Ceará

Católicos relembram história da beata Maria de Araújo, do caso em que hóstia virou sangue em missa de Padre Cícero, no Ceará

Beata Maria de Araújo virou símbolo do catolicismo no Cariri ao protagonizar suposto milagre da hóstia que se transformou em sangue na boca dela, ao receber a comunhão dada pelo Padre Cícero.

 

Devotos comemoraram nesta terça-feira (24) o aniversário da beata Maria de Araújo, no Cariri do Ceará. Ela foi protagonista do episódio que ficou conhecido como o primeiro milagre de Padre Cícero, quando uma hóstia teria se transformado em sangue na boca dela, ao receber a comunhão feita pelo religioso.

 

No Crato, na Praça da Sé, fiéis se reuniram para celebrar a data e também para falar sobre a luta pela reabilitação da memória da beata.

“Durante muito tempo ela foi silenciada e o objetivo deste movimento é trazer à tona e ao conhecimento das pessoas, a memória e o protagonismo dela nos fenômenos de Juazeiro”, explica a professora Claudia Rejanne Grangeiro.

 

No município vizinho, a Secretaria de Cultura de Juazeiro do Norte realizou o lançamento da quinta edição do livro “Poemas para Maria”, no Largo do Socorro. A programação contou com várias apresentações culturais.

“A gente rememora essa data para poder tentar reabilitar a memória desta mulher que foi esquecida, foi violentada, e que teve uma tentativa de esquecimento, de apagamento da sua história. Para tentar reabilitar a memória afetiva, histórica e também devocional da beata”, cita o diretor de Patrimônio Histórico e Cultural de Juazeiro do Norte, Roberto Viana.

História da beata

De acordo com pesquisas, ela nasceu no povoado de Joaseiro, no Crato, que depois viria a se transformar em Juazeiro do Norte. Era uma menina pobre, negra, analfabeta, filha de negros e que desde cedo tinha visões.

Registrada como Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo, ela foi o braço direito do fundador de Juazeiro do Norte. Em 1889, a beata recebeu das mãos do Padre Cícero a hóstia que teria se transformado em sangue na boca dela. Esse fenômeno teria se repetido durante dois anos. E as primeiras romarias surgiram por conta desse milagre, em homenagem à beata.

Após sua morte, o Padre Cícero teria mandado sepultá-la dentro da capela do Socorro, mas o túmulo foi violado. Pesquisadores relatam que o fato teria acontecido enquanto a capela passava por reforma. Ao lado de onde está sepultado o corpo do Padre Cícero existe um túmulo simbólico da beata para que devotos possam prestar homenagens. Até hoje, não se sabe o que aconteceu com o corpo de Maria de Araújo.

Divergência de datas

A data do nascimento da beata ainda é uma incógnita para os pesquisadores. “Não existe um documento que mostre qual foi a data em que ela nasceu. O que nós temos é uma referência de Irineu Pinheiro, no livro Efemérides do Cariri, em que ele cita a data 24 de maio de 1862. E segundo ele, baseado em documentos de José Lobo, que era um amigo do Padre Cícero.” afirma Fátima Pinho.

Após várias pesquisas em livros paroquiais, a historiadora não conseguiu encontrar na década de 1860, o registro de nascimento da beata, mas achou o registro de batismo de 9 irmãos dela. Outra coisa interessante na pesquisa, é uma página rasgada, de um livro de batismo de maio de 1861, onde se levanta a hipótese de que seja o registro do nascimento da beata, que teria sido feito na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha.

Nesses registros, só é possível ver rasuras nas páginas entre 23 e 25 maio, um fato que aumenta a possibilidade de que o registro tenha sido removido. Mas não há como precisar essa informação. Ainda de acordo com a historiadora, a data mais provável para o nascimento da beata é 24 de maio de 1861.

Reabilitação da memória

Em Juazeiro do Norte existe uma lei de 2021 que torna obrigatório o uso da imagem da beata Maria de Araújo em todos os espaços de repartições públicas onde já existem as imagens do Padre Cícero. Uma representação dos dois juntos e com as mesmas dimensões nas fotos.

Mas quem busca a reabilitação da beata ainda faz inúmeras perguntas:

“Por que não se fala dela? Por que o seu túmulo foi violado? Que poderes podem ter sido contestados com o sangue que jorrou no seu corpo e com a sua veneração como santa pelo povo? Por que fenômenos semelhantes ocorridos na Europa são considerados milagres ecumênicos pela igreja e o ocorrido em Juazeiro foi tão duramente combatido e reprimido? Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo: onde está ela? Saber onde está Maria de Araújo é questão fundamental para a nossa história, memória e para a identidade da nossa região”, são exemplos dos questionamentos, conforme expostos pela professora Claudia Rejanne Grangeiro.

 

g1ce


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