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Internacional

22/04/2016


Como a economia da Índia se tornou a mais dinâmica do mundo

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A Índia, juntamente com o Brasil, integra o grupo de países emergentes e em desenvolvimento chamado BRICS, que inclui ainda Rússia, China e África do Sul. Recentemente a Índia superou a China como economia mais dinâmica do mundo. O país asiático,, sob o comando do primeiro ministro Modi desde 2014, conseguiu evitar os efeitos da crise com boas políticas implementadas.

Leia a matéria a seguir e saiba tudo sobre o crescimento econômico da Índia.

Esta matéria faz parte da 112ª edição da Revista NORDESTE, que você confere AQUI.

 

A Índia em célere passo de leão 

Economia asiática começa a arrancar com novas medidas de incremento na educação e na produção de bens de consumo agregado

Por Marcos Formiga

Depois do ritmo rápido de crescimento socioeconômico dos chamados “Tigres Asiáticos” (Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Macau e Singapura), enquanto jaziam em passo lento os chamados países “baleias” (grande extensão territorial: Rússia, Canadá, Brasil e Austrália), chegou a hora e vez da corrida veloz da Índia em ritmo leonino.

A Índia, maior democracia do planeta, com quase um bilhão e trezentos milhões de habitantes, deverá superar a China nos próximos três anos, como o país mais populoso do mundo. Ocupando uma área geográfica de três milhões e duzentos e oitenta e sete mil quilômetros quadrados é o sétimo país em extensão territorial, e a sua área corresponde a menos de um terço do território brasileiro. Sua densidade demográfica (habitantes por quilômetros quadrados) de trezentos e noventa e cinco, a posiciona entre as quinze maiores.

Integra o grupo de países em desenvolvimento ou emergentes, e junto com o Brasil, Rússia, China e África do Sul compõe o chamado bloco econômico BRICS. Atualmente, o país atravessa um auspicioso período de crescimento, superando a China como a economia mais dinâmica dos BRICS e do mundo.
A Índia é uma das poucas economias relevantes não afetadas pela crise global devido ao sucesso das políticas implementadas pelo atual Primeiro Ministro Narendra Modi, eleito em maio de 2014. Em julho seguinte, sua administração lançou um ambicioso plano de governo para turbinar a economia que se beneficiava de um promissor crescimento iniciado no governo anterior de M. Singh. Aliado tradicional ao então maior Partido Indiano: Partido do Congresso, M. Singh foi fragorosamente derrotado por N. Modi, e teve sua representação encolhida para apenas 10% do parlamento.

Os tradicionais organismos internacionais, Banco Mundial (BIRD), Fundo Monetário Internacional (FMI), Organização Econômica para o Desenvolvimento Econômico (OCDE), constatam que o capitalismo atravessa uma crise econômica, superada apenas, pela Grande Depressão, iniciada nos Estados Unidos em 1929, e prolongada até o início da II Grande Guerra, em 1939. Tais instituições são unânimes em reconhecer que a Índia progride em ritmo acelerado. Esta é uma situação única: “Enquanto o mundo dorme, a Índia está crescendo”, afirma Modi.

Especialistas e empresários de todos continentes confirmam o rápido crescimento do ritmo econômico liderado pelo governo indiano entre as maiores economias globais, o qual, se persistente, sustentável, poderá redimir a Índia de sua secular pobreza e grave débito educacional.

Modi lançou seu ambicioso plano de governo MAKE IN INDIA (Faça na Índia) conjugado a programas socioeconômicos como Skill Development (Desenvolvimento de Habilidades Básicas) para os jovens e jovens adultos focando a complementação da educação básica (segundo grau) no treinamento técnico e tecnológico. Vale lembrar, no aspecto demográfico que cerca de 61% da população indiana de 1,294 (um bilhão e duzentos e noventa e quatro milhões) é de jovens até 35 anos de idade, representando três vírgula oitenta e cinco vezes a atual população brasileira de 205 milhões de habitantes. Numericamente, a população indiana é a mais jovem do mundo.

O protagonismo do jovem indiano empurra a nação para a frente. O grande desafio do governo e sociedade é conseguir transformar o poder da juventude em acelerador do desenvolvimento, sob a liderança de jovens criativos, capacitados e empreendedores. Em um país diferente do Brasil que assegura estabilidade no emprego público, garante (por enquanto) previdência pública, e é pródigo em direitos trabalhistas com férias remuneradas, tal realidade não existe na Índia. O jovem, quer aqui quer na Índia, não pode, nem deve esperar pelo Estado patrão, empreendedor. Diferentemente do congênere Brasileiro típico, o jovem indiano em vez de almejar um concurso público onde, provavelmente, irá desperdiçar, acomodar, seu talento e iniciativa, terá de batalhar na competição acirrada pelo emprego no setor privado. Em muitos casos terá como única alternativa empreender o próprio negócio e correr riscos para se firmar profissionalmente, ao tempo em que busca se desenvolver fora do sistema estatal, federal central, ou provincial.

O governo indiano ao lançar o programa de Habilidades Básicas para o mundo do trabalho dos jovens, designou orçamento próprio e contratou no mercado gestores profissionais por tempo limitado para conduzir a governança do programa.

Em 2030, quando a população de muitos países (caso do Brasil) crescerá cada vez mais a participação de idosos, espera-se que a economia demande mais força de trabalho. A Índia poderá enfrentar o desafio com forte contingente de novos talentos e capital humano, devidamente habilitado e tecnicamente qualificado. Aí está um bom exemplo a ser seguido pelo Brasil e países latino-americanos.

Faça na Índia

A Índia, tal qual o Brasil de hoje, tinha, até recentemente, uma economia fechada. Ao se fazer um balanço dos primeiros dezoito meses do ambicioso plano Make in India constata-se que a abertura econômica já é um fato observável pela criação de um ecossistema para os jovens empreendedores. Está mais fácil e amigável fazer negócios com a abertura aos Investimentos Estrangeiros Diretos (FDI em inglês), direcionados ao fortalecimento de uma política de industrialização e reindustrialização liderada pelo governo central, mas de forma descentralizada nos 27 Estados, mesmo numero de unidades federativas do Brasil. Neste curto espaço de ano e meio de implementação, o Make in India ajudou o país a elevar 16 posições no ranking internacional atual (2015-2016) de competitividade do fórum econômico mundial (55ª – enquanto o Brasil recuou 18 posições para 75ª).

A taxa de crescimento anual da indústria manufatureira passou a 12,6% contra 1,7% no lançamento do Plano. Segundo o Financial Times, citado pelo jornal The Economic Times de Nova Delhi, edição de 16 de fevereiro de 2016, a Índia ocupa, agora, a 1ª posição no ranking de investimento, e desbancou Singapura, Irlanda, Indonésia e Vietnã, como as mais atrativas economias.

Estávamos em visita à Índia para participar em Congresso Internacional em Goa, durante a celebração da semana Make in India, ocorrida em Mumbai a partir de 13 de fevereiro passado. Acompanhamos pela mídia e confirmamos nossas impressões no dia-a-dia: o clima contagiante de otimismo do governo e empresariado, ainda com menor intensidade na Academia. Como observadores atentos não podemos entrar no clima de euforia: há de se fazer um contraponto e avaliar com isenção o que se passa naquele fascinante e diversificado país, sem perder o senso crítico e o equilíbrio na análise.

De Gandhi a Modi, país a limpo

A Índia detém uma secular experiência de subdesenvolvimento, convive com a pobreza e miséria endêmicas, educação problemática e de baixa qualidade, superpopulação, desemprego nas alturas, poluição, subhabitação e favelas, e condições sanitárias precaríssimas tanto no campo, como nas cidades; é um barulho ensurdecedor com um transito caótico nas grandes cidades, maioria no país. Ao lado desta explicita exposição gigantesca de características do processo vicioso e circular do subdesenvolvimento, convive uma população pacata de índole pacífica, com baixos níveis de violência, excetuando episódios de conotação sexual contra a mulher. Isso garante uma sensação permanente de segurança ao meio da balbúrdia dos conglomerados urbanos. Os valores culturais e espirituais oriundos de uma ancestralidade transcendental conduzem uma civilização pobre, porém digna. A cordialidade das pessoas, também, é um fato, diferentemente do já esquecido “brasileiro cordial”, expressão cunhada por Sérgio Buarque de Holanda, historiador e pai do compositor, músico Chico Buarque. Desponta nesse cenário, o exemplo paradigmático do líder pacifista M. Gandhi – o pai da pátria. Gandhi foi o mais perfeito anti-herói por convicção, transformado pela História, quase à revelia, em Herói da independência e da unificação territorial de um subcontinente. Apesar do seu esforço e sacrifício pessoal não obteve a pátria única almejada, após mais de um século de domínio colonial inglês. Paquistão e Bangladesh que se tornaram países independentes, são os dois braços direito e esquerdo, amputados da “Grande Índia” de Gandhi. Este frágil e desastrado (de)equilíbrio geopolítico (Partição) decidida arbitrariamente pelo já desautorizado colonizador, causou lágrimas e muito sangue derramado, pelas guerras e movimentos migratórios compulsórios, considerados os maiores registrados em toda a História da Humanidade. Uma exponencial espécie de “transumância indiana”, aqui inspirada na pioneira concepção do Mestre Celso Furtado para explicar o fenômeno de migração nordestina na “Grande Seca” no final do século XIX, quando meio milhão busca a sobrevivência ao deixar sua terra seca do Sertão em direção aos seringais e várzeas da Floresta Amazônica.

A fixação do Make in India na indústria manufatureira é algo questionável. Mundialmente, nas economias avançadas, já vivemos uma era pós-industrial, onde os serviços qualificados e forte teor de conhecimento humano passam a dar o tom da economia global. A inteligência é, agora, o principal fator de produção.
A importância da indústria tem também uma explicação estratégica na concepção indiana. Seu setor manufatureiro manteve uma participação histórica de 15% na composição do PIB (Produto Interno Bruto soma dos bens e serviços produzidos ao longo de um ano por um país). A título de boa lembrança, nos anos 1980, a economia brasileira com o setor industrial no ápice chegou a 28% do PIB, com a desindustrialização em curso desde a virada do Século, e agravamento da atual crise político-econômica reduziu-se, em 2015, a míseros 9%.

O caso indiano, comparado à China seu vizinho e rival cada vez mais acirrado, permite melhor compreender o porquê deste protagonismo industrial. A própria China já tende a desacelerar a participação da indústria, que superou, no fim do século passado a 40% na formação do PIB, e reduziu-se na atualidade para 32%. Outros competidores da Região Asiática apresentam os seguintes percentuais de participação da indústria: Tailândia 34%, Filipinas 31%, Malásia e Indonésia idênticos em 24%.
Ademais, o setor de serviços em uma Economia do Conhecimento e Inovação, diferentemente da indústria não será prodigo em gerar novos empregos. O desemprego tecnológico como consequência da automação e digitalização do processo produtivo e, no momento, a ascensão da inteligência artificial são fatos inconteste dos novos tempos, ou do chamado “novo normal”. Comportamento econômico com tendência que deve prevalecer, ou se perpetuar em alguns países com taxas de crescimento modestas, sobretudo na geração de emprego. Entretanto, a Índia pretende superar seus 7% de crescimento anual, em 2015, e chegar a 10% como meta do plano em ação.

O Make in India atrela o aumento da participação da indústria para 25% do PIB, com a criação de 100 milhões de novos empregos na década em curso (10 milhões por ano). Não é demasiado repetir: em um cenário demográfico de um bilhão e trezentos milhões de habitantes, embora expressivo, o número de novos empregos ainda soa modesto para o desafio de inclusão potencial da população de jovens com menos de 35 anos, estimada em 120 milhões de ingressantes na força de trabalho, até 2024.
Em uma leitura mais aprofundada do Make in India faz-se necessário compreender os múltiplos fatores, além da demografia, que afetam a economia – atualmente na 8ª posição mundial, logo abaixo da participação do Brasil – até o reconhecimento oficial dos estragos da duradoura recessão que o Brasil atravessa.

Segundo os “experts” indianos e arautos do Make in India, as limitações/fragilidades que a Índia tem a superar em curtíssimo prazo são:
Reverter o papel de sua educação como um todo, em particular o conservador setor de educação superior, esclerosado como o nosso;
Conectividade digital. Aqui também nos assemelhamos pela falta de cobertura da Internet e inexistência, ou insuficiente oferta de banda larga com qualidade e preço competitivo. O mais grave: não condiz com o desempenho no setor de Software onde a Índia tem reconhecido protagonismo mundial;
Infraestrutura precária e comércio excessivamente voltado para o consumo doméstico.

Politicas enfáticas estão em adoção para fortalecer a inovação e o design, em especial, porque a Índia não dispõe de um aparato tecnológico para priorizar a tecnologia, espelhada nas experiências bem-sucedidas do Japão, Coreia do Sul, Taiwan e China. A inexistência desta estrutura tecnológica faz a Índia apelar para outro tipo de atalho, que em parte, tende a corrigir esse déficit: inovação e design como partes essenciais da indústria criativa e elementos compulsórios da nova Economia do Conhecimento. A criatividade pretende substituir as fragilidades explicitadas, buscando no jovem empreendedor o espírito “shumpeteriano” da inovação criativa-destrutiva, ou do sempre reclamado espírito animal do empresariado. Aposta-se na capacidade inovadora das start-ups, das aceleradoras e do venture capital – enfim, desafia-se a inteligência do jovem empreendedor indiano com a criação de laboratórios em design.

Neste ponto, vale relembrar a reflexão de Melinda Gates sobre o design, que tanto entusiasma governantes e empreendedores indianos: “design é o maior direcionador individual da mudança social”. Isto tem tudo a ver com criatividade, funcionalidade e seu uso amigável. O design cria oportunidades concretas de fortalecer a pequena e média empresas e alavancar o equilíbrio comercial com o lançamento de novos produtos e serviços.
Em meados do Século XX, o desafio de Gandhi foi transformar uma civilização milenar e fragmentada em uma nação independente e unificada. A autodeterminação dos povos e o pacifismo (não violência) eram seu grande lema.

No limiar do século XXI, cabe a Narandra Modi transformar seu slogan e otimismo em realidade e retirar a Índia do seu longo subdesenvolvimento. Assim falou Modi: “Make in India é a maior marca que a Índia já criou, e fará da Índia um polo da indústria mundial”.
Ao mesmo tempo o País do B (B de Brasil) que inicia a sigla do bloco econômico BRICS, também tem seu slogan: BRASIL, PATRIA EDUCADORA. Pena que, não passe de uma simples peça promocional.

Façamos votos e trabalhemos duro, insistentemente e com inteligência para que o slogan brasileiro que toca superficialmente nosso mais grave problema: educação básica de qualidade, tal qual o Make in India seja levado a sério, e transforme-se em urgentíssima prática, com a indispensável qualidade. A Educação brasileira tem pressa!

*Primeira parte de impressões e relatos de viagem à Índia, em fevereiro de 2016. Marcos Formiga, colaborador especial da Revista NORDESTE é professor da UnB e Conselheiro do Centro Internacional Celso Furtado. 

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