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Paraíba

23/11/2015


Tratamento com animais feito por Parque Zoobotânico da PB é pioneiro no NE

Na Revista NORDESTE

Por Luan Matias

Matéria publicada na edição nº 106

Considerada uma das capitais de maior qualidade de vida no Nordeste, João Pessoa tem na extensa área verde uma das suas principais características. Entre os locais mais visitados por turistas e moradores da cidade em busca de espaços de lazer e contato com a natureza está o Parque Zoobotânico Arruda Câmara, popularmente conhecido como Bica. Nos últimos anos, o espaço tem passado por uma série de melhorias e expansão dos seus serviços.


Uma das principais novidades na Bica é o projeto de Terapia Assistida por Animais Silvestres. O intuito é viabilizar atendimentos por meio da Zooterapia, técnica de reabilitação física, psíquica e social, onde a interação com os bichos resulta em tratamento terapêutico e educacional. Autismo, Síndrome de Down, dependência química, coordenação motora limitada, depressão e dislexia são alguns dos casos em que a prática pode trazer benefícios aos pacientes.


Os tratamentos foram oficialmente iniciados no final do mês de maio, mas a inspiração para o projeto vem de 2014, quando Pedro Américo, portador da Síndrome de West e então com quatro anos de idade, visitava o parque com os pais e a terapeuta. Uma equipe treinava gaviões no espaço quando o responsável pelo condicionamento e bem estar animal do local, Gustavo Vilar, identificou o esforço do menino para entender o que acontecia. A ave foi trazida para perto e pousou na cadeira de rodas. “Logo percebemos uma mudança na animação e no olhar dele”, relatou Sheila Geriz, mãe do garoto.


A equipe então trouxe outros animais; a criança, que apresentava uma dificuldade na coordenação olho-mão, reagiu positivamente e em pequenos momentos teve essa função funcionando.Após algumas visitas posteriores e contatos com outros bichos, a evolução de Pedro era notória. “O interesse no ato de pegar mudou e vimos até uma tendência de interação com outras crianças”, disse a mãe.

Há diversos estudos acadêmicos sobre o tema e a Terapia Assistida por Animais (TAA) acontece em todo o mundo, especialmente através de cachorros e cavalos. Gustavo Vilar já tinha experiência na área e o caso do menino Pedro incentivou o desenvolvimento do projeto. Embora a iniciativa não seja uma novidade, as características da proposta a tornam pioneira no Brasil. “Temos alguns zoológicos no país destinados à educação ambiental e eventualmente a interação com o público, mas o formato sistematizado e frequente de atendimento e assistência só existe no Parque Zoobotânico Arruda Câmara”, esclareceu Gustavo.


Todos os animais participantes do tratamento no Parque Arruda Câmara já tinham uma predisposição ao contato com o ser humano. São aves, mamíferos e répteis acompanhados e condicionados a essa proposta, que normalmente chegam ao Zoológico do local por meio de apreensões do Ibama ou da Polícia Ambiental e não ficam a disposição dos visitantes. A necessidade da equipe em dar maior atenção a esses bichos tornou a terapia uma via de mão dupla: tanto os animais quanto os pacientes são beneficiados com o projeto.


Os atendimentos acontecem por meio de grupos com até 20 pessoas em dois formatos: o pontual e continuado. O primeiro é realizado como um passeio lúdico e o tratamento por meio do contato é complementar a esse dia de visita. O segundo acaba de ser implementado através de uma parceria com uma escola voltada para alunos com deficiência e ocorre semanalmente. A demanda superou as expectativas e os atendimentos, que inicialmente seriam apenas nas terças-feiras, já ocorrem quatro vezes por semana. Cerca de 200 pacientes devem ser recebidos mensalmente. A procura é tão grande que as datas são ocupadas com antecedência.


As possibilidades e formatos têm sido testadas com cautela. Gustavo também compartilhou o sonho de futuramente poder atender além do parque. O projeto já dispõe de animais treinados para visitas em instituições ou domicílios. A necessidade agora é de apoio e incentivos. “Queremos ir até pessoas que têm necessidades especiais. A princípio, essas pequenas evoluções na coordenação motora, no imaginário e conexão com a realidade podem não parecer relevantes, mas têm grande significado para quem convive diariamente com essas limitações.”


Quando perguntada sobre o sentimento de poder contribuir com a evolução do tratamento de centenas de pessoas, Sheila Geriz, a mãe do menino Pedro, não conteve a emoção: “É uma alegria muito grande participar disso e saber que meu filho foi inspiração para o projeto. Mesmo sem falar e poder sair da cadeira de rodas, é uma honra ver o exemplo dele podendo ajudar”, concluiu.

 

Sobre os pacientes

Um ponto que merece destaque é o fato de todas as terapias serem feitas em parceria com as instituições de apoio, que trazem os pacientes já acompanhados pelos terapeutas. Não há possibilidade de atender visitantes avulsos. “Nós precisamos disso por uma série de motivos. O principal é o fato de não termos terapeutas no parque. Oferecemos o espaço físico, o contato com os animais e a segurança, mas não determinamos a terapia de ninguém”, ressaltou Gustavo Vilar.


Há um protocolo rigoroso para o início dos tratamentos: a instituição precisa ir previamente ao parque para verificar como pode ser feita a adaptação às condições as necessidades dos pacientes. Posteriormente, os profissionais da área vão até as instituições, onde é feito um briefing do perfil dos pacientes que farão a visita. A intenção é ter um tratamento direcionado e adaptado. Ainda há uma última etapa, que ocorre após o contato com os animais, onde é feita uma análise da experiência dos participantes.


Aliado ao tratamento, em todas as etapas do processo há a valorização e conscientização da importância da educação ambiental. O princípio é simples: todos os indivíduos são multiplicadores da ideia de preservação e o trabalho educativo é uma das principais características do parque. Diariamente são realizadas atividades voltadas à conservação da biodiversidade: são exibições de vídeos informativos, trilhas ecológicas que ressaltam o combate ao tráfico das espécies, oficinas e gincanas específicas para crianças.

 

Interesse Científico

A Zooterapia (ou TAA) teve início nos Estados Unidos através da organização Delta Society, por volta da década de 1960. Segundo a bióloga Heliene Mota, “Foi um período de despertamento do interesse da comunidade científica acerca do assunto”. Ela também destacou a necessidade de uma preparação minuciosa no período anterior ao tratamento. “Os animais devem ser selecionados por uma equipe multidisciplinar que auxiliará no tratamento mais adequado para o perfil do paciente, evitando possível agitação ou estresse”.


Estudos sobre as relações estabelecidas entre pessoas e os recursos biológicos, sobretudo os animais, apontam que durante o contato com os bichos ocorre a produção de hormônios e neurotransmissores, como a dopamina, serotonina e endorfina, todos relacionados à sensação de bem-estar e prazer. Outro benefício é a diminuição da adrenalina, responsável pelo controle da frequência cardíaca e pressão arterial. Também há comprovação da queda nos níveis do cortisol, hormônio relacionado ao estresse.
 

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