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Brasil

05/05/2015


Terceirizados se queixam de direitos esvaziados na Lei

Nos últimos meses, as mudanças nas atuais regras da terceirização têm polarizado centrais sindicais, empresas, partidos de situação e oposição. O tema, com ares de novidade, discute a ampliação das regras hoje em vigor. Um dos pontos de maior tensão entre defensores e críticos é a terceirização da atividade-fim, não apenas da atividade-meio.

O projeto de lei 4330/2004, apresentado pelo ex-deputado e empresário Sandro Mabel (PMDB-GO), foi aprovado pela Câmara Federal em 22 de abril, após alterações em emendas que permitem a terceirização da atividade-fim. Empresários afirmam que a regulamentação vai aumentar a fiscalização e os direitos do terceirizados, enquanto os antagonistas ao projeto defendem que haverá precarização nas relações trabalhistas, redução de salário e consequente declínio da massa salarial.

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O iG procurou profissionais de diversos setores que são terceirizados para ouvir relatos sobre como era o dia a dia em suas funções. Os nomes das pessoas entrevistadas foram trocados para proteger os empregos.

Participação nos lucros de terceirizada em refinaria é um terço de contratado

Milena Costa, de 34 anos, trabalhava como funcionária terceirizada em uma refinaria da Petrobras no Estado de São Paulo. Há um mês foi demitida porque a empresa para qual trabalhava deve encerrar os contratos com a estatal.

"Os petroleiros se acham, acham que mandam. Sei que alguns locais somente o chefe da equipe terceirizada pode se reportar aos funcionários diretos da Petrobras. Há, sim, muita diferenciação", conta Milena. Ela acredita que o fato de a obra ser muito grande e os canteiros separados, muitas vezes entre empresas terceirizadas e Petrobras, causa uma segregação. "Os canteiros e refeitórios são separados. Outra coisa absurda é a participação nos lucros, que é feita mediante acordo sindical. Para terceirizados, a PLR de 2014, foi de R$ 4 mil, enquanto o dos contratados na refinaria foi de R$ 15 mil. Os sindicatos são diferentes."

Técnico de manutenção vivia de contratos temporários

Paulo Ricardo Pereira, de 33 anos, é técnico em manutenção, mas atualmente está desempregado. Os últimos três empregos dele, todos com carteira assinada, foram em empresas que prestam serviços para a indústria de metalurgia, dois duraram nove meses e o último durou um ano.

A Força Sindical, ao lado da Fiesp e da CNI, defendem a ampliação das regras da terceirização
Agencia Brasil/reprodução
A Força Sindical, ao lado da Fiesp e da CNI, defendem a ampliação das regras da terceirização
"Eu não acho ruim ser terceirizado porque nessas áreas de metalurgia e de produção, que me interessam, a maioria dos contratos é assim. Mas todo mundo quer ser contratado pela empresa principal, sem dúvida esse é o nosso sonho." Pereira afirma que sempre trabalhou com contratos temporários, mas apenas com os benefícios de vale-transporte, vale-refeição e plano médico. "Sempre que comparava os benefícios que a minha empresa dava com os dos funcionários contratados direto pela empresa via uma grande desigualdade. Isso era ruim."

Pereira fala sobre o lado negativo de ser terceirizado. "Sempre existe a possibilidade de ir prestar serviço para outra empresa, mas as condições mudam e nem sempre é para melhor. O último trabalho que eu fiz, quando acabou o contrato, me ofereceram a mesma função, mas em outro Estado. Eu até queria continuar, mas não em outro lugar."

Função de atendente de telemarketing é vista como entrada no mercado

Leandro Abreu, de 19 anos, trabalha como atendente de telemarketing ativo (fazendo ligações para clientes de uma operadora de telefonia para oferecer serviços e produtos) em uma grande empresa de call center, no centro de São Paulo, e conta que gostaria de ser contratado para o cliente que atende, na terceirizada. "O salário seria maior, eu teria benefícios melhores e as metas não seriam tão agressivas." Ele conta que faz faculdade de Direito e vê o trabalho de atendimento de telemarketing como uma função temporária.

"A empresa até tem um plano de carreira, mas quase ninguém aposta nele por dois motivos: o preconceito contra nossa função e porque, na realidade, há incentivo monetário para batermos as metas, mas é difícil alcançá-las e ter motivação dentro desse trabalho cansativo, onde ganhamos pouco e onde as pessoas de maneira geral nos desrespeitam." Paulo confirma o que dizem especialistas, a função é vista como porta de entrada no mercado de trabalho, mas apesar de haver treinamentos recorrentes e qualificação, a inexperiência da maior parte desse grupo de trabalhadores cria um ranço que desmotiva o trabalhador dentro de sua rotina.

"Terceirizado tem tratamento pior"

Antônia, de 18 anos, trabalha na mesma empresa de Paulo, mas atende um cliente diferente, recebe chamadas (receptivo) para realizar as ações solicitadas pelos clientes de uma empresa de pagamentos eletrônicos para pedágio e estacionamentos. "Nesse setor temos tudo certinho, trabalhamos seis horas, com intervalos regulares, como manda a lei. Mas tem, sim, uma grande diferença no tratamento do terceirizado. Dentro da empresa onde estou nosso tratamento é pior. Por exemplo, o cliente tem uma sala com menos pessoas, com café, água e um ambiente muito melhor, menos apinhado de gente. É como se o cliente ficasse em uma ilha, cercado pelo atendimento, com suas incontáveis baías, onde é preciso atender ligações incessantemente, onde tudo é cronometrado", explica.

Ainda segundo Antônia, "se eu fosse contratada pela empresa que atendo, teria uma série de benefícios que não tenho como terceirizada. Os salários pagos são maiores também quando somos contratados pela empresa. Essa é a maior vontade de quem trabalha aqui: ser contratado pelo cliente. Tem gente que diz que nem mudaria de função se isso acontecesse".

"Ser contratado é, com certeza, o maior sonho"

Carolina, de 25 anos, é gerente de uma empresa terceirizada de atendimento, onde trabalha há quatro anos. Como já foi promovida, é uma prova de que é possível fazer uma carreira nesse tipo de empresa. Mas ela conta que os clientes fazem muita pressão para elevar metas. "Exigem qualidade, mas não dão a condição ideal e os contratos são reavaliados com aperto das funções para os atendentes. É possível bater metas, mas tem de ter dedicação, pensar no cliente que está atendendo, buscando ser a solução da chamada. A meta principal de quem atende a reclamações é fazer com que o cliente não precise ligar de novo. Muitas vezes, a empresa não quer atender o cliente e quem fica na linha de tiro é atendente.

Sobre o sonho de ser contratada direto pela empresa, Carolina não titubeia: "Com certeza, esse é o grande sonho de todos. Hoje são poucas terceirizadas que bonificam 100% das metas, isso desestimula. A média de permanência do trabalhador é de seis meses a um ano. É difícil ficar. Para mim, a pessoa que avança nessa carreira tem objetivos pessoais fortes e utiliza o trabalho para conquistá-lo. A maioria dos jovens não tem um planejamento assim. Isso é ruim".

A meta de cada atendente receptivo, conta Carolina, é receber 62 ligações por dia, o que dá um tempo médio de duração de 300 segundos (5 minutos) por chamada.

IG 

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