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Política

02/10/2015


líder do pt reconhece: ‘reforma foi ruim para nós’

Sem o ministério da Saúde e com a fusão de secretarias ligadas à área social em uma única pasta, o PT tende a sair menor do que iniciou o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, após a reforma ministerial com anúncio previsto para esta sexta-feira (2). Embora sejam ruins para a sigla, as decisões do governo são entendidas como inevitáveis pelo líder no Senado, Humberto Costa (PT-PE).

Em entrevista exclusiva ao InfoMoney, o experiente senador disse que espera fogo amigo natural com as baixas, mas pondera que não há desenhos alternativos para a recuperação da governabilidade. A resistência do partido número um do governo tem sido testada desde que as diretrizes da política econômica foram alteradas e uma orientação ortodoxa passou a demandar apoio da base.

No entanto, Costa acredita que o aceno às bancadas governistas pode trazer de volta o apoio perdido por Dilma no Congresso durante os últimos meses. Confira os destaques dessa conversa:

InfoMoney – Reformas ministeriais costumam ser costuradas com uma recomposição de base parlamentar no sistema de presidencialismo de coalizão. Porém, em apenas nove meses o governo promoverá uma nova mudança no comando das pastas. O que deu errado?

Humberto Costa – Na verdade, o problema foi que, diferentemente do que está sendo feito agora, naquele momento, a formação de um ministério ocorreu sob um ponto de vista partidário, sem que isso necessariamente significasse também representação congressual entre os deputados e os senadores. Isso fazia com que não houvesse um compromisso entre o ministro, o governo e o parlamentar. Agora, a presidenta está fazendo uma composição em que as bancadas sugerem nomes, em que estão sendo ouvidos os parlamentares. Isso, se viabilizado, pode dar uma estabilidade, uma governabilidade que hoje não temos.

IM – Um dos pontos observados nessa reforma é uma preocupação maior com o PMDB da Câmara. É, de fato, no foco de rebeldia do PMDB da Câmara que se concentra a reforma?

HC – Eu não digo rebeldia, mas é um segmento que, se estiver junto com o governo, tende a ajudar muito, até porque eles formam um bloco junto com outros partidos e o influenciam também. Não tenha dúvida que, se o PMDB da Câmara estiver alinhado com o governo, facilita muito as coisas.

IM – O senhor falou sobre a falta de representatividade congressual. Muitos analistas políticos diagnosticam uma sub-representação do PMDB, apesar de ter muitas pastas. Tanto que hoje se dá como certo o comando do partido na Saúde e eventuais pastas adicionais. O senhor concorda com essa sub-representação?

HC – Não acho que seja sub-representado. Tem ministérios importantíssimos, em uma quantidade razoável.

IM – Alguns estudos sobre coalescência mostram que, em termos de verba discricionária do Orçamento, o PMDB aparece atrás do próprio PT e de partidos como PSD e PP.

HC – Mas o problema não é só esse. É preciso levar em consideração capilaridade, importância política. Você tem que levar várias coisas em consideração. Não é meramente a questão orçamentária, até porque há ministérios como o da Saúde, que tem orçamento gigantesco, mas em grande parte voltado à transferência de recursos. Não há grande discricionariedade ali. No entanto, inegavelmente, é um dos ministérios politicamente mais importantes, com maior capilaridade.

IM – Qual é o significado para o PT ceder essa pasta?

HC – É muito ruim para nós. Só se justifica mesmo pela necessidade de construir uma governabilidade. Mas é muito difícil.

IM – Há uma pressão por redução de ministérios e, ao mesmo tempo, maior número de interessados que não podem ser contrariados. São menos cargos para mais interesses. Somente o PT vai ter que perder para essa conta fechar?

HC – O PT tem o maior número de ministérios. Mas [mesmo com o enxugamento e as realocações] o partido vai ficar com a articulação política e com as pastas de grande peso social. [A reforma] É questão do momento que estamos vivendo, a necessidade da governabilidade. Vão achar ruim, mas é isso mesmo. O que vai fazer?

IM – Qual é a recepção que o senhor espera dessa afronta ao PT, com os movimentos sociais fundidos em uma única pasta?

HC – Se a política se mantiver e a redução da estrutura não significar qualquer rompimento com o conteúdo da política e com a questão da intersetorialidade – ou seja, se houver manutenção o conteúdo político –, vai haver uma chiadeira, mas as coisas vão acontecer.

IM – Mas uma avaliação real sobre os efeitos depende de uma experiência em curso. No curto prazo, observa-se maior insatisfação dos movimentos da esquerda desde que a mudança na política econômica ocorreu.

HC – Sim, mas é isso. É um dado de realidade. As pessoas sabem que estamos vivendo um momento de transição, em que é preciso fazer esse ajuste e que o governo já sinalizou com as políticas de retomada do crescimento, com algumas já sendo implementadas. Simplesmente não há outro desenho. O outro desenho que tem é não ter governabilidade, não ter base no Congresso Nacional, e, com isso, ficarmos condenados a ter que passar um bom tempo para poder superar esse momento de necessidade de ajuste. Porque o ajuste vai ficando cada vez maior para se fazer, já que as condições políticas vão repercutindo nas condições econômicas: uma vai levando à deterioração da outra. Hoje essa questão da governabilidade é o xis da questão.

IM – O que o senhor espera dessa reforma? O fantasma do impeachment tende a ser controlado com isso? Quais são os riscos?

HC – Espero que a reforma seja suficiente para viabilizar a aprovação dos principais projetos de interesse do governo. Inclusive, esses que compõem o ajuste e que sirvam também para sepultar qualquer possibilidade de alguém puxar um processo de impedimento, naturalmente. E dar certa tranquilidade em termos de estabilidade política.

Infomoney

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