Pernambuco

Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ : o que comemorar em Caruaru e região?

Leia declarações de integrantes da comunidade e explicação sobre o significado e o que representam as letras da sigla.

 

‘É um dia para celebrar e lembrar que ainda tem muito para ser conquistado’, diz ativista.

 

 

O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ é comemorado no mundo todo nesta segunda-feira (28). Nos últimos anos, a sigla passou por mudanças, mas a pauta sempre foi a mesma: respeito e inclusão de pessoas com diferentes orientações sexuais e identidades de gênero.

Para marcar a data, reunimos declarações de alguns integrantes da comunidade em Caruaru e região. Cada pessoa respondeu a mesma pergunta sobre o tema: “O que comemorar no Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ deste ano?” Veja os depoimentos abaixo:

 

Émerson Santos, professor, mestre em Educação e doutorando em Ciências Sociais, homossexual, 28 anos

 

“Neste dia do Orgulho temos muito o que comemorar! Chegamos ao ano de 2021 com várias conquistas. Temos o direito ao casamento; possibilidade de retificação do nome civil e do sexo nos documentos por parte das pessoas trans; conquistamos a criminalização da violência motivada por intolerância à diversidade sexual e de gênero através de decisão da Suprema Corte; visibilidade da nossa luta por respeito e direito na mídia em geral através de novelas, filmes, matérias jornalísticas e do lindo trabalho de artistas como Pabllo Vittar. Ainda precisamos lutar muito para ter acesso a direitos básicos, mas com toda certeza temos que comemorar muito a grande visibilidade adquirida por nossas reivindicações por dignidade, respeito e cidadania”.

Jéssica Sobrinho, farmacêutica, especialista em saúde coletiva e militante do coletivo Lutas e Cores, lésbica, 26 anos

“Uma pergunta com milhões de respostas, mas com certeza diante deste cenário de pandemia e um governo federal que não representa a comunidade LGBTI+, comemorar estar vivo, comemorar a subjetividade de cada um. Mas, também cobrar respeito e políticas públicas que nos protejam de verdade. Do ano passado pra cá temos visto alguns casos fortes de LGBTfobia, alguns com violência física muito pesada. Então neste dia a gente LGBTI+ comemora sim, muita coisa, mas é um dia para reafirmamos nossa existência e continuar pedindo proteção do estado. Comemoramos também a reexistência dos coletivos LGBTI+ que não pararam um só minuto mesmo em pandemia, reajustaram alguns formatos, e aqui agradeço muito ao Lutas e Cores de Caruaru, por sempre estar na luta e principalmente neste dia tão importante pra nossa comunidade”.

 

Kleberson Ananias, psicólogo clínico, ativista dos direitos humanos e pesquisador preto, panssexual, 31 anos

“Em termo de políticas nacionais e estaduais, eu acho que a gente tem muita coisa pra comemorar. A gente conquistou nesses últimos dez anos o direito ao casamento civil igualitário, o direito a adoção sem maiores trâmites burocráticos, conquistamos também o direito a herança dos bens da união homoafetiva, e sobretudo a criminalização da LGBTfobia, da equiparação ao crime de racismo. Isso tudo precisa ser comemorado. Precisamos dizer que há motivo para celebrar, os casamentos homoafetivos têm crescido significativamente no Brasil. A comunidade como um todo tem sido representada cada vez mais na mídia, nas novelas, nos filmes, nos livros, nas propagandas… Isso também é importante, a gente tem se visto, tem sido representado na TV. Conquistamos esse espaço e tem sido comum apesar do período reacionário que o país tem vivido.

Agora, a gente precisa pensar que não é só um dia para fazer festa… É um dia para celebrar e lembrar que ainda tem muito para ser conquistado. Todos os dias travestis e transexuais são mortos, espancados, violentados, pessoas LGBT são expulsas de casa ainda hoje por pais e responsáveis. A gente ainda precisa falar de racismo no movimento LGBTQIAP+. É um dia para comemorar muitas conquistas e direitos, mas para pensar em tudo que ainda precisa ser feito, em todas as guerras que precisamos conquistar.

A gente precisa pensar no LGBT negro, no LGBT pessoa com deficiência, do machismo dentro do movimento, do preconceito em relação aos bissexuais e pansexuais. A gente reproduz a cultura de que ‘todo mundo é viado’. A gente precisa falar que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais do mundo e ao mesmo tempo é o que mais consome pornografia travesti e transexual. Também precisamos falar de emprego, para que os LGBTs tenham condições de trabalhar, de se firmar. Há o que comemorar e muito o que lutar. No sentido regional ou municipal, não vejo o que comemorar, sobretudo aqui no país de Caruaru. Temos muito mais o que lutar”.

 

Luiz Ribeiro, cantor, compositor e jornalista, bissexual, 23 anos

“James Baldwin já falava que o amor “tira a máscara que nós tememos não poder viver sem e nos faz descobrir, na verdade, que não podemos viver com ela”. Infelizmente, num Brasil que vive um cotidiano cada vez mais conservador, perverso e desanimador, ser LGBTqia+ significa ainda lutar pra tirar essas máscaras. O L e o G da sigla muitas vezes são bem mais aceitos, mas ainda há uma lenta acolhida do T e do B (e todas as sexualidades menos discutidas) que presumo ser gradual, mas se mostra urgente. Mesmo havendo ainda um preconceito de que ser bi ou pansexual implique em ter vários parceiros (o que não é condenável) ou trair facilmente, creio que esses estereótipos, principalmente através de produtos culturais que abordam essa questão de forma pouco convencional, estão pouco a pouco caindo: casos interessantes e precursores são ícones como David Bowie e Caetano Veloso. Exemplos recentes são filmes como “Shiva Baby”, de Emma Seligman, e a série “Fleabeg”, de Phoebe Waller-Bridge. Embora a luta seja constante e transcenda a mera representação midiática para atingir a esfera política, isso sempre é motivo pra comemorar”.

 

Criminalização da LGBTfobia

Citada na fala do psicólogo Kleberson Ananias, a criminalização da LGBTfobia se tornou realidade no dia 13 de junho de 2019. Por 8 votos a 3, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou que atos preconceituosos contra homossexuais e transexuais devem ser enquadrados no crime de racismo. O que diz a decisão da Corte:

  • praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito” em razão da orientação sexual da pessoa poderá ser considerado crime;
  • a pena será de um a três anos, além de multa;
  • se houver divulgação ampla de ato homofóbico em meios de comunicação, como publicação em rede social, a pena será de dois a cinco anos, além de multa;
  • a aplicação da pena de racismo valerá até o Congresso Nacional aprovar uma lei sobre o tema.
  • não será criminalizado: dizer em templo religioso que é contra relações homossexuais;
  • será criminalizado: incitar ou induzir em templo religioso a discriminação ou o preconceito.

 

Coletivo Lutas e Cores

Fundado por um grupo de jovens LGBTQIA+, o Coletivo Lutas e Cores existe desde 2014 em Caruaru, no Agreste de Pernambuco. O professor Émerson Santos faz parte do coletivo e já foi membro do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos LGBT entre 2017 e 2019, participando de todas as sessões do julgamento no Supremo Tribunal Federal que resultou na Criminalização da LGBTfobia.

“O Coletivo tem investido na cobrança de políticas públicas junto ao Poder Público Municipal em Caruaru, dialogando com a Prefeitura e a Câmara Municipal. O Grupo também desenvolve palestras em escolas e universidades de forma permanente, levando informações sobre a gravidade da violência LGBTfóbica no Brasil e sobre as principais reivindicações do Movimento LGBT+ no nosso país”, informou Émerson.

 

Apesar de ter sido fundado em Caruaru, o Coletivo “também contribuiu para fundação ou reativação de Grupos de ativismo LGBT+ em diversos municípios da região Agreste, tais como: Santa Cruz do Capibaribe, Passira, Pesqueira, Belo Jardim, Gravatá e Garanhuns”.

O Coletivo Lutas e Cores é membro da Rede LGBT do Interior de Pernambuco e do Fórum LGBT de Pernambuco, participando da Comissão Organizadora da Parada da Diversidade de Pernambuco realizada anualmente no mês setembro no Recife.

 

 

Violência contra a comunidade LGBTQIA+ em Pernambuco

Por e-mail, a Secretaria de Defesa Social (SDS) de Pernambuco informou dados em torno da violência contra a comunidade LGBTQIA+ no estado entre 2019 e maio de 2021 – último mês desse ano no qual se tem dados completos. Confira:

 

Em 2021, o número representa 0,9% dos CVLIs registrados em todo o estado. A maior parte desses homicídios ocorreu em via pública (6 casos) e em residências (5). Sete vítimas tinham entre 18 e 30 anos, cinco entre 31 e 65 anos e uma entre 13 e 17 anos.

Já em 2020, o número de homicídios correspondeu a 1,3% do total. Quase a metade desses crimes ocorreu em residências (22 casos), e outros 18 foram praticados em vias públicas. A maioria das vítimas, 27 casos ao todo, tinha entre 31 e 65 anos, enquanto outros 19 crimes foram praticados contra pessoas de 18 a 30 anos. Uma criança (1 a 12 anos) também foi vítima.

Em 2019, os CVLIs contra a comunidade LGBTQIA+ representaram 0,9% do total registrado em Pernambuco. Desses, 11 foram cometidos dentro de residências e 10 em locais públicos. Considerando a faixa etária, 60% das vítimas tinham de 31 a 65 anos, ou seja, 18 casos. Houve, ainda, 10 CVLIs contra pessoas entre 18 e 30 anos, além de 4 vítimas com idades entre 13 e 17 anos.

 

De acordo com a SDS, essas estatísticas levam em conta a orientação sexual ou gênero declarados pelas vítimas. “Portanto, não necessariamente a motivação desses crimes seria a intolerância de gênero ou a homofobia”, explicou.

 

 

Qual o significado de cada letra da sigla LGBTQIA+?

  • L: lésbica, mulher que se identifica como mulher e tem preferências sexuais por outras mulheres;
  • G: gay, homens que se identificam como homem e têm preferências por outros homens;
  • B: bissexual, que têm preferências sexuais por ambos os gêneros;
  • T: transexuais, travestis, transgêneros e não binário, que são pessoas que não se identificam com os gêneros masculino ou feminino atribuídos no nascimento com base nos órgãos sexuais;
  • Q: questionando ou queer, palavra em inglês que significa “estranho” e, em alguns países, ainda é usado como termo pejorativo. É usado para representar as pessoas que não se identificam com padrões impostos pela sociedade e transitam entre os gêneros, sem concordar com tais rótulos, ou que não saibam definir seu gênero/orientação sexual;
  • I: intersexuais, que apresentam variações em cromossomos ou órgãos genitais que não permitem que a pessoa seja distintamente identificada como masculino ou feminino. Antes, eram chamadas de hermafroditas;
  • A: assexuais, são aqueles que sentem pouco ou nenhuma atração sexual pelos gêneros;
  • +: todas as outras letras do LGBTT2QQIAAP, que não para de crescer.

 

 

*G1PE

 


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