Nordeste

Revista NORDESTE: Artigo destaca o exemplo do Japão na reconstrução do país pós-segunda guerra

07/07/2020


Japão no período pós-guerra

Já está em circulação a edição de número 161 da Revista NORDESTE. Entre as matérias e artigos publicados, uma análise minuciosa de contexto histórico, sobre o sucesso na reconstrução do Japão, nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Quem assina é o economista, professor e ex-reitor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Rômulo Polari.

Leia na íntegra:

O JAPÃO PÓS-GUERRA: UM SUCESSO DE RECONSTRUÇÃO

País líder e de importância no Oriente saiu da Guerra apontando, não um Plano de recuperação mas novo programa de desenvolvimento

Por RÔMULO SOARES POLARI

O Japão foi um dos países mais prejudicados na 2ª Guerra Mundial. Sua infraestrutura e economia foram destruídas. A sua derrota se deu em 14.08.1945, após sofrer dois ataques nucleares dos EUA: Hiroshima (6 de agosto) e Nagasaki (de 9 de agosto). A rendição foi assinada em 2 de setembro de 1945. A Guerra matou 2 milhões de japoneses e deixou 4 milhões feridos. O seu PIB caiu quase 50%, no período 1943-46.

Nos termos da Declaração de Potsdam, os EUA ocuparam o Japão, sob a direção do general Douglas MacArthur, de 1945 a 1951. Nesses anos, o país deixou de ter forças armadas e indústria bélica. Houve avanços organizacionais: reforma agrária (1946) transformando 70% dos camponeses em proprietários rurais; uma nova Constituição, com parlamentarismo (1947), e dissolução dos grandes trustes empresariais.

Em 1951 o Japão saiu da submissão plena aos EUA (Tratado de Paz de São Francisco) e, no ano seguinte, passou a ser seu aliado. Havia razões essenciais: o começo da Guerra Fria (1947), a vitória comunista na China (1949), início da Guerra da Coreia (1950) e a ameaça de ocupação militar da URSS de território japonês. Assim, em função de seus interesses na Ásia, os EUA tornaram-se parceiros na reconstrução econômica japonesa.

A partir de 1952, o Japão entrou num vigoroso processo de superação do caos deixado pela Guerra. Três forças fortes foram primordiais: a) apoio político, militar, financeiro e de crédito dos EUA, b) atuação do governo no planejamento e fomento ao desenvolvimento baseado no domínio tecnológico, produtividade, modernização infraestrutura e da produção e c) prioridade à educação pública de qualidade para todos.

Reprodução: Revista NORDESTE

Para comandar a recuperação econômica, o Japão criou o Ministério do Comércio Internacional e Indústria (MCII). Os pontos altos foram as políticas de eficiência produtiva do setor privado, estímulos públicos à importação de tecnologia e financiamento subsidiado de longo prazo aos investimentos empresariais. Para tanto, foi criado pelo MCII, em 1951, o Banco do Desenvolvimento do Japão (BDJ).

Os resultados foram excelentes. A maciça importação de tecnologia, a baixo custo, acelerou a expansão industrial, com mais produtividade e qualidade. As inovações viabilizaram novas práticas de gerência e racionalização de processos. O fordismo cedeu lugar ao Toyotismo, nascido na fábrica japonesa de carros Toyota. Esse método de  organização da produção e do trabalho aumentou a eficiência dos meios disponíveis.

Com sua gigantesca base financeira operacional, o BDJ pôs em prática o Plano de Crédito e Investimento Fiscal. O que permitiu o governo agir com eficiência e rapidez na expansão modernizadora da infraestrutura, com impactos positivos à produtividade social sistêmica, à dinâmica econômica e ao bem-estar social: rodovias, ferrovias de alta velocidade, metrôs, aeroportos, telecomunicações, portos, etc.

O Japão não teve um plano de recuperação, mas sim de desenvolvimento nacional. Até o ano de 1960, reconstruiu sua economia, com uma complexa estrutura técnico-produtiva. Nos anos 1955-65, a década de ouro e milagre econômico japonês, o seu  PIB cresceu mais de 11% a.a. Na sequência, até os anos de 1990, passou a ser detentor da segunda maior economia do mundo e de um alto padrão científico-tecnológico.

A expansão do PIB japonês foi excepcional: 1952-73, 9,3% a.a. e 1973-91, 4,1 % a.a, sob efeitos da crise do petróleo. A década de 1990 foi perdida, com impactos do estouro da bolha financeira-imobiliária do Japão (1991) e da crise financeira asiática (1997). Em 2010, a economia chinesa passou a ser segunda maior do mundo, e a japonesa a terceira.

Atualmente, o modelo japonês, em análise, que ensina muito ao Brasil, não se aplica aos EUA, Alemanha, Inglaterra …, e ao próprio Japão. Esses países já são desenvolvidos e têm novos problemas básicos específicos para se manterem líderes. A solução requer reinvenção, no sentido da adequação ao mundo da globalização econômico-financeira e da sociedade do conhecimento, na Quarta Revolução Industrial.

O Brasil enfrenta uma forte recessão econômica, assim como muitos países. Isso não se deve às contradições do capitalismo (Marx), inconsistências que geram subinvestimento (Keynes), ou estouro de bolhas de crédito, financeira, etc. As causas vêm da pandemia COVID-19. Nosso país deve se inspirar no Japão pós-guerra, com ações de recuperação integradas a um plano de desenvolvimento nacional de curto, médio e longo prazo.

Os objetivos desse plano para o Brasil devem ser: a) recuperar acúmulos (2015-20) de 14% de queda do PIB e 40% de capacidade ociosa, b) modernizar os serviços básicos e infraestrutura; c) universalizar a educação de qualidade; d) ter um domínio científico-tecnológico relevante; e) concretizar o desenvolvimento socioeconômico do Nordeste.

O plano Brasil de recuperação-desenvolvimento deve ter muitas ações conjuntas Estado-iniciativa privada. Isso não significa desvarios fiscal, monetário e cambial. Há pelo menos dois caminhos inovadores: a) parcerias público-privadas de investimentos em infraestrutura, ciência e tecnologia que elevem a produtividade social e privada e b) financiamento dessas ações pelos grandes bancos oficiais às empresas e aos governos.

Os projetos desenvolvimentistas têm que ser bem dotados, quanto ao conteúdo técnico, eficiência e exequibilidade dos objetivos. As empresas privadas seriam titulares dos financiamentos, com parte estatal. Não haveria desequilíbrio da situação fiscal, com tais participações. Os governos teriam dívidas juntos aos bancos equivalentes aos aumentos de patrimônio, de acordo com os cronogramas de execução das ações projetadas.

O papel do governo será fundamental nessa refundação do Brasil. Os bancos públicos (BNDES, BB, CEF, BNB, BASA) serão tão importantes quanto o BDJ foi no Japão. As parcerias público-privadas serão as forças fortes do desenvolvimento. É um grande equívoco pensar que a reconstrução econômica do país virá da automotivação nacionalista da iniciativa privada, guiada apenas pela dita racionalidade dos mercados.


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