menu

Tecnologia

21/12/2015


Vice-presidente da Cisco fala sobre inteligência artificial na internet

Na Revista NORDESTE

Por Paulo Dantas e Natália Freire
 

Robert Pepper é vice-presidente chefe do setor de Política de Tecnologia Global da Cisco Systems, uma empresa de tecnologia multinacional dos Estados Unidos. A companhia fica situada na cidade de São José, na Califórnia, no famoso Vale do Silício, que reúne as maiores companhias de tecnologia e internet do mundo. Pepper trabalhou durante 16 anos na Comissão Federal de Comunicações dos EUA, onde liderou a implantação de nova legislação para telecomunicação nos anos 90. Só em 2005 juntou-se a Cisco onde trabalha com governos de todo o mundo com segurança, privacidade e desenvolvimento de tecnologias de comunicação e informação. No Fórum de Governança da Internet 2015, em João Pessoa, Pepper ressaltou o resultado de pesquisas que apontam para uma melhora na qualidade de vida para as pessoas que têm acesso a Internet. A partir desse pensamento, Pepper defende que todas as pessoas do mundo tenham meios de acessar a internet. O americano falou ainda sobre a viabilidade da internet e como os governos podem atrapalhar ou ajudar.
 

 

Revista NORDESTE: O que significa estar conectado na internet?
Robert Pepper: Nós realizamos um estudo, que foi publicado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC), e foi verificado que se as pessoas se conectam à internet, isso melhora a vida delas, melhora a forma de vida. De fato, as pessoas que se conectam à internet se aprimoram, economicamente, socialmente, educativamente, muito mais rápido do que aquelas que não estão conectadas. Aprimora a situação em que elas vivem. Então, se as pessoas que estão conectadas estão se aprimorando e as pessoas não conectadas não se aprimoram, precisamos conectar todo mundo, não podemos deixar ninguém para trás. Precisamos de um plano para conectar a todos, assim todos podem se beneficiar da internet. Nessa pesquisa que fizemos aqui no Brasil, nós perguntamos às pessoas quais eram as razões para elas não estarem conectadas. Elas poderiam dar mais de uma resposta. 90% do povo brasileiro pode conseguir uma conexão 3G, eles podem usar seus telefones celulares para se conectar, mas não o fazem. A pergunta é: por quê? 25% delas responderam que não podem arcar com a despesa. Outros 70% disseram que não sabiam porque isso era importante, eles perguntaram: “Por que deveria? O que a internet vai fazer por mim?”. Então essas pessoas não estão familiarizadas com internet. E tem um outro grupo, também com cerca de 70%, que disse: “Eu não sei fazer isso, não sei como”, então eles querem se conectar, mas não sabem como usar. Para algumas pessoas simplesmente não há disponibilidade, na Amazônia por exemplo, não há como. Mas é diferente por idade, quando você pergunta para jovens entre 10 e 15 anos, apenas 27% dizem que não estão interessados. Quando você pergunta para pessoas com mais de 60 anos, 81% dizem que não têm interesse na internet. Então, é bastante geracional, por isso, nossa recomendação, é conectar cada sala de aula em um país. Se você fizer isso nas escolas os estudantes irão aprender melhor, porque terão acesso a conteúdo educacional melhor ao redor do mundo. Mas o mais importante é que se você pode ensinar um bom comportamento cibernético e literário, o que é apropriado, e pode ensinar pessoas jovens como usar a internet. O que acontece em seguida é que eles vão para casa e ensinam os pais e os avós, e aos irmãos mais novos. Conectar cada sala de aula é importante para a educação, mas tem benefícios maiores para a sociedade. Outra coisa que é importante é fechar as barreiras de gêneros, acho que no Brasil isso não é um problema, mas em muitos países a porcentagem de homens e rapazes que usam a internet contra a porcentagem de mulheres e meninas tem uma diferença bem grande. O que sabemos, a partir de estudos, é que as mulheres que se conectam com internet a usam mais para educação, busca de informações, para negócios. Os homens tendem a usar para coisas diferentes. Então reduzir a diferença de gênero entre os conectados é muito importante.

 

NORDESTE: Qual o maior desafio para conectar um bilhão?
Pepper: Existem três razões principais para pessoas não se conectarem. Um, não há acesso, então eles precisam ter o acesso, precisamos fazer uma rede. Mas o Brasil está bem adiantado em comparação a muitos países. A segunda razão é acessibilidade financeira. E a terceira razão são as pessoas que não entendem o benefício, elas não estão interessadas. Esses são os três desafios. Temos que trabalhar na acessibilidade, e para isso precisam ser feitos investimentos nas redes de internet e então precisamos expandir a infraestrutura que viabiliza a internet. Em lugares como na Amazônia será feito por via satélite.

 

NORDESTE: A política ajuda a lidar com isso?
Pepper
: Há um papel para os Governos, há um papel para empresas privadas e há um papel para a sociedade. O que acontece aqui é a multiplicidade desses setores, não são só os governos, só os técnicos, só as empresas, são todos. A história da internet é do interesse de todos e todos participam. Um grande papel dos governos é permitir e criar condições para os investimentos privados. A maioria dos governo vê o valor disso e quer ter opções de banda larga em seus países. São 148 países no mundo que têm planos de banda larga e mais seis países estão trabalhando nisso. Os Governos hoje, não há 10 anos atrás, mas hoje, entendem a importância da internet e estão conectando todos em seus países. Nem todos os Governos são bons em fazer isso, mas eles reconhecem a importância disso. O Brasil vê a importância disso há anos. Esse ponto tem sido central na agenda do Governo. As pessoas que desenvolveram a internet, desenvolveram um sistema numérico chamado IPv4 (Protocolo da Internet versão 4). Naquele tempo havia talvez 100 mil pessoas conectadas, então eles desenvolveram um sistema que acomodava 4 bilhões de números. E eles pensaram, nunca precisaremos mais do que isso. Adivinha só, os números se esgotaram. Então eles começaram a trabalhar em uma nova versão numérica que é a IPv6. Não é ilimitado, mas é quase isso, nessa versão existem mais números do que grãos de areia na praia, então não vamos ter esse problema com o IPv6. Nos precisamos desse novo protocolo para todos os novos milhões de dispositivos que estarão conectados.

 

NORDESTE: O Zero-Rating pode ajudar a disseminar ainda mais a internet, quais os benefícios dessa modalidade que dá acesso gratuito a ferramentas como o google, wikipedia e facebook, entre outros serviços?
Pepper: As pessoas apontam exemplos positivos e negativos de zero-rating na mesma proporção. Há tantos tipos diferentes que ainda não entendemos completamente as implicações de zero-rating. Precisamos de mais informação, de mais analises. A minha posição é que não existe uma resposta única, são várias experiência acontecendo com zero-rating. Há uma diversidade de opiniões, ha quem diga que é ótimo, e quem não goste. Precisamos de mais experiências, mais testes, precisamos ver o que funciona, aprimorar. Precisamos de melhor conectividade, zero-rating é apenas uma forma de fazer a internet mais viável, a propósito, pode não ser a melhor forma e, no final do dia pode haver algo melhor e aí o zero-rating nem existirá mais. Não dá para saber isso agora, ainda é muito cedo. 

 

NORDESTE: Como o senhor vê a cobrança de impostos para acesso a equipamentos de acesso à internet?
Pepper: A internet é especial, mas não de uma forma que seja alvo de impostos. Vou dar um bom exemplo, em alguns países se cobram taxas altíssimas por celulares, em equipamentos de rede, em computadores pessoais e os Governos fazem isso porque pensam que esses equipamentos são para pessoas ricas, mas eles basicamente aumentam a diferença. Fizemos um estudo muito interessante na Colômbia. Eles tinham uma taxa extra muito alta para computadores. O ministro de Comunicações convenceu o ministro de Finanças e o presidente em concordarem em eliminar essa taxa extra, deixando apenas a taxa de venda, que é comum. O que aconteceu, em dois anos a aquisição de computadores aumentou em 110% e, por conta disso, conexões com a internet subiram muito em milhões. E o que aconteceu com a arrecadação de imposto? Subiu. Apenas com a taxa de venda comum, quando eles eliminaram a taxa extra, as vendas subiram e a arrecadação foi maior do que quando havia a taxa extra. Então o problema é que, eles pensam que é algo especial e que deve se cobrar mais, mas prejudica a internet, prejudica o consumidor, e neste caso da Colômbia, prejudicava a arrecadação de imposto. Então, todo país deve ter uma taxa, mas não faça uma taxa especial, nem alta. Eu não sei como é no Brasil, mas em alguns países as taxas para serviço de internet para celulares são tão altas que se iguala aos impostos cobrados na venda de bebidas alcoólicas e cigarros, são as chamadas sin taxes (taxa de pecado), mas a internet não é um pecado. Nós queremos que a internet seja viável e acessível.

 

NORDESTE: Haverá um dia em que a inteligência artificial será uma realidade?
Pepper: Já estão sendo construídos modelos de inteligência artificial. Por exemplo, existem carros que andam sozinhos. Eles podem, em determinadas circunstâncias, circular em uma autoestrada. Outro exemplo, são os computadores que podem diagnosticar doenças, eles usam uma base de dados, ele podem checar milhares de artigos em segundos, enquanto um médico só lê uma certa quantidade de artigos, então eu espero que isso aprimore os cuidados com a saúde. Esses são alguns exemplos que estão acontecendo. Também com as minhas escolhas de livros na Amazon, ou de filmes no Netflix, ou no Youtube, o computador irá apreender as minhas preferências, e irá me indicar algo do meu gosto. Você quer esse poder ao seu lado e, em breve, não será um computador, será um chip minúsculo. Eu acho que existem grandes benefícios para consumidores e para a sociedade ao ter processadores mais poderosos de inteligência artificial, mas precisamos ter certeza que seja feito em uma forma que traga benefícios.

 

NORDESTE: Nós já vivemos na Matrix?
Pepper: Ainda não. Mas, quem sabe? Talvez chegue esse dia. Eu amo o filme.

 

NORDESTE: Problemas para a saúde com as ondas de rádio, de wi-fi, etc?
Pepper: Com a internet não há problemas. Ondas ruins são as microondas, mas ondas de wi-fi, não tem problemas algum. 

Notícias relacionadas