Nordeste

Revista NORDESTE expõe trajetória, obra e protagonismo do educador Paulo Freire, cujo centenário é celebrado em 2021

A nova edição da Revista NORDESTE, de número 169, está disponível nas bancas e também para leitura no modo virtual (CLIQUE AQUI para acessar). Uma das matérias de maior repercussão é sobre o centenário do educador pernambucano, Paulo Freire, hoje, cidadão do mundo, que dedicou a maior parte da sua vida a combater pela educação dos excluídos da educação sistemática, contra a educação excludente e elitista. O texto é assinado pelo professor paraibano Afonso Scocuglia.

Leia na ìntegra:

QUEM FOI O REVOLUCIONÁRIO DA EDUCAÇÃO MUNDIAL

Trajetória, obra e protagonismo de um educador mundial:
Paulo Freire, 100 anos!

Afonso Celso Scocuglia

Paulo Freire (1921-1997) foi um pernambucano, advogado de formação, católico progressista e, hoje, cidadão do mundo, que dedicou a maior parte da sua vida a combater pela educação dos excluídos da educação sistemática, contra a educação excludente e elitista. Realizou uma vasta obra, composta por dezenas de livros , além de textos, artigos, seminários, conferências etc. Influenciou grande número de educadores e pesquisadores em todo o mundo, constando catalogadas milhares de publicações que têm as suas ideias e a prática delas, como referência direta.

Nos anos 1960, em pleno vigor do populismo e do nacional-desenvolvimentismo, como integrante do Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife, elaborou uma proposta de alfabetização para os adultos das camadas populares que partia do seu “universo vocabular” e do cotidiano de seus problemas, para gerar palavras, sons, sílabas, fonemas e, com elas, ensinar a ler e escrever em pouco tempo. Essa metodologia pretendia ser rápida, moderna e barata e, em quarenta horas, alfabetizar os adultos que, assim, poderiam “ler melhor o mundo” e, inclusive, adquirir o direito ao voto. O que ficou conhecido como “Método Paulo Freire” empolgou toda uma geração de professores, estudantes, intelectuais, artistas, além de integrantes das chamadas forças “progressistas”, “de esquerda” que apostaram na possibilidade de “elevar culturalmente as massas” e de vencer eleições locais e nacionais. Convocado pelo governo federal e motivado por dezenas de movimentos de cultura e educação popular, Freire foi coordenar o Plano Nacional de Alfabetização (PNA) no segundo semestre de 1963. Esse Plano previa a alfabetização de centenas de milhares de brasileiros em 1964 através da formação de 20.000 “círculos de cultura”. Na prática, se realizado o PNA, o contingente eleitoral seria aumentado significativamente, já com vistas às eleições gerais de 1965. Os setores progressistas e de esquerda apostaram todas as suas fichas no PNA, inclusive Goulart, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e setores da igreja católica. Os conservadores, antipopulistas e a forças de direita, civis e militares, sentiram ameaçadas suas posições e privilégios e, assim, reagiram. Após o golpe civil-militar de abril de 1964, o PNA e as entidades que utilizavam o “Método” foram extintas. Freire ficou preso no IV Exército – Recife mais de setenta dias, exilando-se a seguir, mesmo a contragosto. Sua volta foi permitida com a Anistia (1979) aos presos e exilados políticos do Estado militar.

Nos quinze anos de exílio (1964-1979), o trabalho prático e teórico de Freire avolumou-se, ganhou densidade e foi disseminado com tal vigor pelo mundo que seu principal livro (Pedagogia do oprimido, 1984b) encontra-se traduzido em dezenas de idiomas. Este livro que, junto com Educação como prática da liberdade (1984a), compõe o que podemos de chamar o “primeiro” Paulo Freire , foi escrito no Chile (quatro primeiros anos de exílio) quando este assessorava a entidade governamental (da Democracia Cristã) executora da reforma agrária (ao lado de Jacques Chancholl que, depois, foi ministro de Salvador Allende). Se Educação como prática da liberdade representa uma das suas primeiras reflexões e sistematizações teóricas sobre os acontecimentos relativos à alfabetização brasileira dos anos pré-1964, Pedagogia do oprimido constitui um avanço na direção da formulação de uma pedagogia nutrida dos valores, das necessidades, dos interesses emancipatórios dos subalternos, dos oprimidos. Freire dizia que se os opressores fazem sua pedagogia no próprio processo de dominação, os oprimidos precisam formular sua pedagogia, sua resistência, na própria luta por emancipar-se. Como se pode notar, a educação e a pedagogia, para Freire, sempre estiveram carregados de uma politicidade, ou seja, a prática educativa e a reflexão sobre essa prática constituíam atos políticos: de escolha, de decisão, de luta entre contrários, de conquista da cidadania negada.

No final dos 1960, Freire passou quase um ano trabalhando na Universidade de Harvard (EUA), lá escrevendo um dos seus livros mais importantes: Ação cultural para a liberdade e outros escritos (1984c). Neste livro, revê alguns conceitos iniciais e, de maneira crescente, aproxima-se de pensadores e conceitos marxistas. A “conscientização”, inseparável da alfabetização desde o início de suas proposições, cede espaço à formulação de uma educação que, como “ação cultural”, contribua para a difícil formação da “consciência de classe” dos subalternos sociais.
Na sequência, durante quase toda a década de 1970, Freire destacou-se no Departamento de Educação do Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra (Suíça). Com outros exilados, formou o Instituto de Ação Cultural (IDAC) que, entre suas diversas atividades, colaborou durante anos com governos de países africanos recém-libertos da colonização, como a Guiné-Bissau. De sua correspondência com os líderes guineenses veio à tona um dos seus livros mais importantes: Cartas à Guiné Bissau (1980b).

Reprodução: Revista NORDESTE

Enquanto isso, no Brasil, se processava a abertura “lenta e gradual” do Estado Militar. No final dos setenta, ainda exilado, Freire participa da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), embora posteriormente se distanciasse de vários integrantes do Partido.
No início da década de 1980, retoma suas atividades no Brasil, como professor da PUC-SP e da Unicamp. Orienta trabalhos, faz numerosas conferências, recebe títulos de Doutor Honoris Causa de várias das principais Universidades, mundo afora, assessora prefeituras e projetos. Segundo ele, estava “reaprendendo o Brasil”. Nesta década escreve vários livros dialógicos com outros intelectuais e, entre outros, destacamos: com Moacir Gadotti e Sergio Guimarães (Pedagogia: diálogo e conflito, 1985a); com Ira Shor (Medo e ousadia – O cotidiano do professor, 1987a); com Frei Betto (Essa escola chamada vida, 1986b); com Antonio Faúndez (Por uma pedagogia da pergunta, 1985b). Além desses, publica A Importância do ato de ler (1982) e participa de seminários, simpósios, congressos, no Brasil e no exterior.

No final dos anos oitenta, assume a Secretaria de Educação no governo da cidade de São Paulo na Gestão Luiza Erundina (do Partido dos Trabalhadores), iniciando a reformulação do ensino municipal e valorizando o magistério com a formação continuada e salários dignos. Com sua equipe, empreende sua principal meta: tornar a escola municipal democrática, em todos as suas instâncias – com seus conselhos deliberativos, sua gestão coletiva, na revisão dos currículos, na interação dos trabalhadores da educação com os alunos e suas famílias, na alfabetização dos adultos. Após dois anos de secretariado, Paulo Freire renunciou ao cargo, mas, no entanto, as diretrizes de sua gestão continuaram através do trabalho de toda a equipe (que permaneceu após sua renúncia).

No início dos 1990, Freire publica o que, a meu ver, constitui uma das suas mais importantes reflexões enquanto pensador da educação. Nos textos reunidos em Política e educação (1993), sobressaem as marcas do antidogmatismo de um intelectual disposto, a se repensar, a “não se congelar em qualquer postura determinista” ou doutrinária. Enfatizando a crescente importância da educação para a autonomia e a esperança – no início de um século marcado por niilismos tão convidativos, por um pessimismo avassalador sobre o futuro fundado nas múltiplas faces de uma globalização excludente e predadora –, Freire advoga a (re)humanização dos homens e das mulheres pelo caminho que eles/elas criaram para “serem mais humanos”: a educação e sua parte sistemática, a escola. Dessas ideias surgem Pedagogia da esperança; um reencontro com a Pedagogia do oprimido (1992) e Pedagogia da autonomia (1996).
As análises sobre grande parte da sua obra estão disponíveis nos 30 vídeos que produzimos recentemente para a TVUFPB no Programa Paulo Freire Vivo (www.youtube.com/playlist?list=PLGshD_YWCkUQg6cIbeo_BvZpDqpuDlwTK).

Assim, foi em torno da luta por fazer da educação “uma prática da liberdade”, um processo de “conscientização pelo diálogo”, uma “ação cultural” em defesa dos oprimidos, um exercício do “direito ao conhecimento” e um processo de “ser mais” dos homens e das mulheres, que Paulo Freire construiu sua história e influenciou outras tantas histórias de vida.

Certamente, o legado, o exemplo, a postura, a práxis ética e democrática, a produção incessante e a atualidade do seu pensamento, a esperança e a utopia militante, as dezenas de livros, artigos, conferências, orientações, palestras… deverão continuar a batalha por um outro Brasil e um outro mundo onde as camadas sociais historicamente excluídas, finalmente, tenham seus direitos fundamentais respeitados e, mais do que isso, conquistados. Talvez essa batalha dê maiores frutos quando o país “estiver repleto de marchas” dos “sem-educação” e dos “sem (expulsos da) escola”, como sonhou Paulo Freire.

No geral, sua produção escrita (1958/1997) – que tem como eixo principal a educação popular e, progressivamente, a inseparabilidade entre educação e política -, hoje continua a ser revelada em livros póstumos. Se registrarmos esse tempo, além dos 40 anos que nos referimos antes, teremos mais 20 anos de publicações. Podemos contar mais de 60 anos de escritos de Paulo Freire, somando as publicações póstumas! Essa produção está focalizada no nosso livro A história das ideias de Paulo Freire e atual crise de paradigmas (disponível em www.editora.ufpb.br/sistema/press5/index.php/UFPB/catalog/book/138).

A intensidade e o volume dessa trajetória intelectual é mostrada hoje, por exemplo, no Dicionário Paulo Freire (4ª. edição, 2018) que caminha para os seus 300 verbetes, a partir dos trabalhos de mais 100 pesquisadores! Também pode ser mostrada por meio do amálgama teórico que Freire utilizou, retratada nas contribuições de dezenas de estudiosos em Paulo Freire: uma arqueologia bibliográfica (2019). Exposta em Paulo Freire: uma bibliografia (1996), continua a ser explorada, a exemplo do livro The Wiley Handbook of Paulo Freire (2019) construído por pesquisadores de várias partes do mundo.

Com efeito, isso faz com que o Paulo Freire seja considerado atualmente um dos educadores e um dos propositores da pedagogia mais importantes do século XX, sendo corroborado pelo número grande de citações a sua obra. Terceiro autor mais citado das ciências humanas/sociais! Sabemos que a sua obra Pedagogia do oprimido (1984b) é uma das 100 obras mais citadas em língua inglesa. Ademais, Paulo Freire foi reconhecido com dezenas de títulos doutor honoris causa por importantes universidades! Sua obra é traduzida em vários idiomas. Está disseminada praticamente em todos os continentes e seu legado tem uma importância reconhecida e vigorosa em pleno século XXI. Continua viva, aos 100 anos do seu autor, nos trabalhos práticos e teóricos de educadoras e educadores em todos os continentes da Terra.

 


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