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Brasil

16/03/2016


Sindicalista vê alento em ida de Lula para ministério do governo Dilma

Compreende-se o esforço dos adversários do governo em tentar impedir, de todas as formas, pelos argumentos mais absurdos, o ingresso de Luiz Inácio Lula da Silva no ministério de Dilma Rousseff.

"Lula é um alento para os trabalhadores", afirma o metalúrgico João Carlos Juruna Gonçalves, secretário-geral da Força Sindical.

É fácil entender a relevância deste depoimento. Segunda maior central sindical do país, ao contrário da CUT, petista desde o nascimento, a Força não tem perfil partidário único. Reúne desde personagens aplicados diretamente na conspiração pelo impeachment, como o deputado Paulinho da Força, até lideranças que há mais de uma década cultivam uma relação próxima com os governos petistas, em especial com Lula. Sua postura está longe de um alinhamento automático com o Planalto, como se viu nas críticas às medidas de ajuste anunciada logo no início do segundo mandato de Dilma.

Como tantas lideranças, Juruna está convencido de que o ingresso de Lula, caso venha a ser acompanhado de medidas concretas, mesmo limitadas, na área econômica, pode mudar a visão da população sobre o governo, como disse ao 247:

— As conversas com nossas lideranças de fábrica mostram que o prestígio de Lula é real. A notícia de que ele poderia virar ministro provocou alegria e animação entre os trabalhadores.

— Como a base da Força se colocou diante dos protestos de domingo, que reuniram meio milhão de pessoas, em São Paulo?, pergunto.

— Pelo que pudemos saber, poucos trabalhadores compareceram, além do Paulinho e a turma dele, que quer o impeachment. A grande maioria ficou em casa. O povo está quieto.

— Por que?

— Para o trabalhador, a questão que realmente importa, neste momento, está no dia a dia e envolve a política econômica. Ela provoca raiva. A vida na fábrica está muito dura: estão diminuindo os turnos, diminuindo os salários. As demissões não param de subir. Quando você fala que o Lula pode ir para o governo, eles têm certeza de que essa situação pode mudar. Ele simboliza outra coisa. É um alento numa situação de poucas esperanças.

Outro elemento não pode ser desprezado. Estou falando dos talentos de Lula como comunicador, num governo que há muito se encontra sem voz para enfrentar o massacre permanente da mídia grande. Essa competência ficou clara em seu governo, quando Lula respondia às manchetes desfavoráveis com comentários pertinentes sobre o momento político e o ponto de vista oculto de seus adversários. Mesmo considerando que a crise de 2016 tem uma profundidade maior que a de 2005, cabe reconhecer que, agora, o governo tem um porta-voz natural, cuja qualificação não pode ser colocada em dúvida.

A importância política do Lula-ministro encontra-se aí. Em função das dores produzidas por aquela que pode se revelar a mais dura recessão em muitas décadas, não há magia política capaz de fazer aquela fatia da população que sofre o ajuste na própria pele a sair de casa para defender o governo que assina essas medidas. Mas é possível mudar essa atitude com o argumento de que há sinais de novidade à vista. Essa é a mensagem da nomeação de Lula, o que pode ter efeitos inclusive nesta sexta-feira, quando os adversários do impeachment voltam às ruas, numa demonstração de força que deve ser vista como resposta aos protestos de 13 de março.

 

A ideia de que a presença de Lula no ministério pode ajudar o governo Dilma a reconciliar-se com sua base social de origem foi sendo construída nas últimas semanas, em conversas políticas na presença de autoridades econômicas e lideranças do movimento popular. Na semana passada, durante uma reunião no hotel Pestana, em São Paulo, Lula chegou a dirigir-se em tom de forma clara agressivo para o ministro da Fazenda Nelson Barbosa. Depois de ouvir sucessivas referências ao mercado e seus caprichos, Lula atalhou: "mercado, para nós, é o povo," disse, apresentando a seguir um conjunto de sugestões que poderiam de estímulo ao consumo popular e a retomada do crescimento.

O debate sobre a possível presença de Lula no governo Dilma é mais antiga do que parece. As primeiras conversas surgiram logo depois que apareceram os primeiros sinais de que alguma coisa não funcionava bem no segundo mandato.

Mas a convicção, entre ministros de Dilma, que os males enfrentados eram passageiros e logo estariam resolvidos, impediu que se prestasse a devida atenção a possibilidade. Foi preciso aguardar que a crise estivesse num ponto bem mais grave, com a sobrevivência do governo em questão, para que o assunto voltasse a ordem do dia. Mesmo assim, a demora para o anuncio levou muitas pessoas a desconfiar que alguma coisa pudesse ter dado errado. "Lula só aceitou depois de uma conversa olho no olho com Dilma," avalia um parlamentar, convencido de que ele não aceitaria o convite se fosse para se transformar num simples enfeite num governo que sempre apoiou — mas nunca deixou de criticar em função do desempenho econômico.

Ao lhe entregar a Casa Civil, o ministério mais importante, Dilma deu a Lula todas as condições para participar das principais discussões em todas as áreas do governo, ponto de passagem de toda decisão tomada no Planalto.

Como toda decisão de natureza política, a posse de Lula no ministério não vem acompanhada de garantia de sucesso. É uma aposta e um jogo com inúmeras variáveis. Será preciso aguardar por resultados concretos, que dependerão de vários fatores, entre os quais um bom entrosamento com a presidente e os demais ministros não podem ser vistos como simples detalhe. Mas a simples possibilidade de que Dilma poderia obter um auxílio importante na etapa decisiva da luta contra o impeachment, foi suficiente para que os adversários do Planalto se mobilizassem para enfraquecer a decisão, acusando Lula de só estar em busca de um refúgio da Justiça. É um raciocínio que se apoia em dois pressupostos errados.

O primeiro, é que Lula já deve começar a ser punido por antecipação, em função de "acusações" tipo pedalinho e triplex que estão longe, muito longe, de terem sido demonstradas e muito menos provadas — como a juíza Maria Priscilla deixou claro em sua decisão sobre a denúncia do Ministério Público de São Paulo. O segundo erro é supor que, caso venha a ser investigado e ter acesso ao foro privilegiado, Lula terá alguma garantia de impunidade pelo simples fato de seu caso sair da jurisdição de Sérgio Moro. O erro dessa visão foi explicado com clareza por Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, ao lembrar que Moro "não é o único juiz honesto do Brasil."

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