Pernambuco

Paulo Câmara revela a reação de Pernambuco para superar a pandemia de Covid-19 e crítica “inércia e descaso” do Governo Federal

A edição de nº 172 da Revista NORDESTE está imperdível. Na reportagem de capa, entrevista exclusiva com o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), que revela a reação do Estado para superar e conter o avanço da Covid-19, e também sobre a preparação para o período pós-pandemia.

Na conversa com os jornalistas Walter Santos e Luciana Leão, Paulo Câmara também tece críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro (Sem partido). Ele relata a condução da política de saúde durante a pandemia, cita “inércia e descaso” com a saúde pública e com a vacinação da população.

A nova edição da NORDESTE já está disponível para leitura virtual, na íntegra, no site da Revista (www.revistanordeste.com.br) e também no Portal WSCOM.

Leia abaixo a entrevista de Paulo Câmara, na íntegra:

A ANÁLISE DA CONJUNTURA A EXIGIR MEDIDAS DE PERNAMBUCO PARA RESOLVER O PÓS-VÍRUS

Governador Paulo Câmara diz como encara realidade com altivez e crítica “inércia e descaso” do Governo Federal

Por Walter Santos e Luciana Leão

Em entrevista exclusiva à Revista Nordeste, o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, voltou a criticar a “inércia e descaso” concedidos pelo atual mandatário do País, em relação às ações de prevenção à Covid 19. Sem contar com o apoio político e estrutural do Governo Federal, Câmara e sua equipe impuseram um planejamento austero no combate à pandemia, mesmo com falta de recursos financeiros.

Com relação à política, o governador pernambucano se reservou a não falar sobre eventual candidatura em 2022, mas agradeceu à lembrança de seu nome colocado à mesa feita pelo deputado federal Rodrigo Maia (PFL-RJ). E afirmou que seu partido, o PSB, tem mantido boa convivência com o PT e já atuaram e continuarão juntos no enfrentamento crítico ao governo Bolsonaro.

Na economia, mesmo com as dificuldades impostas pela pandemia, Pernambuco vem mantendo o foco em atrair investimentos para o Estado e fortalecer sua presença no Consórcio Nordeste – que abrange todos os nove Estados da Região. Em curto e médio prazo, investimentos em infraestrutura no Sertão pernambucano e na Região Metropolitana do Recife estão no radar do atual governo. Para Câmara, uma das grandes obras na RMR será o Arco Metropolitano, considerado uma prioridade estratégica para melhoria da infraestrutura logística, que interferirá diretamente não só no desenvolvimento econômico do Estado, mas também nos campos social e ambiental, com impactos na qualidade dos transportes coletivo e individual e no escoamento da produção, além da sua extrema importância no ordenamento da expansão urbana.

Revista NORDESTE – A pandemia ainda está bem presente no Estado, mas a sua gestão tem imprimindo ações para minimizar os efeitos na economia. Administrar em fase de Covid, com presidente negacionista, o que representou para Pernambuco?

Paulo Câmara – Desde antes mesmo de a pandemia chegar a Pernambuco, nós já tínhamos conhecimento e iniciamos os preparativos para o enfrentamento. É claro que ninguém poderia prever a força com que essa doença se alastrou no mundo, e no Brasil não foi diferente. O que lamentamos é a inércia e o descaso com que o governo federal tratou a Covid-19 desde o início, negando-se a implementar medidas preventivas, campanhas educativas e outras ações que deveriam ter feito pelo país, e que nós fizemos aqui no Estado. Contamos, ainda, com o bom senso do Judiciário, que assegurou poderes aos Estados e municípios para implantar ações de combate à pandemia. Se tivéssemos que aguardar iniciativas do governo federal, a situação poderia estar bem mais difícil, a exemplo do que ocorreu com a demora na compra de vacinas, apesar das diversas ofertas feitas pelos laboratórios ao governo brasileiro, todas infelizmente recusadas ou proteladas, o que acabou retardando a campanha de imunização. Temos lutado muito para garantir que, aqui em Pernambuco, não falte vacina para cumprir todo o plano estadual de imunização.

NORDESTE – O senhor herdou a força política do ex-governador Eduardo Campos, sem o mesmo cenário de apoio do governo central a lhe exigir desempenho equivalente. Como é governar com menos e finanças reduzidas?

Paulo Câmara – Quando assumi o governo de Pernambuco, as obrigações constitucionais de transferência de recursos estavam sendo respeitadas, embora já não houvesse uma aproximação política entre as gestões. Com a crise econômica se agravando e a mudança de governantes, o cenário ficou mais difícil, os recursos federais foram reduzidos, nos exigindo muito mais organização e rigor no controle de gastos. E temos conseguido administrar bem e cumprir as metas estabelecidas para a nossa gestão. Além disso, realizamos um ajuste fiscal que nos garantiu autorização do Tesouro Nacional para ampliar a nossa capacidade de investimentos. Hoje, apesar do cenário adverso da pandemia em todo o País, nosso Estado tem conseguido atrair novos empreendimentos e reforços para os já existentes, assegurando a geração de mais empregos e renda para os pernambucanos.

NORDESTE – O PSB teve apoio fundamental do governo petista (Lula e Dilma). O que, avaliando a história, motivou o rompimento e o retorno da convivência para 2022?

Paulo Câmara – Quando Eduardo Campos assumiu o primeiro mandato, em 2007, contava com o apoio integral do governo do presidente Lula, e assim foi ao longo da maior parte da gestão, possibilitando um trabalho afinado entre o Estado e a União. Com a presidenta Dilma Rousseff, a situação tomou um rumo diferente a partir do momento em que o PSB discordou da condução da política econômica. Tentamos dar nossas contribuições para que alguns rumos fossem corrigidos, mas não houve receptividade e, então, o partido decidiu se afastar. Mas mesmo após o impeachment, nunca deixamos de dialogar com o PT. Mesmo quando estivemos em lados opostos nas disputas. Hoje, desarmados os palanques, os partidos mantêm uma boa convivência e atuam juntos, por exemplo, na busca de soluções para problemas sérios enfrentados pelo País, assim como na postura crítica ao governo Bolsonaro.

NORDESTE – O senhor, o ex-prefeito Geraldo Julio e o prefeito João Campos se traduzem na história política recente de Pernambuco. Quem será quem em 2022 e qual sua projeção de natureza política, de composição partidária?

Paulo Câmara – O País enfrenta uma crise sanitária séria e que demanda soluções urgentes. Por isso, seria impraticável estarmos agora pensando sobre 2022, em disputas eleitorais e rearrumações partidárias. Essa discussão deve acontecer no momento oportuno, que definitivamente não é agora, em meio à pandemia e a outras dificuldades enfrentadas pelo povo brasileiro. Seria até desrespeitoso tratar do assunto. É claro que, em Pernambuco, trabalhamos para manter a unidade que tem garantido, ao longo de todos esses anos, o sucesso das gestões socialistas. Mas não temos a preocupação de travar esse debate neste momento.

NORDESTE – O deputado federal Rodrigo Maia colocou seu nome para concorrer em 2022 à Presidência da República. Como o senhor recebeu essa notícia? Está em seus planos se candidatar nas próximas eleições. O senhor disputará o Senado?

Paulo Câmara – Como afirmei antes, o momento atual é muito difícil, estamos numa batalha pela preservação da vida das pessoas. Seria uma desatenção com elas abrir uma discussão agora sobre a disputa que só acontecerá daqui a mais de um ano. Fiquei muito honrado com a menção do meu nome pelo deputado Rodrigo Maia, a quem tenho grande apreço, mas no momento meus planos são de muito trabalho, na administração do Estado e no enfrentamento à pandemia do novo coronavírus.

NORDESTE – Recife já viveu o chavão “de Pernambuco para o mundo”. Quando isso voltará a existir?

Paulo Câmara – Pernambuco sempre foi um Estado de liderança regional e de presença marcante no cenário nacional. E se depender de nós, vai continuar sendo. Temos hoje um cenário bastante adverso no País, com a pandemia e a crise econômica. E, mesmo assim, nosso Estado tem conseguido se sobressair na atração de novos investimentos, na geração de emprego e renda, em setores como o do turismo – e a grande movimentação do nosso aeroporto e a retomada da procura pelos pacotes turísticos comprovam isso. Ao longo de mais de uma década, Pernambuco tem crescido de forma equilibrada e constante, graças ao trabalho que vimos realizando, e ao apoio fundamental do nosso povo, que é apaixonado pelo seu Estado.

NORDESTE – Qual o futuro de Pernambuco em meio a outras ações que elevam os investimentos nos outros estados? Quais projetos estruturadores estão por vir para o pós-pandemia?

Paulo Câmara – Nossa área de desenvolvimento econômico e atração de investimentos tem um mapeamento completo de Pernambuco, das culturas econômicas de cada região e das atividades que podem ser trabalhadas e fortalecidas, assim como da mão de obra disponível e apta a ser qualificada para atender à demanda das empresas que escolhem Pernambuco para fazer negócios. Nós temos total interesse em criar e fortalecer polos de desenvolvimento por todo o Estado, como já vimos fazendo, oferecendo contrapartidas, em termos de incentivos fiscais e de infraestrutura. Iniciativas em curso, como o próprio Arco Metropolitano, a triplicação da BR 232 no acesso ao Recife, a implantação da linha de transmissão de energia para o polo automotivo, a instalação do cabo submarino e dos data centers, entre outras, como os investimentos no aeroporto do Recife, têm tornado Pernambuco ainda mais atraente. E nós não suspendemos nosso trabalho de atração de novos investimentos por conta da pandemia. É claro que o ritmo diminuiu, até porque nós nos voltamos para um trabalho muito mais urgente e importante, de enfrentamento à crise sanitária e de preservação da vida das pernambucanas e pernambucanos. Mas seguimos atuando, da Região Metropolitana do Recife ao Sertão, seja levando novas fábricas para áreas consolidadas ou apresentando novas economias às cidades.

NORDESTE – Em sua visão, como os governantes do Nordeste podem imprimir uma política de coletividade para obter mais atração de investimentos para a Região?

Paulo Câmara – Nós já estamos unindo esforços nesse sentido, sobretudo depois que consolidamos o Consórcio Nordeste, que reuniu os nove governadores da região. Nosso objetivo principal é assinar contratos e fazer compras em conjunto, garantindo preços bem mais acessíveis. Mas também atuamos em outras frentes, inclusive políticas, assim como no enfrentamento à crise sanitária. Essa unidade dos governadores nordestinos tem assegurado uma força valorosa para dialogar com o governo federal, algo que nem sempre é fácil e tranquilo. Por meio dessa ação conjunta já garantimos dividendos para todos os Estados nordestinos, e seguimos conversando sempre sobre diversos interesses comuns. A atração de investimentos é um dos principais pontos da nossa pauta permanente, e é bom ressaltar que, mesmo neste cenário difícil de pandemia e crise econômica que estamos atravessando no País e no mundo, vários empreendimentos foram negociados e se instalaram no Nordeste. Em Pernambuco, para nossa satisfação, isso tem sido uma constante. Graças ao nosso empenho em buscar investidores, dialogar e negociar, temos várias empresas chegando ao Estado e outras reforçando empreendimentos já existentes aqui com novos investimentos, como foi o caso recente da Jeep, em Goiana, que praticamente dobrou sua aposta na planta local.

NORDESTE – Recentemente, seu governo deu início à requalificação de algumas rodovias importantes para melhorar o fluxo de escoamento da produção do gesso, no Araripe, e também no setor de vitivinicultura e de frutas no Sertão. Seria a região a bola da vez para maximizar a economia pernambucana?

Paulo Câmara – O Sertão pernambucano é uma região de alta produtividade, que precisa de suporte à infraestrutura para garantir que essa produção seja viabilizada e comercializada. Temos isso sempre em mente, e estamos dando prioridade a várias obras na área, como a requalificação da PE-576, entre Ipubi e Trindade. Vamos investir cerca de 38 milhões de reais nessa obra, e queremos rapidez na sua conclusão, porque sabemos da importância vital da rodovia para o escoamento do gesso do Araripe pernambucano, que é responsável por 95% da produção desse insumo no País, matéria-prima básica para a construção civil. Essa estrada ainda vai beneficiar outras cadeias produtivas fortes da região, como bovinos, ovinos e caprinos, apicultura e mandioca. Da mesma forma, iniciamos requalificações nas PEs 574 e 550, ambas no Sertão do São Francisco, com investimentos de quase 59 milhões de reais. São estradas que cortam cidades importantes, como Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, polos fortes de produção da fruticultura irrigada, vitivinicultura, ovinos, caprinos e peixes. Outras estradas no Sertão estão sendo beneficiadas com ações como essas, a exemplo da reconstrução asfáltica na PE 635, em Afrânio e Dormentes, PE 337, em Flores, PE 275 e PE 265, em Sertânia, e a VPE 674, no acesso a Lagoa do Barro, em Araripina. Todas essas ações fazem parte do Programa Caminhos de Pernambuco, que lançamos em 2019 com o objetivo de reestruturar mais de cinco mil quilômetros da malha viária estadual, com uma estimativa de investimento de 505 milhões de reais.

NORDESTE- Na Região Metropolitana ainda existem alguns gargalos principalmente os que se referem à mobilidade urbana. A fase 1 do Arco Metropolitano, importante projeto logístico e de mobilidade, definitivamente sairá?

Paulo Câmara – A Região Metropolitana do Recife tem, de longe, a maior concentração demográfica do Estado, e é nela que se concentra a maioria das nossas indústrias. Por isso, demanda uma maior atenção quanto à mobilidade. A questão do Arco Metropolitano é uma prioridade estratégica para melhoria dessa infraestrutura logística, que interferirá diretamente não só no desenvolvimento econômico do Estado, mas também nos campos social e ambiental, com impactos na qualidade dos transportes coletivo e individual e no escoamento da produção, além da sua extrema importância no ordenamento da expansão urbana. Por tudo isso, nós optamos por dispensar os estudos anteriores e começar do zero, exatamente para podermos pensar e planejar de forma conjunta os pilares econômico, social e ambiental, ouvir mais pontos de vista e reduzir impactos. Iniciamos o planejamento do traçado norte, um trecho de aproximadamente 50 quilômetros entre a BR-408, em Paudalho, e a BR-101 Norte, em Goiana, ouvindo os mais diversos setores para aperfeiçoar a obra e definir o melhor traçado, pensando sempre no futuro.

NORDESTE – Quais impactos no futuro para a obra? Existem algumas resistências de movimentos ambientalistas. Como o governo vem tentando adequar às solicitações?

Paulo Câmara – Como expliquei, decidimos zerar o processo, retomar os estudos e abrir novos canais de diálogo com todos os setores envolvidos, para garantir os menores impactos possíveis. O Governo de Pernambuco não vai tomar nenhuma decisão sobre o projeto de forma individual ou unilateral. É preciso que o Arco Metropolitano seja muito bem dialogado e construído com a sociedade. Esta semana, por exemplo, fizemos uma série de conversas com representantes da sociedade civil, coordenadas pelas secretarias de Desenvolvimento Econômico, de Infraestrutura e Recursos Hídricos, de Meio Ambiente e Sustentabilidade e de Desenvolvimento Urbano e Habitação. Queremos esclarecer os questionamentos sobre o traçado e detalhar as próximas etapas. Já conversamos também com conselheiros da Área de Proteção Ambiental Aldeia-Beberibe, com reitores das principais universidades do Estado e com a Assembleia Legislativa. A AD Diper já deflagrou o processo de contratação de uma empresa especializada, que vai fazer os levantamentos necessários sobre possíveis impactos socioeconômicos e ambientais, elaborar o anteprojeto de engenharia e o plano de desenvolvimento territorial. A ideia é construir alternativas para o novo traçado a partir da análise das soluções mais viáveis, que congreguem as necessidades técnicas, ambientais e econômicas.

NORDESTE- Temos informações de que a chegada do Outlet em Moreno pode atrair para a área um novo polo de desenvolvimento da economia. Que, inclusive, a Tramontina estaria montando uma segunda indústria aqui, próxima ao Outlet. O senhor confirma?

Paulo Câmara – A inauguração do Recife Outlet foi, sem dúvida, um passo importantíssimo para o desenvolvimento não apenas da cidade de Moreno, mas de toda uma área da Região Metropolitana. São vários empreendimentos de renome reunidos num só lugar, capazes de atrair consumidores de todo o Estado e também de Estados vizinhos. É claro que o equipamento valorizou bastante a área e a tornou ainda mais atraente para outros eventuais investidores. Mas as negociações com empresas que desejam vir para o Estado são conduzidas com empenho e cuidado pela nossa equipe de Desenvolvimento Econômico, e no momento oportuno, com os acordos consolidados, é que devem ser anunciadas.

 


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