Brasil

NORDESTE acompanha competição de falcoaria em PE; prática ganha popularidade

A  Revista NORDESTE acompanhou o IV Encontro de Falcoaria do Nordeste que aconteceu em Vitória de Santo Antão, em Pernambuco. Na reunião, falcoeiros de vários estados realizam uma competição colocando à prova as aves que são utilizadas para diversos fins, como controle ambeintal e educação ambiental. Confira a matéria veiculada na 116ª edição da NORDESTE.

A arte da caça

Competição de falcoaria populariza prática milenar no Nordeste; atividade é usada em controle de pragas e educação ambiental

Por Pedro Callado

Um homem com uma luva de couro e um falcão em punho. A imagem é milenar. Poderia ser no extinto país da Assíria, na época das dinastias chinesas ou em uma vila de samurais no Japão. Mas essa imagem acontece agora no Nordeste do Brasil. Hoje, o homem com a luva de couro está em Vitória de Santo Antão, no estado de Pernambuco.

Durante o feriado de São João foi realizado no município pernambucano o IV Encontro Nordeste de Falcoaria. Reunidos no Parque Itamatamirim, 34 pessoas de cinco estados diferentes apresentaram suas aves, trocaram experiências e competiram para ver quem tinha a ave mais preparada nas técnicas de falcoaria.
Desde 2013, o encontro é realizado anualmente, já tendo passado pelos estados do Rio Grande do Norte, Alagoas e Paraíba. A primeira edição foi organizada pela AFARN (Associação de Falcoaria do Rio Grande do Norte), já na segunda edição, realizada na cidade de Viçosa-AL, foi fundada a ANF (Associação Nordeste de Falcoaria). O presidente da ANF, Dorival Lima, conversou com a Revista NORDESTE e compartilhou um pouco sobre a sua experiência pessoal e a realização do encontro.

Pode-se dizer que Dorival é um falcoeiro profissional. Dono de alguns gaviões e falcões, ele possui uma empresa de controle ambiental em Maceió que faz uso das aves de rapina para afugentar garças, quero-queros e principalmente pombos de regiões como aeroportos, portos, supermercados e armazéns. “Ser falcoeiro para mim é um prazer, um privilégio”.

Apesar de ser o seu ganha-pão, Dorival conta que é uma grande oportunidade e uma conexão com a natureza observar as aves em ação. “Eu vejo praticamente todos os dias o que é improvável de presenciar na natureza, que são lances de predação natural. A relação entre o predador e a presa”, disse.
Em relação ao encontro, Dorival afirma que o evento promove uma disseminação da arte. É uma troca de conhecimento entre os praticantes da falcoaria e também uma oportunidade de socializar e unir pessoas interessadas no assunto. Desde a realização do primeiro encontro em 2013, muitos interessados foram atraídos pela prática. A ANF lançou o primeiro livro sobre falcoaria feito no Brasil, A Arte da Falcoaria, e passou a dar apoio com instruções e treinamento para associados que são novatos nos cuidados com as aves.

A Competição

O torneio é realizado em duas modalidades. O lure fly (voo com isca) é realizado com falcões. O falcoeiro usa uma isca amarrada a um cordão e gira pelo ar simulando uma presa. A ave faz passadas para tentar abater a presa, no caso a isca. O falcão que fizer mais passadas, sem pousar, demonstra maior vigor físico e portanto é o vencedor.

A segunda modalidade é o baixo voo, mais comumente realizada com gaviões. Nesta prova um pombo é solto a 20 metros de distância da ave de rapina que está no punho do falcoeiro. O objetivo aqui é mostrar o preparo do rapinante em tempo de perseguição e captura. Esses são exatamente os critérios em que a ave vai pontuar, mas também é avaliado a beleza do lance, um critério mais subjetivo analisado por jurados no campo. A ave tem direito a duas tentativas, a melhor média obtida nos dois lances é a vencedora.

No caso do pombo ser capturado por um gavião, o falcoeiro faz a troca o mais rápido possível, ou seja, dá um punhado de carne para que a ave largue a presa evitando ferimentos graves ou a sua morte. Caso contrário, é realizada uma eutanásia com o mínimo de dor.

Aves vencedoras

Baixo voo:
1º lugar 
Xena, ave de Glenison Dias
e Rayssa Rachel (PB)

Lure Fly:
1º lugar
Capeste, ave de Dorival Lima (AL)

A Nobreza e a Conservação

Falcões e gaviões foram treinados pelo homem para caça por civilizações antigas no Oriente Médio e em países como China e Japão. A prática, ao longo dos séculos, tornou-se uma atividade realizada por nobres e reis. Possuir um falcão treinado em tempos medievais era sinal de status. Nos dias de hoje a atividade torna-se “nobre”, não por quem a pratica, mas pela sua finalidade.

É importante ressaltar que os falcoeiros não consideram a prática como um esporte. As técnicas de falcoaria são tratada como uma ciência ou uma arte. Outrora usada como forma de exibição de poder, hoje a técnica, além do uso para controle ambiental, é bastante utilizada na educação ambiental e em trabalhos de conservação de espécies. O uso dessas técnicas já salvaram diversas aves em todo o mundo. Foi dessa forma que, nos Estados Unidos, a águia-de-cabeça-branca saiu da lista de animais ameaçados de extinção e o mesmo foi feito pelo condor-dos-andes, em um trabalho conjunto entre Chile e Argentina.
Através da falcoaria é possível treinar uma ave nascida em cativeiro e introduzi-la ao meio selvagem. Com as técnicas milenares a ave desenvolve comportamento de predação que são comuns na natureza.

Meninas também jogam


Tradicionalmente, a falcoaria é uma atividade masculina. Isso devido as raízes da prática, especialmente na época medieval, quando era uma demonstração de poder, mas também a conceitos e preconceitos da sociedade em geral. Alessandra Oliveto, vice-presidente e Tesoureira da ANF, é uma das poucas falcoeiras que participa do torneio promovido anualmente. “No encontro, com 40 participantes, você vê 35 homens e cinco meninas, sendo que dessas cinco, três são apenas acompanhantes, esposas ou namoradas de falcoeiros”. Alessandra aponta que nas redes sociais, as páginas de grupo dão mais ênfase aos homens. Mas as garotas também tem espaço e podem se destacar. A partir daí ela se organizou para montar um grupo de falcoeiras do Brasil. Foi aí que surgiu o Falcoeiras BR. Através de uma página no Facebook, o trabalho realizado por mulheres dentro da falcoaria é exaltado e compartilhado, para mostrar que a atividade é para todos. Inclusive, quem fez o voo da ave vencedora da competição em Vitória de Santo Antão, foi a paraibana Rayssa Rachel.

 

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