Brasil

Roberto Carlos, 80 anos, um case de marketing sem igual na mpb

       por Gil Sabino

 

     Somos de uma geração que cresceu acompanhando a carreira artística de Roberto Carlos, ou melhor, o Rei Roberto Carlos, da música popular brasileira. Sem dúvida, um artista raro, que conseguiu ultrapassar mais de sessenta anos em vida profissional ativa, e com registro de sucesso.

Sua carreira começa lá no início dos anos 60 e logo é oxigenada pelo movimento da Jovem Guarda que mantinha um programa musical de televisão que reunia a geração pop da época, durante a ditadura militar. Época, diga-se de passagem, marcada também pelos grandes festivais ao vivo, da música popular brasileira, que projetaram grandes nomes como Geraldo Vandré, Chico Buarque, Jair Rodrigues, Elis Regina, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão, Milton Nascimento, MPB4, e muito outros.

A partir da Jovem Guarda, Roberto Carlos passa a lançar moda (calhambeque – calças, anéis, bottons – Era uma espécie de James Dean, o ator americano…), gestos, gírias, expressões (“é uma brasa, mora”?! – “bicho”…), e ser vanguarda, sendo talvez o primeiro grande mito da música popular a usar de um comportamento dentro dos padrões de interesse do capitalismo para o marketing, publicidade e negócios para o consumo de massas. Mais, é ele um case raro na MPB, ou na musica do mundo, a passar tanto tempo nas paradas musicais. Nem Elvis Presley, Frank Sinatra, os Beatles, Madonna ou Michael Jackson, conseguiram emplacar tanto tempo, como Roberto Carlos, tocando em rádios, televisão, internet e outros meios de comunicação, ponta a ponta do Brasil e do mundo.

A marca Roberto Carlos passa por nossa vida afetiva, nossas emoções de alegria, tristeza, e outras, que veem marcadas por músicas de um tempo em que vivemos nossos melhores momentos (namoro, casamento, aniversários, comemorações, lembranças mil…) “Quero que vá tudo pro Inferno, Jesus Cristo, Detalhes, Emoções, Esse Cara Sou Eu” e muito outras canções, a maioria em parceria com o grande compositor Erasmo Carlos, o Amigo do Rei.    

A primeira vez que vi Roberto Carlos, foi na chegada para um show no antigo ginásio do Astréa, ali ao lado da TV Cabo Branco. Lembro bem, porque sem grana pra comprar ingresso, subi no muro de uma casa para vê-lo na entrada. Ele, cabelo comprido, cacheado, vestindo uma camiseta com uma enorme estrela pintada, desce de um automóvel marca Chevrolet Impala, acena com as mãos para os fãs do lado de fora, e segue para o camarim… De longe, escutamos cantar seus sucessos acompanhado pelo RC7, e o lançamento “Jesus Cristo”. Era tudo.

Anos depois, convidado pela gravadora CBS/Sony Music, que representei durante algum tempo em Recife, fui assistir no Canecão, Rio de Janeiro, num Dia das Mães, a final de uma das temporadas do Rei, e em seguida cumprimenta-lo no camarim. Um honra indizível. Lá, conversando com ele, o Rei e sua simplicidade, sua humildade e sua contagiante energia, pude dizer da alegria de estar ali, ao seu lado, e representando-o para divulgação de discos, depois de tanto tempo em que nem ingresso podia comprar para assistir a um show seu… Ele sorriu!

Durante anos, os discos de vinil em formato Long-Play foram a mídia de presente de fim de ano de todos os brasileiros. Lembro bem de ver carretas e mais carretas lotadas de cargas de discos do Rei, para lançamento simultâneo em todo o país. Geralmente uma semana antes do Natal, todas as lojas do país, e emissoras de rádio, tocando os novos sucessos instantâneos do Rei, e o movimento enorme nas lojas de discos para adquirir cada um consumidor a sua cópia. Eram milhares de discos vendidos, e o artista logo contemplado pela conquista de mais um disco de ouro, ou platina, símbolo maior de vendas no mercado. Depois dele, anos depois, só a Xuxa começaria a disputar mercado com vendas superiores a 500 mil cópias…

A TV Globo também o manteve sob contrato por mais de trinta anos, lançando a seguidamente o Especial de Natal, uma noite de festa para os brasileiros comemorarem em família. Roberto Carlos cantando seus grandes sucessos em grande estilo, sempre acompanhado pelo RC7, e o maestro Eduardo Lajes e Orquestra. Depois, Roberto Carlos e Convidados, apresentando sempre os destaque da nova música naquele ano, e os artistas que passaram a regravar seus sucessos em novas versões como Titãs, Simone, Marisa Monte, Ivete Sangalo, Paula Fernandes, Skanc, Jota Quest e outros…

A vida de Roberto Carlos, marcada pelo destino de ser um Rei, vem de Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, 401 km até o Rio de Janeiro. Essa longa estrada e caminhada que passa marcada, contando por nossas gerações, nossas vidas, comemora hoje 80 anos. Valeu Roberto ! E todos cantamos PARABÉNS AO REI.


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