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Brasil

04/01/2016


Sob forte crise, PT tenta voltar às origens em ano decisivo

“Ou o PT muda, ou acaba”. Foi com essas palavras que a senadora Marta Suplicy, uma das mais longevas e famosas figuras do partido, definiu a legenda há quase um ano, antes de deixá-la. Durante os 12 primeiros meses do seu quarto mandato presidencial consecutivo, o PT viu parte de sua imagem ser derretida pelo óleo da maior empresa brasileira, a Petrobras, e se encontra diante do desafio de promover mudanças, caso não queira sofrer com mais desfiliações e derrotas eleitorais.

A manutenção do PT no tabuleiro político está condicionada à sua capacidade de superar algumas contradições, evidenciadas ao longo deste ano. A mudança de rumos na política econômica, simbolizada pela convocação do economista ortodoxo Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, derrubou o apoio de alguns movimentos populares, que exigem um posicionamento mais à esquerda. Mesmo após o anúncio de Nelson Barbosa para o lugar de Levy, o governo continua enviando recados de que manterá compromissos com o ajuste e com o cumprimento da meta de superávit fiscal, o que não agrada a sua base social.

Integrantes e apoiadores do partido seguem reivindicando que o PT retorne às raízes que serviram de suporte à sua criação, em 1980. O presidente da Central Única dos Trabalhadores, Vagner Freitas, que tem atuado nas mobilizações de rua e contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, afirma manter apoio à legenda mesmo com as críticas à condução da economia. Ele diz, no entanto, que o partido precisa se reaproximar dos movimentos sociais.

“A própria classe trabalhadora que o PT conheceu quando se formou na década de 1980 não é mesma classe que temos hoje. O partido teve e tem uma função muito importante para a sociedade, mas hoje tem menos presença nas classes populares do que deveria ter. E essa retomada é essencial para a sobrevivência do partido”, defende.

Os ajustes fiscais anunciados por Dilma no segundo mandato com o objetivo de impedir o aumento da dívida brasileira, diminuir a inflação e evitar o encolhimento da economia motivaram a saída de alguns petistas da legenda. Segundo eles, as mudanças ocorridas nos últimos anos no partido, que historicamente empunhou a bandeira da ética e defendeu os direitos dos trabalhadores, os leva a crer que é necessária uma guinada à esquerda.

Com os pés mais fora do que dentro do PT, o senador Paulo Paim (RS) acredita que o partido pode sofrer uma debandada de militantes. Na opinião do parlamentar, a situação atual da legenda terá reflexos nas eleições municipais de 2016. “Nós acabamos entrando na bola comum dos partidos. Trocando emendas por votos, cargos por interesses. Isso não foi o que a gente pregou e que sempre fez. Não tem sentido. Viemos para fazer uma política diferenciada. Como isso acabou não acontecendo, é natural que algumas pessoas prefiram esse caminho e outras não”, avalia.

Paim, que já recebeu homenagens por defender os direitos dos trabalhadores e aposentados, diz ter avisado há um ano que deixaria o PT caso não houvesse alteração na política econômica. “Ainda naquele ajuste fiscal do fim do ano passado, que me deixou indignado por ter mexido no interesse do aposentado, do pescador, do seguro-desemprego, do abono, eu percebi para onde ia, que isso vai gerar mais desemprego, vai haver recessão. Esse não é o governo que eu escolhi. Não tem mais clima para as causas que eu sempre defendi”, resumiu. O senador pondera, porém, que sai “respeitosamente” do partido, sem negar o legado da era Lula e o primeiro mandato de Dilma.

Erro ao apostar na governabilidade

De acordo com o professor de História da Universidade de São Paulo, Everaldo Andrade, a expectativa depositada pelos eleitores que votaram na presidente em 2014 não foi atendida. O pesquisador avalia que a busca da governabilidade foi priorizada em detrimento de setores que “realmente” a apoiaram durante a campanha. Em referência ao PMDB, maior legenda de apoio do governo, o professor critica alianças feitas nos últimos anos pelo partido. Segundo ele, o uso de acordos eleitorais com “supostos aliados” foi “o maior erro estratégico” da legenda.

A criação de alianças “com fins eleitoreiros” em troca de bandeiras históricas é um “jogo que contrariou a origem do PT”, na opinião do professor. “Há um efeito de destruição do partido. Isso não dá para negar. Há uma destruição das estruturas tradicionais, na medida em que alguns dirigentes são implicados em problemas de corrupção”, afirma Andrade.

Em 2015, os desdobramentos da Operação Lava Jato, que investiga denúncias de corrupção na Petrobras, fizeram com que a estrela do PT fosse ainda mais ofuscada: em novembro, o líder do governo no Senado, Delcídio do Amaral (PT-MS), foi preso pela Polícia Federal sob a acusação de obstruir as investigações. O parlamentar foi o primeiro senador da República a ser preso no exercício do cargo.

Segundo o professor, caso Dilma permaneça no poder, os desafios de cumprir as reivindicações populares vão além da vontade política. Será necessária uma “nova coalizão popular” para a ampliação de reformas, como por exemplo a agrária. “Isso significaria uma ruptura com tradicionais aliados que cobram uma fatura muito cara. E essa fatura está aparecendo agora”, diz.

“O que existe é uma pressão que talvez não foi suportada pelo governo Dilma. [Faltou] uma coragem de enfrentar setores que historicamente se beneficiaram do corte de direitos. Para isso é preciso mobilização e uma política de alianças completamente diferente”, aponta.

Para o estudioso, porém, ainda não é possível definir se a legenda será recuperada. “É uma questão histórica, de luta política, não vai depender só dos próximos meses. O PT não é uma simples legenda que foi criada ontem para disputar eleição. Por isso que ele vai sobreviver. Agora, como ele vai sobreviver, em que condições, não dá pra saber ainda”, afirma.

“Vou torcer sempre para que o PT mude. Se ele não mudar, vai ter dificuldades”, opina o senador Paim. Para Vagner Freitas, o PT ainda possui uma militância organizada e voluntária que defende a legenda. “O partido precisa ouvir essa militância. Aí acho que as coisas entram numa rota correta”, defende. “É um gesto político. Se o PT tiver capacidade e coragem de enfrentar esse desafio político, pode reconstruir uma base social mobilizada para defender essa plataforma”, avalia Andrade.

IG

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