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Brasil

01/04/2016


‘Lutas de setores trarão resultados nefastos para o convívio democrático’

Entrevista exclusiva

O filósofo Roberto Romano conversou com a Revista NORDESTE sobre a atual crise política, social e econômica vivida no Brasil. Romano se mostra preocupado com o cenário, apesar de considera a Operação Lava Jato um divisor de águas.

Revista NORDESTE: Qual a dimensão da ação que a PF tomou contra o ex-presidente Lula para a política do Brasil?
Roberto Romano: A dimensão adequada aos desmandos cometidos com o dinheiro público em nosso país. Agora, se a pergunta se dirige para as consequência da Operação Aletheia, creio que certamente trará enorme insegurança política para todos os atores, governistas ou de oposição. Governistas, porque pode acelerar o impeachment ou cassação da presidente. Oposição porque não está preparada nem tem planos estratégicos para um possível Day After. É de se temer muita agitação nas ruas, lutas de setores cujos resultados com certeza serão nefastos ao convívio democrático.

NORDESTE: Existem excessos na condução das operações?
Romano: Excessos podem ocorrer em todas as operações de polícia ou judiciais. Cabe corrigir tais desvios. Mas seria um desastre coibir tais operações com o pretexto dos excessos. Vivemos desde 1500 sob o signo da corrupção (lembremos o Padre Vieira….). Logo, o rigor da lei quando aplicado, pode ser corrigido, não abolido.

NORDESTE: Isso prejudica de alguma forma o Governo? Não me refiro a imagem e popularidade, mas ao ato de governar em si.
Romano: Infelizmente, desde 2015 não existe mais Poder Executivo federal funcionando com a autoridade requerida pelo sistema presidencial. A presidente não governa, apara crises de todo tipo, inclusive a que define sua possível cassação ou impeachment. Não existe administração continua e responsável da política, do direito público, da vida social. Mas esta situação de não governo prejudica a todos, inclusive os que se posicionam na oposição.

NORDESTE: A oposição se beneficia com isso?
Romano: Não, de modo algum. Em primeiro lugar ela não é mais democrática ou eficaz do que o governo. Em segundo, ela também está enredada em casos gravíssimos de corrupção. Em terceiro, ela não tem coesão política que lhe permita agir com rapidez e sentido na atual crise. Cai Dilma, ou não, a oposição continua amorfa, dividida por ambições pessoais e grupais, enfim, toda a mazela do sistema partidário brasileiro, oligarquizado e corrupto.

NORDESTE: Grandes nomes do PSDB, por exemplo, já foram citados em delações, mas eles não foram escoltados para depor. Por que?
Romano: Devido, imagino, ao fato de que a maioria deles não está presa ao esquema maior de corrupção, negado pelos líderes petistas, a começar com Luís Inácio da Silva. Mas em pouco tempo este "monopólio negativo" do petismo pode ser superado pela escolta de lideranças tucanas e de outros partidos. A abertura de processo contra Eduardo Cunha é sinal de semelhante possibilidade. 

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