os recursos continuam disponíveis, diz o ministério, dependendo apenas da regularização de documentos, o que incluiu durante muito tempo a escritura do local, que desapareceu por um tempo, de acordo com informações de bastidores.

O tempo passou e nem o sistema de ar-condicionado foi implantado, nem se investiu adequadamente na manutenção do local – o que causou a perda de dez eventos que juntos movimentariam em torno de R$ 100 milhões entre 2015 e 2017.

Agora, após os problemas se agravarem, a Setur, responsável pela manutenção do Centro de Convenções, informa que reapresentou o projeto de climatização, com valor atualizado de R$ 9,3 milhões, no último dia 13. Outros R$ 5 milhões estão previstos para obras emergenciais de recuperação da estrutura do local.

E por que demorou tanto para tocar o projeto? A Setur foge da resposta, afirma apenas que a atual gestão assumiu, viu que tinha os recursos assegurados e apresentou um novo projeto. O problema é que o que devia ter sido feito lá atrás, e não foi, traz prejuízos no presente e compromete o futuro próximo.

Enquanto o mercado brasileiro de eventos cresce a uma média de 14% ao ano, na Bahia a atividade está comprometida, muito por conta dos problemas no CCB, que está interditado por questões de segurança. Detalhe é que há apenas dez anos, o espaço hoje defasado era vencedor do Prêmio Caio 2005, considerado um Oscar do setor de eventos.

Nos últimos anos, o mercado de congressos, feiras e convenções tornou-se uma atividade importante no âmbito mundial por seu impacto econômico, comercial, técnico, científico e sociocultural, como destaca a pesquisa Impacto Econômico dos Eventos Internacionais Realizados no Brasil, da Fundação Getulio Vargas (FGV). Dados da Organização Mundial do Turismo indicam que a atividade pode movimentar mais de 50 segmentos, como transporte, hospedagem, lazer, alimentação, comércio e outros serviços especializados que os eventos demandam.

No curto prazo, há um impacto econômico com a arrecadação de impostos e a geração de empregos diretos. Dada a sua importância para a economia, a indústria de feiras e eventos foi reconhecida oficialmente pela Organização das Nações Unidas (ONU) e incluída como uma categoria econômica diferenciada.

Pesquisas realizadas pela Embratur indicam que o turista de negócios e eventos costuma gastar mais que o turista de lazer. O Dimensionamento Econômico da Indústria de Eventos do Brasil – 2013, publicado pela Associação Brasileira de Empresas de Eventos (Abeoc), aponta um gasto médio do turista de lazer de US$ 304 por dia, aproximadamente R$ 972, enquanto o que viaja a passeio costuma gastar, em média , US$ 73,77, o equivalente a R$ 236. O mercado de eventos movimenta aproximadamente por ano R$ 210 bilhões no Brasil e responde por 4,32% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

 

Na contramão

O problema é que, nos últimos anos, a Bahia caminha na contramão do movimento mundial. Enquanto capitais nordestinas, como Fortaleza (CE) e Recife (PE), receberam investimentos nas estruturas para eventos, o principal espaço disponível na capital baiana está se degradando. Segundo dados da Associação Internacional de Congressos e Convenções, cuja sigla em inglês é ICCA, a Bahia vem perdendo posições na captação de eventos internacionais desde 2011, quando tinha uma média anual de 17 eventos.

Em 2014, ano em que se realizou a Copa do Mundo, foram 14 eventos, mas, antes, em 2013, o estado recebeu apenas sete eventos internacionais. Inaugurado em 1979 como uma obra de vanguarda, o CCB ocupa uma área de 153 mil metros quadrados, sendo 57 mil metros quadrados de área construída, mas vem sendo tomado pela ferrugem e o desgaste do tempo. Nos últimos anos, tornaram-se comuns notícias de goteiras, equipamentos, como elevadores e escadas, quebrados, entre outras coisas, até o ápice do problema, quando um defeito em uma bomba d'água que abastecia os banheiros jogou na lama a imagem positiva que as principais entidades médicas brasileiras faziam do local, em novembro de 2013.

Ex-secretário de Turismo da Bahia e atual presidente da Salvador Destination, Paulo Gaudenzi não se conforma com o cenário atual em que o mercado de eventos da cidade está inserido. Para ele, atuar para modificar a “péssima imagem” que se passou do CCB é tão importante quanto a requalificação do espaço. “Esses eventos que deixaram de vir para Salvador e foram para outros locais representam uma perda palpável. Mas o grande prejuízo que estamos enfrentando é que muitas entidades passaram a desconsiderar Salvador como destino. Nós estamos enfrentando uma perda brutal desde novembro de 2013”, afirma.

Segundo ele, diversas entidades médicas deixaram de considerar o Centro de Convenções como um possível local para os seus congressos. “E é o maior espaço que nós dispomos na cidade para grandes eventos”, lamenta. Ele explica que há um esforço dos empresários do turismo para atrair eventos de pequeno e médio porte, com limite máximo de 2,5 mil pessoas, para espaços de convenções nos hotéis de Salvador e na Arena Fonte Nova. “Conseguimos captar nove eventos, dois para este ano e sete para o próximo, mas todos pequenos”, diz. O secretário de Turismo, Nelson Pelegrino, que assumiu o cargo no início deste ano, diz que vai trabalhar pela reabertura do CCB, mas deixa clara a insatisfação pelas condições atuais do espaço. “Eu acho que, de fato, não se poderia deixar o Centro chegar à condição que chegou, mas temos que pensar em termos de futuro”, diz. Segundo ele, o foco do governo é recuperar o espaço e mantê-lo funcionando até a construção de um novo espaço. O secretário diz que o CCB só será reaberto quando estiver em plenas condições.

Donaldson Gomes
Correio 24 horas

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