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Brasil

05/07/2017


Revista NORDESTE: A história revisitada do Nordeste

Políticas de desenvolvimento da última década corrigindo distorções e ajudado a eliminar as desigualdades regionais têm sido afetadas com o novo ordenamento do Governo Federal restringindo os investimentos nos 9 estados. Conheça mais sobre a economia do Nordeste ao longo dos anos

Por Walter Santos

Não precisa “economizar-se” em Harvard, nem mesmo “doutorar-se” em Campinas para compreender o processo histórico e econômico social que fez do Nordeste a primeira região sede da capital do país (Salvador) a enfrentar mais de séculos de abandono das grandes políticas da coroa, até a era republicana. Fase essa que foi conduzida pelo olhar e postura elitista concentradora, ainda hoje com resquícios vivos de “Casa Grande & Senzala”, do genial Gilberto Freyre. Seria pouco enxergar, na análise crítica de Celso Furtado, que só com redução das desigualdades poderemos ter um Brasil mais igual, cidadão e líder.

Há quem renegue, mas depois que a família real portuguesa decidiu não ficar mais em mares baianos, onde permaneceu por dois meses de soslaio, e partiu para se instalar no Rio de Janeiro – gerando em 1808 o advento da “Abertura dos Portos às Nações Amigas” para satisfazer a Inglaterra -, o Nordeste entrou num processo de decadência.
O significado da mudança da capital brasileira é tão forte que, enquanto Salvador comandava as ordens da corte, um estado vizinho implantava o primeiro transporte coletivo férreo puxado à tração animal, de origem inglesa, exatamente porque em torno da Grande Recife (PE) instalava-se o ciclo áurea da Cana-de-Açúcar, que celebrou um momento importante da economia do Brasil.

Como era potência econômica, Recife se fez sede deste marco no transporte de massa. Isso não se deu, por exemplo, em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, ou qualquer outra grande metrópole. Nos anos de 1872, a maior cidade da América do Sul e então coração do império, o Rio de Janeiro, ainda era pequena para os rumos econômicos que viriam.

Centralização do poder

Com a instalação da família real nesse território geopolítico, grandes obras e instituições, a exemplo do Banco do Brasil e dos Correios, foram atraídas para o Rio de Janeiro. Isto não desmerece nada, mas a miopia da elite centralizada entre o Rio e São Paulo passou a ignorar enormemente o Nordeste brasileiro, onde já havia concentrado a capital política do país, da mesma forma o Norte e Centro-Oeste, inexistentes para o interesse elitizado.

No início das políticas da industrialização brasileira, tomando por base até a influência da fase áurea da Revolução Industrial da Inglaterra, o Governo Federal decidiu centralizar no Sudeste 80% dos investimentos industriais, dos quais 44% ficaram em São Paulo. Daí compreendermos porque durante tanto tempo se convencionou o estado como “Locomotiva do Brasil”.

De lá para cá, ao Nordeste restou desatenções econômicas e sociais permanentes. A região passou a conviver com migalhas de ações emergenciais diante do secular fenômeno da seca, que dizimou milhares de pessoas ao longo das décadas. 

Este quadro de penúria fez do nordestino um migrante contumaz para construir as ‘selvas de aços’ do Sudeste e do Sul, erguidas pelos “nortistas”, como assim eram chamados os que povoavam as periferias das metrópoles e que saiam da região mais penalizada do país – conduzidos aos estados sulistas em “paus de arara” – veículo que têm as mais duras condições de traslado para uma pessoa humana. O Nordeste passou décadas sendo a pátria do êxodo rural dos castigados pela seca imortalizada em muitas canções populares famosas.

Juscelino e Lula: fases de mais apoio

Depois de anos de instabilidade política até o século XX, movido pela “cultura golpista” implantada nos quartéis e nas armas do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, e com o apoio de civis conservadores, o Brasil passou a enfrentar outro momento delicado: a coragem do presidente Juscelino Kubitschek de construir Brasília e transferir a sede da capital do país para o centro-oeste, dando-lhe natureza mais central ao poder e decisões de futuro distante do Rio de Janeiro.

Mesmo enfrentado a fúria carioca, através de Carlos Lacerda, Juscelino teve a competência de dar significado ao seu governo, por meio de políticas que chegaram a todas as regiões brasileiras. Não mais somente aos estados do Rio e de São Paulo, onde se concentraram, por décadas, as grandes obras do Brasil. A concentração de renda e a ampliação das desigualdades regionais são heranças passadas da cultura da elite míope e das necessidades de alguns brasileiros. 

O presidente mineiro teve coragem e enfrentou a imperiosa necessidade de levar o Brasil a um estágio de modernidade, rasgando estradas na direção do Norte e, entre outros feitos, deflagrando políticas de desenvolvimento regional para enfrentar as intempéries climáticas e desvantagens econômicas.

Ao chamar para perto de si o economista paraibano Celso Furtado, indicado por outro economista e também paraibano, Juarez Farias, o então presidente passa a abrigar os primeiros planos de desenvolvimento planejados e executados por uma equipe jovem de pensadores, sob a batuta do recém-concluinte em doutorado na França.
Com Celso Furtado, Juscelino implantou as primeiras medidas na direção do desenvolvimento regional no Brasil, na perspectiva de reduzir o fosso econômico existente entre Rio–São Paulo e o restante do país.

Fora do eixo principal

No Nordeste, a implantação da Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) foi imprescindível. Além da construção do imponente prédio, o órgão estimulou a capacitação de técnicos da própria região e a sedimentação do conhecimento. Enfim, pela primeira vez eram adotadas linhas de financiamento para atividades econômicas específicas naquela região.

Pela primeira vez, desde que a família real deixou Salvador, o Governo Federal voltou-se para uma política estruturante e de efeitos socioeconômicos que abrangeram o Nordeste.
Mas, como conta a história, o Golpe Militar de 1964 interrompeu o ciclo de estruturação sócio–educativo e empresarial por força da nova cultura de domínio estabelecida, na qual as regras atendiam muito mais a esquemas políticos de sustentação, do que propriamente de ampliação do mercado e do desenvolvimento bem estruturado no Nordeste. Os novos modos permitiram a politização coronelista, ainda hoje vigente em menor escala no Nordeste. Com isso, vieram os desvios de identidade de projetos e, sobretudo, de recursos públicos que mudaram o curso do seu destino, passando para contas bancárias particulares. Este ciclo ensejou interromper as linhas básicas de Celso implantadas por Juscelino.

Inversão de prioridade

Sobre o desenvolvimento do Nordeste, não se pode deixar de levar em consideração outras políticas importantes, como também ignorar as qualidades intelectuais do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele conduziu pactos localizados com lideranças como Antônio Carlos Magalhães (ACM), na Bahia, atraindo empresas como a Ford, e em Pernambuco, com Jarbas Vasconcelos, que deu início ao Complexo Portuário de Suape. Porém, o fechamento da Sudene aponta para uma constatação: a de que as políticas de FHC para o Nordeste não tiveram uma perspectiva macro de reincremento do desenvolvimento como redutor das desigualdades.

É a partir do Governo de Lula, em 2003, entretanto, que os nove estados nordestinos passaram a ser incluídos numa nova etapa. Realidade a qual o Governo Federal passou a incluí-los nas prioridades de investimentos nacionais à imperiosa necessidade de aportar grandes obras e recursos para fomentar a economia, num patamar que, oito anos depois de seus dois mandatos, elevaram a economia e a vida dos cidadãos a um nível nunca alcançado em toda a história da região. Além de estaleiros, portos, siderúrgicas, duplicação de rodovias federais, atração de investimentos antes concentrados no Sudeste, como grandes indústrias, inclusive automobilística, a gestão de Lula passou a tratar de um dos mais graves problemas: a chamada exclusão social. O governo Lula deu dignidade a milhões de brasileiros incluídos na lista dos miseráveis. 

Brasil tem novo rumo

Mais do que incrementar a economia, Lula apostou na nova fase da educação, tendo como um dos seus executivos à frente de programas sociais a então chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Ela comandou o que se convencionou como as políticas de inclusão social.

Dando apoio ao micro e pequeno negócio, e sem se desleixar das grandes obras advindas dos investimentos na construção civil, as ações do governo têm resolvido problemas sociais gritantes, como o da moradia de milhões de brasileiros. É na fase de Dilma Rousseff, a partir de 2010, que as obras se ampliam, os investimentos do BNDES, BNB, CEF, BB fazem destes instrumentos de incentivo financeiro o esteio para o Nordeste se manter crescendo, como haverá de assim ser nos próximos anos, regando a iniciativa privada nos vários níveis, da mais alta estrutura, ao micro e pequeno negócio.

A Transposição do São Francisco como símbolo de medida ao enfrentamento da seca, cuja obra já permite identificar água jorrando em Floresta (PE), já é realidade e expressa o significado de Dilma na contemporaneidade. A história fala por si só e pelos personagens que fizeram ou fazem a diferença entre o Brasil de perspectiva com o país influenciado pela cultura de “Casa Grande & Senzala”, a odiar o crescimento dos excluídos e dos mais humildes, convivendo lado a lado com todos os brasileiros – irmãos. 
 

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