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Brasil

29/09/2015


Sociólogo afirma: “Na educação aumentou a oferta, não a qualidade”

Avaliação social

"Nós tivemos uma melhora na quantidade da educação em todos os níveis, inclusive no nível superior. O ensino tecnológico, o acesso a universidades públicas e privadas. Cidades pequenas, como Patos, no sertão paraibano, ou Santa Cruz do Capibaribe, no agreste de Pernambuco, hoje têm duas, três faculdades particulares. Isso se sustenta porque houve um crescimento da economia, tem um fator pressão, atração, estímulo, inclusive por parte do governo. No ensino técnico a oferta não tem comparação ao que existia há 10, 15 anos atrás”, argumenta Roberto Veras, professor de Ciências Sociais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).


No entanto, apesar do boom da oferta do ensino técnico e superior, o que não melhorou foi a qualidade do ensino fundamental e médio. “As pessoas continuam chegando com muitas deficiências. Mesmo as escolas particulares continuam tendo lacunas muito grandes. É preciso melhorar muito o nível da escola no Brasil. Se compararmos a outros países, o Brasil está muito longe para chegar numa boa qualidade do ensino. É tudo ainda muito desregulado. O jovem deixa a escola e vai para o trabalho, continua trabalhando e volta para a escola. Tudo isso compromete muito. A qualidade da oferta do ensino não é das melhores. Até agora não fizemos um investimento adequado nessa área. Essa é uma das principais lacunas das politicas públicas no Brasil”, assevera o estudioso.


Veras não nega que houve avanços em várias áreas, mas o problema é que os déficits são muito grandes. Para o cientista, o Brasil ainda é uma sociedade marcada pela desigualdade e pela extrema polarização entre pobreza e riqueza, onde as instituições são viciadas e as leis têm dois lados, tem um lado que dá a impressão de um estado moderno, mas do outro lado reproduzem a pobreza e a desigualdade, replicando preconceito e discriminação.


“Como vamos nos entender como sociedade se os de baixo se veem como incapazes, sem condições de assumir responsabilidades maiores no plano politico, e os de cima veem os de baixo como desprezíveis? Que noção de sociedade é essa? Somos uma sociedade fracionada”, ressalta. Com os programas sociais, Veras afirma que houve deslocamentos dessa situação. “No entanto, essa elevação está provocando uma reação imensa de uma parcela da sociedade. O Bolsa Família virou alvo de imensas críticas. A elite não admite nenhum tipo de modificação!”.


Apesar das críticas, Veras acredita que as políticas sociais precisam ser mantidas e defende que elas são como políticas de cotas. “Cotas não podem vir para ficar, são políticas emergências, não são feitas para serem mantidas permanentemente. Elas precisam ser transitórias, claro que essa transição precisa ser calculada. Uma saída exitosa, que não crie uma situação de dependência. Enquanto o quadro for esse é preciso que essas políticas, com acesso a educação e bens, possam ir criando condição às gerações futuras para irem se inserindo na sociedade e no mercado de trabalho”.


O quadro pintado por Veras parece uma engrenagem natural, o maior acesso a bens e a educação aumentaria o nível de pressões vindas de setores de baixo da sociedade, essas pressões criariam, por si só, o espaço propício para negociações que darão mais poder de barganha às classes mais necessitadas. “Eles podem mudar a situação e atuar no sentido de melhorar esse quadro. É preciso criar esse lastro que vai ajudar a trazer mudanças mais substanciosas para frente. Neste momento, estão sendo feitos esses ajustes emergenciais. Mas é preciso agir sobre esses pontos. Senão elas continuarão se reproduzindo como estão se reproduzindo até hoje. São 500 anos de história, muda o cenário, mas o quadro permanece”.


Veras explicou que a solução é mesmo uma maior consciência cidadã da população. “É a compreensão que a sociedade é para todos. Uma compreensão da elite e das classes populares. Os de baixo precisam saber que eles têm direitos e precisam atuar para que esses direitos sejam conquistas efetivas. Os de cima devem ter consciência que a sociedade só funciona, ou funciona melhor, se os de baixo tiverem direito. A educação ajuda muito, não só para possibilitar uma melhor colocação no mercado de trabalho, mas também para fortalecer uma consciência cidadã. Todos têm direitos e deveres”.

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Paulo Dantas – Revista Nordeste
 

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