BRASIL

A falta que faz uma ovelha negra, por José Natal

Há quem diga que o criador, bem que poderia dar um freio de arrumação nessa acelerada leva de vidas que nos importa, nos afeta e emociona.
Muito triste essa sequência de perdas ao nosso redor. Essa de agora, levando Rita Lee, e com ela toda uma sequência de talento, sensibilidade, coragem e bagagem cultural doeu fundo.

 

 

A roqueira rebelde, que passou pela vida como um furacão por mais de seis décadas, se despede deixando um legado invejável de eloquente sensibilidade na abordagem de temas sociais como machismo, racismo, homofobia e violência. Tudo isso com uma sequência fantástica de cenas explícitas de carisma, ironia, bom humor e um inigualável senso crítico. Mordaz.

 

A cantora, compositora e atriz Rita Lee, como já foi dito, ainda muito jovem se revelou personalidade muito à frente do seu tempo. Para os costumes de um País machista e preconceituoso como o nosso, suas atitudes de vanguarda muito cedo se revelaram.

 

 

Corajosa, sem ser grosseira, feminista sem o clichê demagógico de grande parte de integrantes desses movimentos, Rita Lee talvez tenha sido, até hoje, a única mulher dos tempos atuais a enfrentar com talento ímpar o deselegante domínio masculino.

 

 

Seu cartão de crédito, ao contrário do colega poeta, nunca foi uma navalha. E sempre que chamada aos debates, festivos ou não, declinou ficar de fora estacionando os carros. Protestou com uma sutil e convincente leveza, criando versos deliciosamente cirúrgicos, de fácil entendimento.

 

 

Diretos e concisos, recados tipo papo reto, como dizem hoje os de menos de 30. Dispensável aqui citar e analisar as milhares de mensagens enviadas pelas músicas e letras que faziam críticas aos políticos e ironias aos moralistas e outros menos favorecidos no quesito bom caráter. Nenhum cantor ou cantora, até hoje no Brasil, enviou aos fãs e admiradores tantas mensagens e recados explicitando os anseios de liberdade, livre pensar, expurgo aos preconceitos e qualquer tipo de discriminação.

 

Assumiu ser usuária de drogas, defendeu o meio ambiente e os animais e mesmo sem se gabar de nada e avessa aos eternos puxa sacos de plantão, a cantora vai deixar suas mensagens espalhadas mundo afora por muitos anos.

 

 

Como bem disse o jornalista Paulo Pestana, do Correio Braziliense, e profundo pesquisador musical, a obra de Rita Lee vai muito além dessa chancela de Rainha do Rock, título que nem ela gostava. Suas atitudes e gestos comprovam isso, e nas 294 páginas de sua biografia, publicada em 2016, tudo isso está lá registrado.

 

Um documento vivo, sem prefácio de apresentação e rico em relatos de uma vida que, em alguns momentos, choca pelo realismo e algumas doses de angústia, mas na essência registra a grandeza de uma mulher que parece ter todos os dias de sua vida vividos com uma intensidade pouco comum.

 

Para o País, a perda de uma personalidade artística do porte de Rita Lee não deve ser considerada apenas como uma lacuna cultural na nossa história. Trata-se da perda de uma referência histórica, um marco que revolucionou por alguns anos a leitura do que de fato representa liberdade de expressão, no termo exato da palavra.

 

 

Algumas de suas composições transmitem, com leveza a extrema sensibilidade, o sentimento de uma importante parcela da sociedade que, por mais que se veja oprimida, sempre encontra força e invoca reações.

 

 

O gesto do Governo Federal em decretar luto oficial de três dias, em homenagem ao legado que a cantora deixou, simboliza como deveria ser o pensamento da comunidade. Rita Lee, ao se manifestar ser a ovelha negra da família, fez ali o seu primeiro grande gesto democrático. O gosto é plural, a escolha é singular.

José Natal
Jornalista
jnatal@uol.com.br


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