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Brasil

11/05/2017


Revista NORDESTE: A Ciência sob Ataque

SBPC alerta para situação crítica vivida por pesquisadores no Brasil com falta de repasse em verbas pelos entes da federação e desarticulação de fundações de apoio

Por Paulo Dantas

O físico Nelson de Luca Pretto é conselheiro da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC) e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Integrante do órgão desde a época de sua graduação, em plena ditadura militar, Pretto conversou com a Revista NORDESTE sobre o atual momento da ciência brasileira, que vive o perigo de desmonte de sua estrutura de apoio.

Revista NORDESTE: O que é a SBPC e qual a importância dela?
Nelson Pretto
: É a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. É uma sociedade científica criada desde a década de 1940 do século passado que congrega cientistas de todas as áreas do conhecimento. Hoje são mais de 120 sociedades científicas que são afiliadas da SBPC. Essa entidade, portanto, tem um papel muito importante na política científica e tecnológica do país, porque ao congregar as diversas áreas ela tem a possibilidade de representar politicamente e academicamente esse conjunto de áreas do conhecimento. Portanto, a SBPC de fato tem se constituído num importante espaço para que cientistas possam efetivamente ter um nível de articulação e interlocução mais forte com os governos, tanto federais, estaduais e municipais, e com a sociedade de uma maneira geral. Particularmente, durante o período da ditadura militar, a SBPC se constituiu em praticamente o nosso único espaço onde podíamos discutir abertamente, não sem sofrer uma série de dificuldades, uma delas no Ceará, constituiu no único espaço onde os grandes temas nacionais, inclusive a campanha pelo retorno a normalidade democrática do país aconteciam nas reuniões anuais. A SBPC teve um papel importante durante esse período.

NORDESTE: Como funciona hoje essa articulação feita pela entidade?
Pretto:
Ela funciona como desde o começo. Ela se constitui através de uma diretoria que é eleita pelos associados que estão em dia e um conselho. A partir de um determinado momento, no início dos anos 2000 também começaram a se constituir as secretarias regionais que são extremamente importantes para esse perspectiva de uma participação mais ampla de toda a academia nas definições dos rumos da SBPC. Porque, obviamente, uma diretoria sempre termina estando mais centrada em grandes eixos geográficos e políticos do país, e claro que quando se criam as secretarias regionais tem a possibilidade de ampliar a democracia interna da entidade.

NORDESTE: Quais são as áreas de atuação?
Pretto:
Todas as áreas. São mais 120. Humanidade, licenciatura, engenharia, saúde, biologia, comunicação, educação. Todas as áreas.

NORDESTE: Quais os estados do nordeste que têm trabalho sendo executado pela entidade?
Pretto:
Como a SBPC é uma entidade nacional, ela tem atuação em todos os estados. Em alguns estados isso se constitui através de secretarias regionais. No caso na Bahia eu fui secretário regional, hoje sou conselheiro. Pernambuco tem também uma secretaria regional muito forte. E em outros estados que não têm secretaria regional, nós temos cientistas que são sócios da SBPC que fazem parte ou do conselho ou da diretoria. Então por exemplo, em Manaus um dos nossos atuais vice-presidentes está naquela cidade, o professor Hélio Candote. E todo o conselho é dividido por áreas. Tem Nordeste, Norte, Centro-Oeste, Sul, São Paulo, São Paulo Interior. Ou seja, há uma divisão das áreas que compõem o Conselhos, de tal forma que o Conselho tem efetivamente uma representação nacional.

NORDESTE: Sob a ótica da SBPC para onde está caminhando o progresso e em que o Brasil deve apostar?
Pretto:
A primeira questão fundamental é que o Brasil deve apostar no fortalecimento das suas políticas de ciências e tecnologia, educação, cultura, saúde. Ou seja, nós precisamos efetivamente de mais investimento e mais fortalecimento do desenvolvimento científico e tecnológico do país. Lamentavelmente, estamos vendo e agora particularmente com esse governo que entrou pelas portas dos fundos na administração do país, nós temos visto cortes muito violentos do ponto de vista do financiamento e do próprio prestígio político da Ciência e Tecnólogia ao fazer a junção do Ministério da Ciência e Tecnologia com o Ministério das Comunicações, o que obviamente enfraquece os dois ministérios. E também com a proposta inicial do fechamento do Ministério da Cultura, que felizmente, foi revertido a partir da forte pressão de artistas sobre o governo que acaba de se instalar no Palácio do Planalto.

NORDESTE: No momento esse seria o maior desafio e como ele poderia ser vencido?
Pretto:
No momento esse é o maior desafio, porque estamos vendo em diversos estados e no Governo Federal um corte violento com redução dos investimentos e isso é bastante grave. O que nós temos visto ao longo do tempo é que a ciência brasileira vem crescendo muito do ponto de vista de suas pesquisas e da sua presença internacional, seja através de artigos, ou através das grandes redes de pesquisas que estão se configurando fazendo com que a ciência brasileira avance bastante. Agora se não tivermos financiamento e principalmente uma desburocratização do financiamento da pesquisa isso fica muito difícil.

NORDESTE: O senhor pode citar algumas quais áreas relevantes de pesquisa feitas hoje no Brasil?
Pretto:
O Brasil hoje, felizmente, tem uma postura internacional bastante significativa em diversas áreas. No campo da Saúde temos bastante avanços. No campo do clima temos pesquisadores brasileiros que atuam de maneira intensa internacional. No campo da física, humanidades, antropologia. Na verdade a ciência brasileira, com todas as dificuldades, têm ganho espaço internacional e principalmente espaço nacional, bastante significativo. O que não significa que não tenham inúmeros problemas de inúmeras áreas que precisam ser fortalecidas, claro.

NORDESTE: Ainda insistindo neste tema, no Nordeste seria possível citar alguns nomes ou estudos relevantes feitos na região?
Pretto:
Eu particularmente não sei dizer. São vários os nomes de áreas inclusive que não são as minhas. O professor Sidarta na Universidade Federal do Rio Grande do Norte tem um trabalho bastante significativo, a física de Pernambuco tem uma referência bastante forte, a Comunicação no Ceará, educação no Rio Grande do Norte e na Bahia. Aqui na Bahia temos um trabalho forte no campo da saúde coletiva e da antropologia. Inúmeros outros trabalhos que realmente eu não saberia elencar mais, do que isso que são informações mais genéricas.

NORDESTE: O senhor falou no início da entrevista de uma luta durante a ditadura de um evento que aconteceu no Ceará. O senhor poderia retomar esse ponto?
Pretto:
No período da ditadura militar a SBPC era um espaço muito grande das liberdades e grandes discussões políticas e a reunião que foi programada no final da década de 70 para a Universidade Federal do Ceará e foi proibida pelos militares de ser realizada e foi transferida de forma emergencial para a PUC de São Paulo e eu como estudante de graduação em física ajudei de forma intensa na organização. Envolvi-me bastante com a luta estudantil, desde que entrei na universidade faço parte da SBPC, e organizamos essa reunião e foram memoráveis os grandes debates políticos que aconteceram dentro do TUCA em São Paulo. Mas também tivemos, eu participei enquanto estudante durante a ditadura militar, reuniões como a de Brasília que ficávamos cercados pelo Exército por conta das discussões. E época discutíamos não só a democracia, mas o acordo nuclear Brasil/Alemanha, a liberdade nas comunicações, a censura e todas essas questões. A SBPC acabou de lançar o seu Centro de Memória que é um trabalho magnífico que valeria a pena ter mais um pouco de informação.

NORDESTE: Nós vemos hoje no atual governo um desmonte de muitas conquistas conseguidas nos últimos anos, pensando na questão da Ciência e Tecnologia, permanecendo esse cenário o que podemos esperar?
Pretto:
A primeira questão fundamental é que a gente está lutando para que esse cenário não permaneça. Ou seja, não podemos conviver com um país vivendo uma anormalidade democrática. Então essa é uma luta da SBPC em defesa da democracia e é uma luta particularmente minha com envolvimento bastante forte meu na Bahia. Agora permanecendo esse cenário várias pesquisas sofrerão continuidade. Nós estamos vivendo isso fortemente na Bahia. A SBPC está envolvida na luta da nossa fundação de apoio a pesquisa. A nossa Universidade Federal da Bahia fez uma nota bastante dura com relação a falta de transferência dos recursos que são definidos por lei para a nossa fundação de apoio. Estamos vendo que várias fundações de apoio… A SBPC está fazendo carta dirigida a todos os governadores mostrando a crise. No Rio Grande do Sul, por exemplo, ameaçou-se fechar a fundação de pesquisa. Ou seja, isso tem acarretado um risco muito grande para o desenvolvimento das pesquisas, em algumas áreas que essas pesquisas dependem de insumos e de uma continuidade permanente isso pode ser prejudicado do ponto de vista que a pesquisa possa nem mais continuar. Então essa é a nossa luta e vigilância permanente.
 

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