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Brasil

01/03/2016


Zika vírus se espalha nas Américas e assusta continente. Confira histórico

REVISTA NORDESTE

Por Luan Matias

No dia 11 de fevereiro o Ministério da Saúde confirmou a terceira morte causada pelo zika vírus no Brasil. A vítima era um jovem de 20 anos do município de Serrinha, no Rio Grande do Norte. Embora ela tenha falecido em abril do ano passado, apenas agora os resultados dos testes confirmam a relação do óbito com a doença. A notícia surgiu exatamente no momento em que o tema tornou-se uma preocupação global. O primeiro falecimento registrado ocorreu em julho de 2015, no Maranhão.


No início do mês de fevereiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o zika vírus como emergência de saúde pública de importância internacional, termo utilizado quando a entidade considera a necessidade de ações coordenadas entre os países e analisar se a situação apresenta risco à saúde global. “A OMS tem que combater a propagação internacional da doença, causando o mínimo possível de danos à circulação de pessoas, de bens e mercadorias”, disse Deisy Ventura, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.


Transmitido pelo Aedes Aegypti, mosquito causador também do chikungunya e da dengue, o zika vírus costuma causar uma infecção leve, o que torna os três falecimentos de adultos casos excepcionais. Suspeita-se que sua entrada no Brasil ocorreu durante a Copa do Mundo de 2014, quando o país recebeu turistas de áreas tropicais atingidas de forma mais intensa pelo vírus, como alguns países da África e da Oceania. Até aí nada de alarmante, pois de certa forma esses problemas são comuns em ocasiões onde há um trânsito entre pessoas de vários continentes.


Entretanto, a presença do vírus ganhou as manchetes mundiais quando uma médica de Campina Grande, na Paraíba, suspeitou de uma associação entre a zika e aumento no número de casos de microcefalia, que é uma condição neurológica rara, ocorrida quando a cabeça e o cérebro da criança recém nascida são significativamente inferiores à média de 34 centímetros. Em cerca de 90% dos casos, essa condição provoca algum tipo de deficiência mental. O consumo de drogas durante a gestação, radiação ou infecções são os principais causadores da anomalia, que era rara, mas nos últimos meses se tornou frequente no país.
A suspeita de Adriana Melo, médica que trabalha na principal maternidade pública de Campina Grande, teve início quando ela se viu diante de algo novo e não teve respostas para oferecer às mães de dois bebês com microcefalia. “Eu nunca tinha visto casos de destruição do cérebro dos fetos com tamanha virulência”, destacou. Além disso, todas as pacientes conviveram com coceiras e manchas pelo corpo durante o início da gravidez, mesmas características de vários casos em Pernambuco. Adriana começou a encontrar um ponto comum entre os acontecimentos. Até então no Brasil o zika vírus era visto como uma versão mais leve da dengue.


A pedido de Adriana, as Secretarias de Saúde do estado e do município arcaram com as despesas para que as duas grávidas fossem examinadas em São Paulo, onde se encontrava um dos maiores especialistas em Medicina fetal, o israelense Gustavo Malinger. O médico confirmou a anormalidade dos casos e estranhou o fato do Brasil, com tantas notificações da doença, ainda não estar em busca da razão do problema.


A médica paraibana também solicitou exames feitos com o líquido amniótico de dois bebês com microcefalia. Três técnicas distintas foram utilizadas nos testes feitos no Laboratório Fiocruz, no Rio de Janeiro, e confirmaram que houve infecção por zika vírus durante a gestação. Poucos dias depois o Ministério da Saúde decretou emergência sanitária. Os casos de microcefalia vinham aumentando, sobretudo no Nordeste.

 

Zika vírus já atinge 33 países

As projeções para 2016 não são boas. “De acordo com as pesquisas e os prognósticos feitos por nós, entre fevereiro e março todos os mosquitos Aedes Aegypt poderão ter o vírus da zika. Atualmente, nem todo mosquito porta o vírus, mas com o passar do tempo vai ter a proliferação, caso não sejam tomadas medidas drásticas”, disse Adriana. 


O subdiretor-geral da OMS, David Heymann, recentemente disse não saber quanto tempo levará para que a teoria que relaciona o zika aos casos de microcefalia seja confirmada ou descartada. Apesar disso, os números são de fato alarmantes. Em 2014 o Brasil teve 147 casos de microcefalia. Em 2015, foram 2.975. Segundo a Fiocruz, este ano os registros poderão chegar a 16 mil. 


Foram esses dados que levaram a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, a considerar o zika vírus uma ameaça “de proporções alarmantes”. Já o diretor de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch, foi um pouco menos evasivo quando perguntado se a relação pode ser confirmada. “Quase. Ainda há uma pequena margem de dúvida”, disse.


A situação atual, quando há mais dúvidas do que respostas, tem levantado um questionamento de especialistas por todo o mundo. Na Colômbia, por exemplo, há 25.645 pessoas infectadas, entre elas 3.177 mulheres grávidas. O presidente Juan Manuel Santos declarou não haver nenhuma confirmação que alguns dos casos tenham sido causados pelo zika vírus. Na Venezuela há 5.221 casos suspeitos, dentre os quais 319 foram confirmados. No dia 11 de fevereiro, o presidente Nicolás Maduro anunciou três mortes no país. 


Já Paraguai, México, Bolívia, Panamá e Equador estão entre os países das Américas que já registram casos do vírus, embora nenhum deles tenham causado microcefalia. Em 2013, antes da chegada do vírus ao Brasil, a Polinésia Francesa, na Oceania, teve um surto do vírus e também investiga a má formação de bebês. 
Em comunicado,o governo do Estado do Havaí, nos Estados Unidos, confirmou que a mãe de um bebê nascido com microcefalia esteve no Brasil em maio de 2015 e contraiu a zika. De acordo com Departamento de Saúde do Havaí, não há registro de transmissão no arquipélago, embora seis pessoas tenham sido detectadas com a doença nos últimos dois anos – todas voltavam de viagens internacionais. Há alguns anos existem registros de pessoas infectadas com o vírus na América do Norte, sobretudo vindas da região do Pacífico. Apesar das autoridades americanos associarem a presença do vírus à pessoas que vieram de outros países, em dezembro um caso da doença foi registrado em Porto Rico, território americano no caribe. Especialistas temem que a trajetória da dengue se repita – chegou a Porto Rico, se espalhou pela Flórida e estados do sul do país.


De acordo com o boletim epidemiológico divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em fevereiro, o vírus já atinge 33 países na América, África e Ásia. Embora nos dois últimos continentes tenham registrado a doença desde a segunda metade da década de 2000, é a primeira vez desde que começou o surto nas Américas, em 2015, que eles voltam a registrar a zika. 


Sem garantias e informações oficiais, boatos continuam surgindo e se espalhando pelo mundo. Recentemente, ambientalistas espalharam a afirmação de que a utilização do larvicida Pyriproxifen, aprovado pela Anvisa para ser utilizado no tratamento de água potável, estaria por trás dos casos de microcefalia. O Grupo de Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), suposto autor da afirmação, veio a público negar o fato. “Não dissemos que o Pyriproxifen está associado à microcefalia. Foi um mal entedido.” 


A OMS divulgou um boletim desmentindo os diversos boatos que circularam nos últimos meses atrelando diferentes fatores à microcefalia. Segundo a organização, não há provas de que vacinas vencidas, inseticidas ou mosquitos transgênicos causem a má-formação, que vem afetando bebês brasileiros.

 

Total de Casos confirmados e investigados de microcefalia no Nordeste

(Até 20 de fevereiro de 2016) – * Fonte Ministério da Saúde

Pernambuco – 1.397

Bahia – 702

Paraíba – 499

Rio Grande do Norte – 351

Ceará – 289

Sergipe – 178

Maranhão – 165

Alagoas – 127

Piauí – 113

 

Linha do tempo

Julho de 2014 ▶ Provavelmente o vírus chegou ao Brasil trazido por turistas durante a Copa do Mundo

Fevereiro de 2015 ▶ Profissionais de saúde da Bahia suspeitam de “um novo tipo de dengue”, que provocava manchas vermelhas na pele.

Maio de 2015 ▶ Governo da Bahia confirma surto da doença causada pelo zika vírus.

Novembro de 2015 ▶ Após identificar 140 casos de microcefalia, Ministério da Saúde decreta estado de emergência em Pernambuco.

Novembro de 2015 ▶ No dia 12, a declaração do diretor do departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde chamou atenção nacional. “Não engravidem agora”, disse Cláudio Maierovitch. Um dia depois, o Ministério da Saúde negou a recomendação.

Novembro de 2015 ▶ Fiocruz divulgou o resultado de exames solicitados pela médica paraibana. A zika estava confirmada como principal hipótese para os casos de microcefalia.

Novembro de 2015 ▶ Dilma anuncia força-tarefa para decidir medidas para evitar que surto se espalhe. Surto já é tratado como epidemia.

Dezembro de 2015 ▶ Após resultados de exames feitos em Belém(PA), foi identificada a presença do zika no sangue e em tecidos de bebê com microcefalia.

Janeiro de 2016 ▶ Estados Unidos confirmam primeiro caso de microcefalia ligada ao zika.

Janeiro de 2016 ▶ Colômbia pede que casais evitem gravidez.

Fevereiro de 2016 ▶ OMS decreta situação de emergência de saúde pública de interesse internacional.  
 

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