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Brasil

04/08/2016


Sobre um revolucionário: Revista Nordeste revisita método de Paulo Freire

Por Paulo Dantas

Dando seguimento a série especial Mapa da Educação, a Revista NORDESTE traz uma entrevista exclusiva com o estudioso José Eustáquio Romão, um dos fundadores do Instituto Paulo Freire e divulgador das ideias de um dos maiores pensadores da educação moderna. Paulo Reglus Neves Freire nasceu em 1921 e morreu em maio de 1997. Foi educador, pedagogo e filósofo. Apesar de ter se formado em direito, parece que nunca exerceu a profissão. Segundo a escritora Vera Barreto, Freire nasceu numa família de classe média, empobrecida durante a depressão de 1929. O filósofo conviveu com um universo de gravatas do pai e o piano da tia, e o coleguismo dos meninos pobres.

“Naquela época eu não furtei dinheiro, porque não tive chance, senão teria furtado. Mas açúcar de uma venda que tinha próxima de minha casa eu quase cansei de roubar”, contou tempos mais tarde. Alguns apontam essa experiência na infância o embrião de uma necessidade de Freire e ouvir e ajudar a esclarecer o mundo aos mais necessitados. Com uma influência marxista e considerado um dos pensadores mais notáveis na história da Pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica. Sua prática didática fundamentava-se na crença de que o educando assimilaria o objeto de estudo fazendo uso de uma prática de leitura da realidade. Essa visão se contraporia ao que ele chamava de educação bancária, tecnicista e alienante: onde o professor depositaria o seu conhecimento num aluno desprovido de crítica ou entendimento próprio.

No método freiriano o educando criaria sua própria educação, fazendo ele próprio o caminho, e não seguindo um já previamente construído; libertando-se de chavões alienantes. Paulo Freire destacou-se por seu trabalho na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência política. Autor de Pedagogia do Oprimido, talvez sua obra máxima, onde defende o diálogo com as pessoas simples, não só como método, mas como um modo de ser realmente democrático. Freire foi o brasileiro mais homenageado da história: ganhou 29 títulos de Doutor Honoris Causa de universidades da Europa e América; e recebeu diversos prêmios, entre eles da UNESCO de Educação para a Paz em 1986. Em 13 de abril de 2012 foi sancionada a lei 12.612 que declara o educador Paulo Freire Patrono da Educação Brasileira.


Na entrevista concedida a NORDESTE, é possível vislumbrar um pouco do método revolucionário de educação idealizado por Freire, que saia do universo de cada pessoa para a construção não só do saber, mas do sentido de individualidade e da consciência do entorno. O método até hoje não é utilizado de forma abrangente no Brasil, mas tem experiências em vários lugares do mundo, inclusive na China, com sucesso. O estudioso uma vez afirmou: “Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”

 

Professor Romão, amigo pessoal de Paulo Freire

Revista NORDESTE: Em que consiste o método de Paulo Freire e o que ele ainda tem de revolucionário hoje?
José Eustáquio Romão:
“O Método de Alfabetização” criado por Paulo Freire, que acabou levando seu nome, foi aplicado experimentalmente na alfabetização e na educação de adultos, não é mágico, não tem varinha de condão. É baseado em coisas muito simples que, depois de constatá-las, perguntamo-nos porque não as pensamos antes. Primeiramente, o método parte da chamada “Cultura Primeira”, como a chamou Georges Snyders, do alfabetizando, nela procurando identificar, no caso da alfabetização, “palavras geradoras”, isto é, vocábulos da língua em que se está alfabetizando, que sejam sintaticamente ricos e semanticamente significativos para os alfabetizandos(as). Para se descobrir essas qualidades, o educador deve preceder seu trabalho presencial, no chamado círculo de cultura (que deverá substituir as aulas), pela pesquisa do universo cultural ou simbólico dos educandos. Portanto, as palavras geradoras, que emergem dessa pesquisa e do diálogo no círculo de cultura, serão desdobradas em suas sílabas, com as respectivas famílias silábicas. Em seguida, os(as) alfabetizandos(as) são estimulados a comporem outras palavras por meio de combinações silábicas. Na pós-alfabetização, temas e contextos geradores tomam o lugar das palavras geradoras. Sempre colocamos a expressão “Método Paulo Freire” entre aspas porque o próprio Freire, ao ser indagado se existia um “Método Paulo Freire”, respondia que “sim e não”, querendo dizer que existia o método, mas que sua obra não poderia ser reduzida nele.

NORDESTE: De onde surgiram as ideias de Paulo Freire sobre a educação, o senhor pode dizer como ele as construiu?
Romão:
No final da década de 50 e início da de 60 do século XX, Paulo Freire inspirou-se nas teorias nacional-desenvolvimentistas dos intelectuais que mais tarde passaram a integrar o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Como se sabe, o ISEB resultou do grupo inicialmente formado por intelectuais que se reuniam em Itatiaia (daí o nome “Grupo de Itatiaia”), que queriam formular e oferecer um plano de modernização e desenvolvimento ao País. Este grupo institucionalizou-se depois no IBESP. João Café Filho, vice-presidente que governou o Brasil após a morte de Getúlio Vargas, por um rápido mandato – seria substituído, logo em seguida por Nereu Ramos e este, por Carlos Luz, por meio do decreto n.º 37.608, de 14 de julho de 1955 – criou o ISEB como órgão do Ministério da Educação e Cultura. O ISEB, no entanto, só começaria suas atividades no subsequente Governo de Juscelino Kubitschek de Oliveira (O Instituto funcionou como núcleo irradiador de ideias e tinha como objetivo principal a discussão em torno do desenvolvimentismo, tema importante durante o governo de Juscelino Kubitschek. Foi extinto após o golpe militar de 1964, e muitos de seus integrantes, os isebianos, foram exilados do Brasil). Com imensa clarividência epistemológica e respeitosamente, Paulo Freire discordou de seus inspiradores, quando em sua primeira obra publicada, Educação e Atualidade Brasileira, considerando que o desenvolvimento e a democracia não viria automaticamente pelo contexto favorável do nacional-desenvolvimentismo, mas que era preciso educar a sociedade na democracia, pois o país vivia, à época, a contradição da emergência do povo na política mas, com uma notável e histórica “inexperiência democrática”. Contudo, não se tratava, segundo Paulo Freire, de qualquer educação, mas de uma educação baseada em uma pedagogia emancipadora,. Emergia, já nessa época, as categorias mais importantes que estruturariam sua futura obras máxima, Pedagogia do oprimido.

NORDESTE: O senhor falou em entrevista recente que o método nunca foi utilizado no Brasil. Não há experiências no país com o método?
Romão:
Posso ter me expressado mal. Não tive a intenção de afirmar que o “Método Paulo Freire” não foi aplicado no Brasil. Tem havido experiências, aliás de sucesso! O que afirmei é que Paulo Freire não foi incorporado pela Universidade Brasileira e seu Método de Alfabetização de adultos não foi assumido oficialmente no combate ao analfabetismo. Portanto, salvo experiências isoladas, apesar de ser o Patrono da Educação Brasileira, o ethos freiriano está fora dos sistemas educacionais do país. Afirmei isso, para contradizer os que acusam Paulo Freire pelos fracassos da educação pública brasileira. Penso, ao contrário que, se o “Método Paulo Freire” tivesse sido aplicado na Educação de Adultos, já teríamos universalizado a alfabetização.

NORDESTE: Por que alguém que é considerado patrono da educação desde 2012, não é aplicado de uma forma mais consistente?
Romão
: Durante muito tempo pensei que as ideias de Paulo Freire não eram aplicadas porque ele não tinha títulos acadêmicos. Como se sabe, ele concluiu o curso de graduação em Direito. Não fez pedagogia; não fez mestrado, nem doutorado. No entanto, recebeu, depois, vários títulos de Doutor honoris causa de importantes universidades do mundo. Refiz meu raciocínio e, hoje, estou convencido, que sua rejeição se dá pelo conteúdo mesmo de suas ideias. Resistem-lhe os intelectuais orgânicos das elites e as próprias elites porque as ideias de Paulo Freire representam uma ameaça a seus interesses. Paulo Freire é, radicalmente, um intelectual orgânico do povo, dos oprimidos, contra toda e qualquer forma de opressão.

NORDESTE: Na sua avaliação, qual é o maior problema da educação brasileira hoje?
Romão:
No meu modo de entender, o maior problema da educação brasileira é a falta de recursos financeiros. Apesar de todas as correntes políticas do país considerarem que a educação é fundamental para o desenvolvimento nacional, a proclamação nunca é correspondida com ações práticas. Quase sempre responsabiliza-se os professores. Porém, ganhando o que ganham, trabalhando nas condições em que trabalham e sem o prestígio social que outras sociedades lhe dedicam, estão fazendo milagre. Toda vez que se fala em crise, os órgãos educacionais são os primeiros a sofrerem grandes corte financeiros. Ora, é exatamente investindo-se mais em educação que se combatem as crises. Sempre que sou instado a falar sobre o proventos docentes brasileiros no exterior, sinto-me muito desconfortável.

NORDESTE: Seria correto dizer que hoje as escolas estão divididas entre o método tradicional (na escolas públicas e boa parte da privadas) e no método construtivista (ainda apoiados em teorias de Piaget, Vygotisky e Montessori)?
Romão:
Eu não saberia dizer com segurança sobre os métodos aplicados nas escolas de educação básica no Brasil, porque, para uma afirmação categórica sobre a questão, seria necessário realizar uma pesquisa ampla nos subsistemas escolares brasileiros. No entanto, posso afirmar que o chamado “Gerencialismo”, que tem se tornado hegemônico nos sistemas educacionais do país, com o furor do Estado Avaliador pelos rankings, implantou-se um verdadeiro maniqueismo na educação, estabelecendo-se, de um lado, as instituições educacionais “ruins”, pelo mal desempenho dos estudantes e, de outro, as “de excelência”, pelo bom desempenho de seus alunos nos processos de avaliação ampla, comparada e externa. Ora, para se saber se uma escola é boa ou ruim, se é de qualidade, ou não, é necessário saber, previamente, a que tipo de sociedade ela servirá. Se é para a construção de um projeto social individualista, meritocrático e, no limite, excludente, a maioria das escolas que aí estão são de excelente qualidade porque, pelos processos de avaliação que aplicam, ainda conseguem por a culpa do fracasso no próprio fracassado.

NORDESTE: É correto dizer que Paulo Freire está inserido no método construtivista? O que poderia mudar caso o método de Paulo Freire fosse aplicado hoje no país?
Romão:
O “Método Paulo Freire” apresenta convergências com o Construtivismo, mas com ele não pode se identificar. Na verdade, tanto Paulo Freire quanto seus seguidores pregam o pluralismo metodológico, de acordo com cada realidade a ser enfrentada pelos educadores. O problema não está nos métodos, nem nas técnicas, mas na concepção ontológico-epistemológica do projeto educacional, no qual cabem as questões fundamentais: Educação onde? Educação para quê? Educação para quem?

NORDESTE: Hoje se vê nas escolas que os professores parecem que perderam o controle da sala de aula e a violência toma conta do ambiente em vários aspectos, como resolver esse problema?
Romão:
Os problemas que ocorrem na escola não são exclusivos dela. São da sociedade como um todo. Não se resolverá, a meu ver, o problema da violência (crescente) nas escolas, sem a solução da violência na sociedade. E aí, penso que o exame dos fatores, dos encaminhamentos de solução estrutural etc. escapam os limites de uma entrevista como esta. Gostaria apenas de registrar que a violência escolar não se resolve apenas com a educação e com a pedagogia, porque ela é, inclusive, um mero eco do que se passa na sociedade.

Professor Romão com os manuscritos da Pedagogia do Oprimido

NORDESTE: Seria correto afirmar que a tomada de consciência é um passo fundamental para o processo de cognição humana?
Romão
: Não há construção, nem aquisição, de conhecimento sem conscientização. Para Paulo Freire, o processo de conscientização que se constrói a partir da “leitura de mundo” (leitura crítica ou política) é a que permite a apreensão da realidade. As escolas trabalham muito com a “leitura da palavra” (textos, aulas, conferências etc.). No entanto, segundo Freire, o estudante só aprende quando remete os resultados da “leitura da palavra” à “leitura de (seu) mundo”. Aliás, quando lemos as palavras dos pesquisadores e dos cientistas, lemos suas “leituras de mundo”. A leitura de mundo leva á “consciência”; a leitura da palavra leva à “ciência” que é a consciência mutilada (ciência sem ‘com’). Somente o aprendiz apreende a ciência, quando a torna consciência em si mesmo.

NORDESTE: Como estimular naquele que não tem desejo de aprender, de melhorar (pensando que esse desejo se assemelha a algo como uma ambição, mas uma ambição essencialmente de ser melhor) a vontade por aprender e mudar sua própria atitude, muitas vezes autodestrutiva e destruidora do seu entorno?
Romão:
Primeiramente, segundo o legado freiriano, todo ser humano é capaz de aprender e, por isso, capaz de ensinar. O aprender é o princípio fundante do ensinar. Entretanto, as pessoas podem aprender coisas boas e coisas que ameaçam sua própria integridade e a do processo civilizatório. Por que jovens agem, às vezes, contra os princípios da convivência humana civilizada? Certamente fizeram opções… todos fazemos opções, a partir das alternativas que se nos apresentam ao longo de nossas trajetórias de vida. Que alternativas foram apresentadas à juventude brasileira desviada para o tráfico de drogas, por exemplo? O que a sociedade ofereceu e continua oferecendo para as crianças e adolescentes com liberdade vigiada? Estas são as verdadeiras questões que a Sociedade Brasileira terá de enfrentar se quiser, realmente, resolver a violência que grassa nas escolas e em outras instituições consideradas instrumentos da civilização moderna.

NORDESTE: O processo de aprendizagem pode ser relacionado com um processo terapeutico? Por quê?
Romão
: As patologias sociais não podem ser confundidas com patologias afetivas. Estas podem ser o resultado das primeiras. Atacar os sintomas não vai resolver, porque continuarão nascendo os portadores dos resultados das patologias sociais. Estruturalmente devem ser atacados os fatores das patologias sociais e o principal deles é constituído, sem dúvida nenhuma, pelas desigualdades sociais. Ou as elites brasileiras – das mais perversas do Planeta – entendem isso, ou não vão conseguir barrar a onda de violência que se abate sobre elas próprias e sobre todos.

Paulo Freire em Angicos (RN), experiência de sucesso.

NORDESTE: O senhor anunciou que encontrou o manuscrito original da Pedagogia do Oprimido, poderia contar como se deu essa descoberta?
Romão:
Como é conhecido, Paulo Freire viveu por cerca de quatro anos no Chile, quando conseguiu livrar-se da sanha da ditadura militar brasileira. Foi muito bem recebido no Chile, onde iniciou seu exílio de mais de uma década (a rápida passagem pela Bolívia pode ser desprezada). Naquele país andino, acabou se tornando muito amigo de Jacques Chonchol, graduado funcionário do Ministério da Agricultura de Eduardo Frei e ex-ministro do Presidente Salvador Allende. Quando deixou o Chile para ir viver nos Estados Unidos e na Suíça, Paulo Freire resolver copiar à mão o texto de Pedagogia do oprimido para dar de presente ao amigo chileno. A obra fora datilografada por Clodomir Morais (amigo de infância, ex-deputado do Partido Comunista, também preso em 1964 e exilado) que, em depoimento a mim, por telefone, pouco antes de falecer, confirmou ter datilografado a obra que seria enviada aos editores norte-americanos. Como se sabe, o livro foi editado, primeiramente, em inglês, depois, em espanhol e, finalmente, em português. Fizemos contatos com Jacques Chonchol em Santiago – ele retornara, também, de um longo exílio na França – que se dispôs a devolver o manuscrito ao Brasil.

NORDESTE: Há mudanças descritas no manuscrito original que acabaram não ficando no livro que foi publicado? Quando ele será disponibilizado para o público?
Romão:
Os manuscritos trazem partes que não constam das edições de Pedagogia do oprimido. Daí, minha hipótese de que as edições realizadas se basearam na norte-americana, inclusive a brasileira, que acaba por ser uma tradução da tradução e… mutilada. O texto já está disponibilizado na internet, no site do Instituto Paulo Freire. 

 

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