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Brasil

12/01/2016


Transposição: maior obra hídrica do país está em fase final

exclusivo nordeste

A transposição do Rio São Francisco é uma das 100 maiores obras de infraestrutura hídrica do mundo. A informação é da consultoria internacional KPMG. A obra está mexendo com o semiárido nordestino e promete mudar a paisagem desértica. Os números que envolvem emprego, material usado e maquinária realmente são portentosos. São 477 quilômetros de canais em dois eixos de transferência de água com a construção de 4 túneis, 14 aquedutos, 9 estações de bombeamento e 27 reservatórios, 9 subestações de 230 quilowats, 270 quilômetros de linhas de transmissão em alta tensão. Com 15 quilômetros de extensão, o túnel Cuncas I, é o maior da América Latina para transporte de água.

A justificativa para a construção de tamanha obra é simples. No Nordeste estão 28% da população brasileira e apenas 3% da disponibilidade de água do país. O semiárido compõe cerca de 80% do território e o Rio São Francisco detém 70% de toda a oferta de água da região. Além disso, a região nordestina é historicamente submetida a ciclos de seca rigorosa, como a vivida atualmente. Desta forma, o projeto vai levar água para mais de 12 milhões de pessoas que moram em 390 municípios dos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. O prazo para realização do projeto como um todo é de 20 anos, destes, quase oito já se passaram desde o início efetivo das obras (em 2008). Dados de novembro apontam para 81,8% de execução física da obra já concluída. O investimento total é de R$ 8,2 bilhões.

Entrega prevista em 2017

A entrega do projeto está prevista para 2017 e os testes e bombeamentos já começaram. Em agosto, a presidente Dilma Rousseff (PT) esteve em Cabrobó, no Sertão de Pernambuco, onde entregou a primeira Estação de Bombeamento (EBI-1), do Eixo Norte. O acionamento da bomba foi feito pela própria governante, de forma simples, através de apenas um clique.
A bomba instalada na EBI-1 possui capacidade de impulsionar água do nível do rio até 36 metros acima. A altura é equivalente a um edifício de 12 andares. De início, a vazão foi definida em 12,4 metros cúbicos por segundo. A etapa foi um teste, onde os técnicos estão administrando o fluxo da área e se necessário, realizando eventuais acertos. A água que começou a abastecer o canal seguiu sete quilômetros até o reservatório de ‘Tucutú’ e mais 45,9 quilômetros até o reservatório de ‘Terra Nova’, ambos localizados em Cabrobó. Segundo o Ministério da Integração Nacional (MI), o custo deste trecho do projeto foi de R$ 625,09 milhões.
Para se ter uma ideia da distância, mesmo com a ativação da bomba, a água só chegou no primeiro reservatório após 39 dias e precisou de mais 18 para abastecer o segundo. O diretor do Departamento de Projetos Estratégicos do Ministério, Robson Botelho, informou que o sistema vai operar 16 horas por dia, durante cinco dias na semana. A intenção é que os reservatórios já comecem a abastecer as comunidades.

O que compete aos estados

Os governos dos estados serão responsáveis, com apoio do Governo Federal, pelos sistemas de abastecimento que irão levar a água do canal para as comunidades, num sistema de integração das bacias hídricas dos estados.
Os dois eixos também abastecerão adutoras e ramais para perenizar rios e açudes que abastecem municípios de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte. Essa é a ideia da integração das bacias. A água do rio São Francisco vai chegar, por exemplo, até as torneiras da população de Fortaleza. Assim, os sistemas simplificados de abastecimento de água são obras da responsabilidade dos governos dos estados, com apoio do Governo Federal. O Ministério da Integração Nacional fornecerá aos estados recursos financeiros e os projetos executivos para as obras.
O abastecimento de água do Projeto São Francisco será ampliado por meio de grandes ramais de integração. O governo do Ceará é responsável pela execução do Cinturão das Águas (CAC), o governo da Paraíba pela obra da Vertente Litorânea e o governo de Pernambuco pela Adutora do Agreste.
Ao todo, na primeira fase, já em andamento, serão atendidos 77.733 habitantes de 12 comunidades quilombolas e 23 indígenas.

O projeto
O plano básico do projeto está fundamentado na construção de dois imensos canais ligando o rio às bacias hidrográficas menores do Nordeste, bem como aos seus açudes, para em seguida construir adutoras, com o objetivo de efetivar a distribuição da água para beber e irrigação.
Entretanto, levar a água do rio São Francisco para o Nordeste não é fácil. A água tem que vencer 722 km de terreno árido e íngreme e ser elevada a cerca de 300 metros de altura (no Eixo Leste) e 180 metros (no Norte). Para isso serão usadas, ao todo, 8 estações de bombeamento, 591 km de canais e 12 túneis. Tudo com o intuito de tirar 1,4% de água da vazão média do rio São Francisco e levar aos rios temporários (que ficam secos por até 9 meses no ano) dos 4 estados do semiárido nordestino.
A Integração do Rio São Francisco é um empreendimento de engenharia, com alto grau de complexidade.
No total, os investimentos previstos são de peso: R$ 8,2 bilhões. O projeto prevê desse montante o investimento de quase R$ 1 bilhão (aproximadamente 12% do total) para programas básicos ambientais. 38 desses projetos foram implementados para que a transposição pudesse seguir o seu curso sem ferir o velho Chico. Além disso, 845 famílias devem receber moradias devido a desapropriações – quase 300 já têm casas. Até 31 de agosto, a União investiu R$ 6,9 bilhões na Transposição.

Eixo Norte
O projeto do Eixo Norte possuiu três estações distribuidoras, com 260 quilômetros de extensão (estações EBI-1, EBI-2 e EBI-3), que devem estar em pleno funcionamento até o final de 2015. Juntas, as três EBs têm capacidade de impulsionar a água em 188 metros acima do nível do Rio São Francisco. A altura pode ser comparada a um prédio de 58 andares. Na obra foram envolvidos 6.386 trabalhadores, para a construção de 15 reservatórios, oito aquedutos, três túneis, canais, além das estações elevatórias. O eixo norte abastece Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará e passara pelos seguintes municípios: Cabrobó, Salgueiro, Terranova e Verdejante (PE); Penaforte, Jati, Brejo Santo, Mauriti e Barro (CE); em São José de Piranhas, Monte Horebe e Cajazeiras (PB).

Eixo Leste
No Eixo Leste do Projeto de Integração do Rio São Francisco foi inaugurada uma estação de bombeamento (EBV-1). Como também foi realizada em fase de teste, o Governo Federal precisou realizar reparos no Reservatório Areias. No Eixo Leste, o empreendimento atravessa os municípios pernambucanos de Floresta, Custódia, Betânia e Sertânia até chegar em Monteiro, na Paraíba.

Mão de obra contribui no desenvolvimento

A prioridade do projeto é o abastecimento humano e a dessedentação animal (suprir necessidades de água para animais). Entretanto, é considerado também como um instrumento que promove o desenvolvimento regional do interior e das zonas metropolitanas dos quatro estados beneficiados (Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba).
Contudo, entre outras necessidades que envolveram a obra da transposição, o número de 10.586 empregos criados, direta e indiretamente, graças ao projeto, e 3.627 equipamentos em operação ao longo dos 477 quilômetros de extensão do empreendimento, bem como a solução do problema da seca derruba toda e qualquer crítica.
Segundo o professor de Finanças da Universidade de Brasília (UnB), José Carneiro da Cunha, a Integração do São Francisco é uma das obras mais estratégicas em andamento no país, por atacar um problema antigo, que é o abastecimento de água no Nordeste. Para ele, a obra vai potencializar a produção agrícola e gerar melhores oportunidades de emprego.
Além disso, ainda no entender do professor, a obra pode gerar uma redução da pressão de expansão das fronteiras agrícolas na Amazônia, já que o projeto contribuirá para melhorar a qualidade do solo do semiárido por meio da irrigação.
“(Irão surgir também) novas atividades econômicas na região, reduzindo a necessidade de programas assistenciais, o que é muito bom", conclui.
Após atender a prioridade de abastecimento, o projeto possibilitará o desenvolvimento econômico, por meio do aproveitamento dos reservatórios locais.
Com a chegada do reforço hídrico do São Francisco, a água local pode ser aproveitada para gerar renda e desenvolvimento socioeconômico das famílias. Será viável, por exemplo, o suprimento de indústrias, empreendimentos turísticos e agrícolas.

Histórico da Transposição

1852/1853/1854 – Engenheiro Henrique G. F. Halfeld e Emanoel Lias
Realizaram, por ordem de Dom Pedro II um estudo detalhado do rio São Francisco e seus principais afluentes, visando a navegação em seus cursos. Dos estudos surgiu a idéia de enfrentar as secas no semi-árido nordestino através de um canal que viabilizasse a transposição da água do Velho Chico.
‣ 1856 – Barão de Capanema
liderando uma Comissão Científica de Exploração, apontava para a viabilidade da abertura de canal interligando o São Francisco ao rio Jaguaribe.
‣ 1908 – Euclides da Cunha
Delineia plano estratégico do semiárido, incluindo a transposição do S. Francisco.
‣ 1913 / 1919 – IFOCS (Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas)
Em 1913, realiza estudos da transposição, considerando a construção de túnel de 300 km de extensão.
Em 1919, realiza novos estudos da viabilidade técnica da obra, concluindo entretanto por sua inviabilidade
‣ 1972 – Dep. Wilson Roriz (Ceará)
Inclusão pioneira da possibilidade de bombeamento associado a canais, reabrindo assim a possibilidade da viabilidade técnica e econômica do projeto.
‣ 1981 – DNOS (Departamento Nacional de Obras de Saneamento)
Elabora o anteprojeto de engenharia da transposição do São Francisco para as bacias dos rios Jaguaribe, Piranhas e Apodi. A vazão de transposição prevista seria de 300 m3/s
‣ 1994 – MIR (Ministério da Integração Regional)
Elabora Projeto Básico de Engenharia para imediato início das obras (trecho Cabrobó-Jatí). A vazão transposta seria dividida em duas etapas: 70 m3/s na 1ª etapa e 110 m3/s na 2ª etapa.
‣ 1997 a 2003 – SEPRE / MI (Secretaria de Políticas Regionais / Ministério da Integração Nacional)
Desenvolvido o Estudo de Viabilidade, a adequação do Projeto Básico e projeto básico dos demais trechos (Eixo Leste e Ramal do Agreste), além dos estudos de Impacto Ambiental do projeto, definindo-se as vazões máximas a serem transpostas de 99m³/s para o Eixo Norte e 28m³/s para o Eixo Leste.
‣ 2004 a 2005 – MI (Ministério da Integração Nacional)
Estabelecimento de amplo debate envolvendo representantes dos Governos Federal, Estaduais e Municipais, do meio técnico e acadêmico e da sociedade civil organizada, culminando com as emissões da outorga para uso da água e da licença ambiental que ensejaram o início do processo licitatório para a implantação do empreendimento.
‣ 2006 a 2007 – MI (Ministério da Integração Nacional)
Desenvolvimento das licitações para execução das obras civis, fornecimento e montagem dos equipamentos hidromecânicos e elétricos. Obtenção da Licença de Instalação.
‣ 2008 – MI (Ministério da Integração Nacional)
Início do Empreendimento
‣ 2017 – Previsão conclusão da obra

A Bacia do rio São Francisco
Área de 619 mil km², correspondendo a 8% do território nacional, com uma população de 18 milhões de habitantes

Eixo Leste e Norte
847 famílias estão sendo atendidas

Obras em andamento
83,1% eixo norte concluído
79,8% eixo leste concluído
10,5 mil trabalhadores 

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