Paraíba

Exclusivo: Presidente do PT na PB fala sobre futuro do partido

A Revista Nordeste entrevistou o presidente do PT na Paraíba, Charliton Machado, que falou sobre a desfiliação do prefeito de João Pessoa Luciano Cartaxo, que foi para o PSD, e do futuro do Partido dos Trabalhadores no cenário da política paraibana e também nacional.

A entrevista na íntegra, disponível aqui, é exclusiva do site da Revista NORDESTE. Partes dessa entrevista estão na edição 107 da NORDESTE, disponível online no browser e também através do aplicativo da revista para Smartphone e Tablets.

 

Luciano alegou que conversou com muitos companheiros antes de tomar a decisão de deixar o PT:

Eu desconheço que ele tenha conversado com pessoas do PT (sobre sair do partido), seria mais correto essa conversa ter começado pelas instâncias do partido, pela instância estadual, pela instância nacional. Até porque, não se trata de um prefeito de um pequeno município, com todo respeito aos pequenos municípios, mas é o prefeito de uma capital, a única capital no Norte e Nordeste que o PT estava administrando, então isso tem peso, tem um significado político e era importante que o prefeito tivesse entendido, na mudança partidária, a responsabilidade ao se posicionar em relação ao PT. Então, para nós, foi um momento de muita perplexidade, de surpresa e até de tristeza pela forma como ele saiu. Todas as pessoas do circulo partidário que eu conheço, não sabiam disso, foram tomados da mesma surpresa, secretários de governo, todos, ninguém sabia, tanto é que a maioria entregaram suas pastas, e os que ficaram também não sabiam, inclusive chegaram a conversar comigo.

Então o importante agora não é se preocupar em saber quem sabia e quem não sabia. O que está posto para nós agora é que temos que seguir um novo caminho. O prefeito segue seu rumo, ele fez uma opção na política, nós respeitamos a opção na política que ele fez e o PT tem que se reinventar, se reconstruir, se recompor, a partir dessa nova realidade.

Nós apostamos no protagonismo, apostamos em um político que poderia ser o representante desse protagonismo que era o Luciano Cartaxo, mas que com a sua saída nós temos que recriar o PT a partir de bases novas, renovar o partido, incentivar maior participação, qualificar melhor a instância partidária, fazê-la funcionar no caso do município, temos mais de um ano, no caso de Lucélio, tudo isso tem que ser levado em consideração, o PT precisa se reorganizar, se unificar, renovar e construir condições políticas para posicionar-se de forma altiva, de forma programática nas eleições de 2016.

Sobre os petistas que permanecerem na gestão de Cartaxo:

O diretório municipal se reuniu terça-feira e já deu um desdobramento da decisão do estado. Eles terão 5 dias para definitivamente, aqueles que não entregaram os cargos, que foi uma decisão de instância por unanimidade. Nós não pertencemos mais ao Governo então não nos sentimos mais confortáveis estar no Governo enquanto partido. As pessoas podem ficar, ninguém está dizendo que as pessoas tem que deixar de ser governo, agora, elas tem que deixar de ser partido. Como se trata de uma decisão política partidária, todos terão que seguir, não há uma recomendação, uma decisão diferenciada para uns em relação a outros, todos terão que seguir, isso faz parte da natureza democrática do que nós cultivamos no PT, eles terão cinco dias, já temos dois dias dessa decisão, se não saírem nós vamos aplicar o estatuto partidário, que é o flagrante desrespeito às decisões partidárias, para afastá-las do partido, obviamente eles tem direito à recurso nas instâncias superiores, mas a decisão, tanto municipal e muito provavelmente estadual será essa, de que todos estarão definitivamente afastados do partido dos trabalhadores.
 

O partido estuda entrar na Justiça contra os políticos que detém mandato eletivo e deixaram o partido?

Em relação a Luciano Cartaxo eu não tenho como entrar na Justiça, o TSE já se pronunciou sobre isso, e no entendimento do TSE, os cargos majoritários não tem como reivindica-los para o partido, porque não há uma substituição partidária, não existe um suplente de prefeito. Ele disputou com o partido adversário e venceu o programa, o que é ruim, mas não temos como dar consequência a isso.

Em relação ao mandato do vereador Benilton Lucena, nós vamos pedir, estamos apenas aguardando se ele oficializa sua decisão, no momento que ele se filiar a outro partido, seja ele qual for, nós vamos pedir com base na lei da fidelidade partidária, uma das questões que a lei ampara, se ele foi muito perseguido no partido, se o partido mudou profundamente o seu programa e eles está insatisfeito, mas nada disso aconteceu. O partido seguiu com seu programa, seguiu com sua orientação política, a defesa do governo, a defesa de um projeto de país, Benilton saiu de um partido de esquerda e foi para um partido de direita então ele é quem tem que justificar porque saiu, então vamos recorrer, eu não sei o tempo que isso leva para ter um desdobramento, mas cabe a Justiça decidir, mas vamos procurar a Justiça no sentido de um direito que nos pertence que é um mandato de um vereador que não se elege sozinho, se elege por uma aliança, se elege por uma coligação, por uma legenda partidária.


Quantos saíram do PT?

Poucos, se você considerar o grande número de filiados que existe hoje na Capital, para mais de 10 mil filiados, saíram em torno de 30, 40 ou 50 filiados. Então não temos ainda uma definição disso do ponto de vista de números, mas deixamos à vontade para aqueles que queiram sair, para aqueles que deixar o partido. Tem algumas desfiliações que para nós foi surpresa, não so prefeito só, mas Adalberto Fulgêncio foi presidente do PT duas vezes, é um militante de alma histórica partidária, ou era, e sair para um partido como o PSD foi lamentável, mas é uma decisão política e a gente respeita, mas eu acho que no geral, sairão do partido aqueles que acompanham o prefeito, o que nós respeitamos. E ficarão no PT aqueles que acompanham o PT.


Saída de Cartaxo e o peso para o PT:


Não deixa de ser ruim, o PT que está em um momento de muita fragilidade, perder o prefeito de uma capital que simbolizava uma mudança como João Pessoa, simbolizava o protagonismo no Estado, no Nordeste, agora a Justiça dos gestos e das decisões de cada um será feito com o tempo, caberá ao povo julgar quem esteve do lado correto, quem tomou a decisão correta, quem se posicionou de uma forma coerente, quem exerceu a coerência para negar um passado, isso tudo quem vai dizer é o eleitor em 2016. Eu da minha parte, posso dizer como presidente do partido, pelo conjunto do partido que se unifica a partir de agora, com a consciência muito tranquila, todas as decisões nós fizemos para que o prefeito nunca fizesse esse gesto de sair do partido. Sempre criamos um ambiente que ele ficasse e aprofundasse sua relação partidária, jamais que ele abandonasse esse barco. Mas como eu disse antes, essa é uma decisão dele, caberá ao povo julgar se foi certa, e caberá a nós fazermos um debate sobre o que nós queremos em 2016, seguindo um caminho diferente. A vida que segue, cada um fazendo a sua decisão para o seu destino político.


O deputado estadual Frei Anastácio (PT) afirmou que não se surpreendeu com a saída do prefeito porque já conhecia o tipo:


Eu respeito a opinião de Anastácio, não é a minha opinião, surpresa para mim foi. Eu sempre tive uma relação boa com o prefeito Luciano, não é agora que ele saiu do PT que vou jogar pedras, dizer que ele é uma pessoa que nunca foi partidária. De fato, ele não vinha fazendo a defesa do nosso projeto, era muito focado na gestão. Ele sempre explicava que isso era uma orientação política de focar na gestão mesmo. Mas eu acho que o momento não é de fazermos esse enfrentamento, que possa denegrir, sobre qualquer hipótese, a imagem de quem quer que seja. Ele fez a opção dele, é página virada, temos que aceitar, temos que entender e caminhar para frente.

O momento é ruim para o PT?

Apesar das dificuldades, esse é um momento para o PT se repensar. Nós somos no Brasil o único partido que tem uma política de cotas muito avançada. Temos a paridade como regra estatutária. Não se pode compor nem comissão provisório, seja ele nacional, estadual ou municipal, sem que metade dessas vagas sejam de mulheres, 30% de negros e jovens. O que mostra que o PT tem uma preocupação histórica com gênero, com juventude e com as questões étnicas, raciais, isso é importante. Agora, o que eu tenho chamado atenção aos companheiros é que isso não se transforme em um debate de caráter superficial, legalista. Nós temos que avançar do legalismo, que não deixa de ser um avanço também, do ponto de vista de dizermos para a política brasileira que deve ser assim, que os partidos devam ter mais participação, de mulher de negro e de jovens, mas que possamos fazer de fato valer, na cotidianidade partidária essa realidade. Mais negros, mais jovens, mais mulheres tendo vida ativa partidária. Eu sinto que nesse momento nós perdemos um pouco isso e perdemos por um motivo principal, não pela crise. Partido que se transforma em Governo perde muito o chão das fábricas, perde as praças das universidades, os bancos da escola, perdem muito espaço em lugares que a juventude era mais participativa, nos movimentos sociais, nas organizações não governamentais, nas mobilizações populares, as pessoas começam se acomodar muito com a gravata, o terno, o ar condicionado e esquece que nas ruas o PT nasceu e nas ruas o PT cresceu. O chamamento é que a gente volte às ruas, faça um debate, comece a se incorporar, nós estamos tendo um movimento agora que é fundamental para o PT se reinventar nesse processo, que é a Frente Brasil Popular, que reunirá nessa frente pessoas que pensam na defesa da democracia, pensam na defesa do Governo, mas ao mesmo tempo não se sentem governistas, acho que o PT tem que pensar isso também. E ser governista não é ser uma correia de transmissão em que não possa se fazer um grande debate crítico, chamar a sociedade, se incorporar às pautas sindicais, que muitas vezes diverge das pautas de Governo. Então todo esse movimento tem que ser preservado pelo bom caminhamento que nós vamos dar à equação político partidária. Então esse é um desafio do PT. Não é só pela crise, mas pela própria condição histórica que nós nos acomodamos, passamos a ser um partido de longo prazo no poder, os partido que passam um longo tempo no poder perdem a sintonia com os movimentos sociais, estabelecendo isso através de políticas, que é bom, mas também, os partidos também tem que estar presentes nas vidas cotidianas da sociedade.


Relação com o PSB na Paraíba:


Não sei se estaremos juntos nas próximas eleições, mas nós fazemos parte do Governo Ricardo Coutinho e a posição dele dissidente do PSB para nós é muito importante, nós temos que disputar os governadores dos partidos historicamente de esquerda, no caso Ricardo Coutinho está demonstrando de forma altiva que não seguirá a decisão do seu partido, que seguirá uma corrente mais progressista que defende, não só, o resultado da regra do jogo, é contra qualquer tipo de golpe, é contra o impeachment como solução para tentar resolver problemas políticos saudando uma crise que a oposição tem por não ter sido vitoriosa, então o legaod que Ricardo deixará para gerações futuras desse movimento, tanto aqui como nacionalmente é muito importante e nós temos que valorizar isso


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