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Antonio Campos: Os 100 anos de um homem chamado Maria

Os 100 anos de um homem chamado Maria

Por António Campos (*)

No início dos anos 1950, o pernambucano Antônio Maria já estava estabelecido no Rio de Janeiro. Nessa época, era moda fumar o cigarro Pour la Noblesse, sair com o cabelo empastado do creme Brylcreem e não esquecer o Ray-ban. O mesmo valia para os lugares.

A boate Vogue, em Copacabana, era o marco da noite carioca. E Antônio Maria seu mais assíduo frequentador. Se estivesse vivo, o cronista e compositor pernambucano celebraria centenário em 17 de março deste ano.

O colunista de assuntos da noite e da vida policial, um homem de 1,80 m e 120 quilos, tinha voz marcante, adorava a  boemia e era romântico. Tão romântico que compôs o hino nacional da derrota amorosa, o “Ninguém me ama” (1952), eternizado nos versos: “

Ninguém me ama, ninguém me quer. Ninguém me chama de meu amor. A vida passa, e eu sem ninguém. E quem me abraça não me quer bem.”
<span;>Sozinho, sem amor para a vida inteira, sim. Mas solitário, nunca. Maria, como era conhecido, era homem de muito amigos. Entre eles o poeta Vinícius de Moraes, a quem se referia como sua alma gêmea. Eram parceiros nas noites e nos bares, mulherengos e compositores. Juntos, compuseram quatro canções.

“Quando tu passas por mim”, que fez sucesso na voz de Aracy de Almeida, fala justamente sobre um amor infiel e impossível de ser esquecido.

Dono de um humor excepcional, Maria dirigiu e apresentou programas como a “Rua da Alegria” (1948 a 1952) na Rádio Tupi. Programa que levou para a Rádio Mayrink Veiga com o nome “Alegria da Rua” (1952 a 1960). Nos enredos, personagens de maridos traídos e mulheres assanhadas e “caipiras” na cidade grande.

Retratava o cotidiano, como explicava aos que lhe perguntavam qual a inspiração:
<span;> “- Você sabe a semelhança e a diferença entre os trens da Central e a moça que toma carona de desconhecido?- perguntava alguém com voz de capiau. – Num sei não- respondia outro, mais mocoronga ainda.

– A semelhança é que os dois costumam sair da linha. A diferença é que a moça sai da linha e mata uma só esperança passageira. E o trem que sai da linha mata 180 passageiros”.

Ao morrer, aos 43 anos, de infarto fulminante no miocárdio na calçada do restaurante Round Point, em Copacabana, em 15 de outubro de 1964, Antônio Maria deixou os amigos arrasados. Mas não causou surpresa. Não cuidava da saúde do coração nem com remédios, nem com amores correspondidos.

Entre os amigos, muitos diziam que morreu de cardisplicência. Mas acredito que Maria morreu como as músicas que compunha. Morreu como um samba-canção. Morreu de amor!

Antônio Campos, escritor, membro da Academia Pernambucana de Letras e presidente da Fundação Joaquim Nabuco


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