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Brasil

02/09/2016


Revista NORDESTE: Em entrevista, Zé Ramalho fala dos 40 anos de carreira

entrevista

Não interessa a verdade, só fazer parte da massa

Em entrevista, Zé Ramalho fala sobre 40 anos de carreira, avalia a música atual no Brasil e dá recado para política: ‘Sai candidato, a vida segue e o artista fica’

Por Jhonattan Rodrigues

Dia 5 de agosto é uma data especial para o povo de João Pessoa. Nesse dia foi fundada a Cidade Real de Nossa Senhora das Neves, as margens do Rio Sanhauá, em 1585. Em 2016, no dia de seu aniversário de 431, a cidade recebeu Zé Ramalho, de volta à sua terra. O cantor aceitou convite do governo do estado, e resolveu comemorar de uma só vez os 40 anos de sua carreira, no dia do aniversário de João Pessoa, em um show único com a Orquestra Sinfônica da Paraíba, no teatro Pedra do Reino. Nascido em Brejo do Cruz, no sertão paraibano, Zé Ramalho veio para João Pessoa ainda adolescente e a partir daí sua vida mudou, pois foi na capital que deu seus primeiros passos na música. Posteriormente, foi para o Rio de Janeiro tentar carreira, e lá permanece até hoje. Zé Ramalho é discreto e mantém a aura de mistério que igualmente permeiam suas músicas, mas na coletiva feita no teatro Pedra do Reino, falou da importância de João Pessoa para sua formação pessoa e musical, sobre suas influências, o que acha da música brasileira atual e da sua felicidade em estar de volta à terra para fazer o show histórico.
A NORDESTE esteve lá e o resultado você pode conferir a seguir (as perguntas foram feitas em conjunto com vários veículos de imprensa).
 

Revista NORDESTE: Qual a sua relação com a cidade de João Pessoa?

Zé Ramalho: O meu aprendizado cultural e artístico foi todo aqui em João Pessoa. Eu vim para cá com 15 anos de idade. Era 1964. Época em que começou a acontecer uma reviravolta no mundo chamada contracultura. A juventude que estava nascendo nesse tempo, que não tinha uma identidade artística na mídia, como música, cinema, teatro, literatura, eu falo pela minha geração, por nada a gente se interessava. O que tocava nesse tempo? Boleros, música latina… e a única coisa que a gente se detinha para ouvir, a rádio Borborema, de Campina Grande, lugar onde morei por um tempo, e rádio Caturité, era Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês e sua gente. Estes eram os grandes astros e ainda são para mim, até hoje. Quando venho para João Pessoa, com essa idade, me deparo com o inicio dessa mudança. Na rádio começa a surgir as músicas da jovem guarda que me arrastou. O que envolveu para a música foi o que é chamado hoje de música pop. Quando você tem 15 anos de idade, é como Raul Seixas dizia: “a gente é inocente, puro e besta”, porque tudo que a gente ouve, nos envolve. Porque até então não existia aquele formato de música. Era uma coisa nova para gente. E eu nunca imaginei, naquela época, que um dia estaria tocando em palcos ou fazendo música. Me vi resgatado por um grupo aqui de João Pessoa chamado “Os Quatro Loucos”, que era dos irmãos Golinha e Floriano. Eu vi esse grupo uma vez, na Praça da Independência, tocando em cima de um caminhão, fazendo propaganda política para o pai deles, que estava se candidatando a vereador. Só que o que eu vi, nessa época, Vital Farias, outro genial compositor paraibano, era o guitarrista dos Quatro Loucos. Vital estava tocando com uma guitarra vermelha linda, e fiquei enfeitiçado. Eu, vendo aquela guitarra, pensei “é isso que eu quero fazer”. Não sabia como eu ia poder um dia adquirir um instrumento daqueles, ou como ia aprender a tocar, mas a partir dali eu comecei a querer me aproximar desse universo. Vital teve de sair por compromissos como compositor de teatro e eu fiz um teste com os irmãos para entrar em seu lugar e fui aceito. Essa fase do grupo tocando em bailes, aniversários, festas de colação de grau, aqui em João Pessoa, foi um aprendizado muito grande para mim, tocando em bailes que duravam quatro horas, todas as músicas que tocavam no rádio. Essa riqueza de praticar isso me deu uma base muito grande.

Até então eu não tinha mergulhado na cultura do Nordeste. Isso veio acontecer muitos anos depois. Essa soma dessa fase moderna, pop, com quando eu descubro violeiros, cantadores… Gonzagão, Jackson, Marinês passam a ter um sentido muito mais profundo, porque eu tive contato com todos esses ícones ao vivo. Dez anos depois, em 74, eu fui convidado para fazer um filme com a cineasta de São Paulo, Tânia Quaresma, que estava fazendo um documentário chamado Nordeste: cordel, repente e canção. Quando ela chegou aqui no Nordeste, já tinham dito a ela “olha, tem um cabeludo lá em João Pessoa que sabe onde você vai encontrar esses caras”, e ela me procurou. Esse trabalho foi importantíssimo. Eu servi como rastreador por Paraíba, Pernambuco, Ceará e parte da Bahia. Passamos um mês viajando em transportes rústicos, mas foi a magia, aquela coisa poderosa que tem essa música de raiz no Nordeste. Eu tenho o privilégio de estar com os irmãos Batista, Otacílio, Lorival e Dimas, no Vale do Pajeú, naquelas varandas, vendo aqueles repentes e conversando com eles, ela gravando e filmando tudo… essa junção desta época, da jovem guarda com esse contato direto com a cultura da minha região, foi o que me fez brotar. Porque através dessas formas de escrever, como martelo agalopado, sextilhas, eu passei a ter certeza para escrever músicas, que até então eu não fazia. A música Avôhai, por exemplo, na letra dela existem várias modalidades que estão implícitas ali. Foram as primeiras músicas que eu fiz já sentindo essa influencia direta. Porque uma coisa é você estudar a literatura de cordel; outra coisa mais profunda é você absorver. Eu passei a sentir isso quando via os repentes, as contendas. Eu ia ao encontro desses violeiros. Várias vezes fui convidado para servir como jurado nos festivais de violeiros e me lembro tudo isso ser da maior importância para meu trabalho. E tudo isso aconteceu aqui em João Pessoa, essa minha procura, minha busca. Teatro Santa Rosa era meu laboratório. Eu fiz alguns shows ali onde experimentei meus limites, até onde eu posso ir no palco, já experimentando minhas músicas.

NORDESTE: Como foi a saída de João Pessoa?
Zé Ramalho
: Como todos os autores do Nordeste desta época, Belchior, Fagner, Elba Ramalho, em Recife, Alceu (Valença), Geraldo (Azevedo), todo mundo foi para Rio-São Paulo. Porque não era fácil. As gravadoras estavam ali e tudo que a gente tinha era conseguir coragem para enfrentar isso.
Eu estava na universidade nessa época. Cursei até o segundo ano de medicina, por incrível que pareça. Meu avô me dizia uma coisa muito séria: “você tem que saber o que você quer fazer da vida”. Coitado, ele foi o primeiro a ouvir a notícia que eu, no segundo ano de medicina, já com essas músicas todas prontas, já não aguentava mais ir para a universidade e a cabeça ficar pensando naquelas músicas e o professor ficar explicando física, química, essas coisas complicadíssimas… até que um dia tomei a decisão: deixei meu livros em cima da minha mesa, eu tinha uma pequena moto nesse tempo, peguei minha moto e voltei para casa. Reuni a família toda e comuniquei: “pessoal, não vou mais para a faculdade. Eu quero ir para Rio de Janeiro ou São Paulo. A profissão que quero fazer é música, eu quero ser artista, quero cantar…”. Foi um desastre eles ouvirem isso, um desapontamento muito grande. Eu entendo isso tudo, mas ele mesmo ( o avô) me ensinou a fazer isso. E no fim me pagaram uma passagem para eu ir de avião para o Rio de Janeiro e começar essa longa e mais difícil ainda fase de batalhar esses longos corredores das gravadoras.

NORDESTE: Porque fazer o concerto aqui em João Pessoa?
Zé Ramalh
o: Antes de tudo é uma honra muito grande para mim estar realizando este trabalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba. Nunca imaginei que isso seria possível. Estar aqui na minha terra, e ter essa oportunidade única de realizar esse concerto quando estou completando 40 anos de carreira. No próximo ano, em 2017, estou fazendo exatamente 40 anos do meu primeiro disco, Avôhai. Eu conto minha carreira a partir deste disco porque é o meu disco solo, o meu pensamento completo. O disco que eu realizei, que hoje em dia é tão falado, o Paêbiru, foi realizado em 1974, em Recife, com outro artista. Um disco que hoje é raríssimo, disputado no mundo inteiro. Quando você divide um disco com outra pessoa, nunca a sua ideia pessoal está completa. Você tem que dividir com outro isto. E foi em 1977 que eu consegui começar minha carreira solo, com o disco Avôhai. Partindo disso daí, 40 anos de carreira, eu estar aqui em João Pessoa, fazendo esse concerto, ao mesmo tempo no aniversário da cidade de João Pessoa, é de uma felicidade imensa. É uma coisa exultante para mim ter recebido este convite diretamente do governador, que é uma pessoa que se lembra de mim, lá do bairro do Miramar, quando eu morava aqui, um garotão. Eu me lembro do Ricardo (Coutinho) andando por ali. Havia uma rua que era cheia de pés de tamarindo, ali no Miramar. Quando o tamarindo amadurecia a gente ficava tirando as favas. Era uma graça. E essa intimidade com ele, que nasceu nesse tempo. Então tudo que está acontecendo para mim é de um valor extraordinário. Talvez seja um dos shows mais importantes que eu vou me lembrar para sempre.

NORDESTE: Como é que é estar no top, fazendo show, tocando em rádio o tempo todo. Como é que se mantém nisso?
Zé Ramalho
: Não é muito fácil, não. Porque a concorrência, como se diz, quase toda concorrência é desleal. Não existe ética, o pau come, o couro come, se você der mole vão te atropelar, vão passar por cima de você. Eu tive que ter cuidado. A partir do momento que os anos foram passando eu cometi muitos erros e procurei ir corrigindo aos poucos. Hoje em dia eu tenho meus critérios e tenho uma coisa em mente: cada vez mais aprimorar e procurar oferecer o melhor para as pessoas que pagam para ver um show meu, as pessoas que compram ingresso, que vão a um teatro, a uma casa de shows, eu acho que tem que ter muito respeito por isso. Estamos numa época onde os artistas não aparecem mais nos programas de rádio, que são programas muito vulgares, eu acho. Disponibilizam o artista apenas como item, não como era antigamente, você ia pra um programa de rádio, cantava sua música, ia embora e aquilo fazia um efeito avassalador. Hoje, para ir num programa de televisão, se apresentar, tocar uma música, tem que ficar lá até o fim, esperando caso alguém queira lhe fazer uma pergunta, existem muitos programas que são feitos nessa vibe. Eu não tenho mais estrutura para participar desse formato. Estou lhe dizendo isso para você ver como é que a pessoa se mantém. Eu procuro ficar cada vez mais distante da televisão por causa dessas coisas, contudo compenso trabalhando muito em shows. Praticamente 70% do meu tempo é viajando por todo o Brasil. Essa é a questão do nível, de procurar fazer apresentações que as pessoas queiram ver de novo, a intenção é essa, você fazer uma coisa tão bem feita, passar essa energia para as pessoas e elas quererem ver mais “quero ir de novo. Quero assistir de novo”. E os empresários quando veem, por exemplo, você lotar uma casa como o Metropolitan no Rio de Janeiro, quando veem você lotar o Espaço das Américas em São Paulo, eles todos ficam sabendo disso e vão querer fazer algo com você também. São casas difíceis de lotar por que são muito grandes, são enormes. Por que o tipo de trabalho que cada artista faz… Eu sou completamente, como eles chamam “um cult”. Não sou nenhum galã, eu não tenho mais 20, nem 30 anos, sou um sexagenário, safenado e procuro cada vez mais cuidar da minha saúde para poder estar com a voz em dia. Isso sim, minha voz é uma coisa importantíssima. Uma das atrações para as pessoas nos meus shows é o meu jeito de cantar e eu procuro respeitar isso cuidando, já que eu quero estender a minha vida, tanto minha vida artística, quando minha vida biológica, eu procuro cada vez mais me cuidar. Tenho uma energia ainda que me dá vontade de andar muito, viajar muito. Ainda quero fazer muita coisa, para isso preciso de saúde. Então essa coisa da concorrência é uma coisa muito séria, porque eu vejo muitos colegas serem passados para trás, vi muitos colegas serem engolidos pela própria mídia, tem coisas abomináveis que acontecem com grandes artistas, de grande valor que era para estarem totalmente na mídia tamanho a importância do trabalho. Uma pessoa como Cátia de França, por exemplo, uma pessoa que eu produzi, tive o orgulho de produzir o primeiro disco dela, logo que fiz o Avohai. Levei Cátia pra gravadora, fizemos o disco dela, é de um nível muito alto, só que o nível é tão alto que não pode ser popular. É impressionante que as rádios não tocam aquilo, se recusam em tocar uma música daquela da Cátia por que é literatura, é José Lins do Rego. São coisas que não colocam numa rádio, os próprios programadores e diretores das rádios sabem disso.

NORDESTE: Você tem composto ultimamente?
Zé Ramalho
: Eu nunca imaginei que essas músicas que são consideradas velhas tivessem tanto tempo de vida, atravessassem quatro décadas. Eu as vejo chegarem com força e atraindo a curiosidade de um público enorme ainda, por exemplo, as pessoas que regravam minhas músicas são cada vez mais… Chão de Giz que é uma música regravadíssima, Admirável Gado Novo e Garoto de Aluguel são as minhas músicas mais regravadas, eu libero, eu autorizo por ano umas dez ou quinze autorizações para artistas de todo tipo gravarem minhas músicas, isso é um sintoma dessa propagação, você tem que se orgulhar disso por que você vai ver que é uma coisa natural que vem daquelas pessoas, não porque aquela música vá tocar no rádio de novo, mas que ela vai atrair com certeza uma série de consumidores e vai dar uma beleza extra aquele disco, aquele DVD que a pessoa está gravando. Por exemplo, recentemente a Margareth Menezes me pediu pra liberar 3 músicas, para um trabalho que ela está fazendo. Eu fico impressionado porque ela, como artista baiana, demonstra inesperadamente, naquela coisa de axé, abertura para fazer um trabalho com esse repertório, esse tipo de música. Então eu vejo quando fico repetindo minhas músicas nos shows, quando eu penso e coloco algumas músicas, duas ou três músicas novas, as pessoas escutam, escutam em silêncio, mas o que elas querem ouvir são essas músicas, que são os clássicos. Eu raramente vou assistir um show, o último que me lembro de ter visto aqui no Brasil, foi o de Bob Dylan no Rio de Janeiro há alguns anos e tudo que eu queria ouvir eram aquelas músicas que eu fiquei encantado quando o ouvi cantando. Roberto Carlos tem que começar cantando “quando eu estou aqui” essa coisa é o que atrai, o que fazem as pessoas ficarem felizes, é esse respeito, esse desejo da plateia, que os artistas têm que oferecer a eles, cada vez que cantar essa canção você tem que cantar com mais perfeição ainda, como diz o ditado “a prática leva a perfeição”, eu nunca enjoo de cantar minhas músicas. Por ano, eu canto mais ou menos cada uma delas entre 100 a 150 vezes, você faça a conta em 40 anos quantas vezes eu já cantei essas canções e o prazer nunca morre. Eu fico me lembrando muitas vezes quando estou cantando o Admirável Gado Novo, na época em que fiz essa canção as coisas que eu estava pensando na minha vida, e ver essa canção tão antiga, ela foi cantada até nas manifestações do impeachment da presidente Dilma no Rio de Janeiro por Chico Buarque. Ele cantou essa música, saiu inesperadamente num canal de TV, a plateia começou a cantar e Chico foi atrás. Isso me surpreende por que vejo que são coisas que estão na alma do povo, não há nada que destrua isso, não há nada que apague na memória popular uma canção, seja ela qual for, por que quando entranha, é como a música de Vandré “Caminhando…”, você começa a cantar e todas as gerações sabem essa canção, não tem como você não cantar aquela coisa linda “Vem vamos embora…”, isso tudo é que dá um grande prazer aos artistas de levarem seu trabalho adiante, por que sem prazer fica muito chato.

NORDESTE: Como você avalia o que construiu e sobre o reconhecimento ou não reconhecimento dos artistas da Paraíba, qual a sua opinião sobre isso?
Zé Ramalho
: Tudo que eu fiz valeu a pena, como dizia o grande poeta português Fernando Pessoa: ‘tudo vale a pena quando a alma não é pequena’. Ser “Paraíba” no Rio de Janeiro, é ser qualquer nordestino. Não significa que seja só da Paraíba. Aparentemente é pejorativo, mas você tem que aceitar isso como uma convivência. Eu moro no Rio de Janeiro, já há 32 anos. Existe descriminação, existe preconceito. E se você não se adapta a isso, aceita e consegue conviver, você tem que sair e ir morar em outro lugar. Mas quando você permanece e encara isso… eu consigo lidar com isso hoje em dia. E procuro passar uma imagem do Paraíba, o mais naturalmente possível, completamente diferente do que eles estão acostumados a imaginar. Principalmente um artista como eu, que nunca teve vergonha de dizer que é paraibano. É Brejo do Cruz, minha terra natal. Os outros artistas paraibanos, muitos foram comigo para lá. Me lembro que recentemente, Pedro Osmar estava fazendo um documentário sobre a vida dele e mandou que eu liberasse umas imagens. Pedro Osmar era meu músico. E me lembro que Pedro teve umas tentativas de colocar o trabalho dele, e o aspecto visual dele dificultava. Pedro não tinha uma prótese dentária, tinha apenas dois caninos na frente, com um cabelo enorme, arrepiado. Era assustadora a figura dele. Eu acho isso certo… hoje em dia já não tem importância o cabelo que você tiver, hoje está tudo liberado. Mas há 40 anos atrás eram as primeiras pessoas que se arvoravam a ter uma imagem que combinasse com a sua capacidade de fazer música e o seu nível social. Pedro era um cara assim. E ele tem muito talento. Além de ser um grande músico, é um cara que compõe muito bem. Ao lado de Cátia (França), são artistas que tinham de ter um lugar maior. A sorte também que as vezes existe. Vital Farias, genialíssimo, sou um grande fã. Inclusive já gravei músicas do Vital. Sou parceiro dele, tenho maior prazer em falar do Vital. Pessoas que vieram do mesmo nível que eu vim, de grupos de baile. A música paraibana até chegar em Chico César, Lucy Alves, nunca deixará de se renovar. Sempre vai haver uma linha de artistas que chegam ao grande público. Porque já tem uma história. Desde Vandré até a Lucy Alves tem uma grande história. Sem falar em Jackson, em Marinês, porque esses são os inventores. Temos uma história já feita. Se forem contar a história da música paraibana, dará muitos livros.

NORDESTE: Queria que você falasse também do seu processo de criação.
Zé Ramalho:
A meu ver, quase todo artista é um médium. A inspiração, como a gente chama, é uma coisa que vem, que desce e a gente capta. A mediunidade varia muito para cada pessoa. Tem pessoas que desenvolvem esse lado mediúnico, estudam e vão em busca de esclarecimentos. Eu fiz muitas experiências quando eu era rapaz aqui em João Pessoa. Até nisso eu tive plataforma em Filipéia, em Jampa, de ter junto com outros artistas aqui da cidade, nós fazíamos reuniões… o artista plástico Raul Córdula, e muitos outros autores e compositores, como Carlos Aranha, que antes de ser jornalista era um autor e compositor também… havia reuniões que a gente fazia para discutir a nossa posição diante da sociedade de João Pessoa. A gente era muito xingado aqui. “Cabeludo, fresco” essas coisas. A gente andava pelas ruas e como era outro tempo era natural essa reação popular. Mas era mais uma coisa política, nosso posicionamento diante dessa fase, ainda na revolução militar. E os artistas eram todos considerados subversivos, não importando se fossem nordestinos, sulistas ou nortistas. Acho que todas essas questão que estamos conversando aqui valiam para fazer música. A coisa autobiográfica, algumas coisas é fácil a gente falar quando está fazendo uma canção, pois passa direto. Mas muitas canções que eu fiz, que são as mais curiosas, são as que as pessoas não entendem nada. “Pô, o que você está dizendo?”. Eu não estou dizendo nada. Canções como Vila do Sossego, por exemplo. São imagens que vocês está vendo naquela canção, que na época eram livros que li, filmes que assisti, e principalmente livros de psicanálise, livros de ufologia, livros de mitologia grega. Alguns livros relacionados às drogas, como a Erva do Diabo, do (Carlos) Castañeda , um livro muito lido, que passava de mão em mão; Aldous Huxley, com o livro Admirável Mundo Novo, que foi de onde surgiu Admirável Gado Novo. Praticamente todos nós lemos. Aqui em João Pessoa tinha uma sessão genial do Cine Municipal, que acho que nem existe mais: o Cinema de Arte, nas quintas feiras. Eram filmes que jamais teria público se fossem colocados no fim de semana. Filmes do François Truffaut, do (Jean-Luc) Godard, filmes europeus genialíssimos na época. Toda essas fontes de informação juntas nos levaram a compor músicas falando destas artes.

NORDESTE: Hoje tem alguns talentos despontando, talvez não tenham ganhado ainda o reconhecimento que merecem. É mais fácil hoje para um artista conseguir o espaço do que na sua época?
Zé Ramalho:
Aqui na Paraíba tem muito músico genial. Hoje em dia é mais difícil que no meu tempo. É o inverso. Se naquele tempo foi difícil para nós, é muito mais difícil para quem quer ser músico ou compositor e seguir uma carreira, porque as gravadoras estão acabando. Já, já não existe mais nada. Só virtual. Essas coisas de iTunes, Deezer, Spotify, que são dispositivos que estão na internet para você ouvir música, e o artista vai ser apenas contemplado, vendo sua música se espalhar pelo mundo e não vai passar disso. Você não recebe nada. Meus discos, ao todo 25, estão todos nessas redes. As gravadoras que fizeram esses discos, apenas elas recebem, porque os contratos feitos na época, garantem todos os direitos somente para elas. O iTunes leva uma grande fatia do bolo; a Apple, que faz os aparelhinhos, leva outra grande fatia; a terceira fatia é das gravadoras; o que sobra no prato, que são os farelos, é do artista.

NORDESTE: Você disse que quando você veio para João Pessoa ainda jovem, foi a música popular que te instigou a virar músico. O que te toca hoje na música popular brasileira? O que você acha da música feita no Brasil hoje?
Zé Ramalho:
Eu não gosto de falar mal de ninguém. Muito menos de colegas da minha profissão. Porém, a culpa – vou usar a palavra culpa – não é dos artistas. É dos veículos, digamos, rádio e televisão. O que esses veículos passam para a grande população brasileira, é muito pouco, muito pobre, diante de tanta coisa que se tem para ser mostrada. O capitalismo selvagem que impera nessas coisas, não há como controlar. Os governos tem problemas muito maiores para resolver do que com uma coisa que eles chamam de supérfluo, que são as coisas para as pessoas se divertirem: música, shows… mas sem isso a vida ficaria muito mais difícil. Deveria haver, no meu entendimento, apenas o critério de não destruir o que foi feito. Foi banido das rádios a MPB em si, a própria música POP e o rock nacional. Conseguiram tirar tudo. Nas rádios e televisões, hoje, só toca sertanejo. É uma febre tão grande, uma facilidade em instalar esse formato musical… e tem coisas muito boas. Em tudo tem coisas boas e cosias más. O que eu estou dizendo é que não precisava ficar uma coisa unilateral, uma coisa só tocando. Eu me dou muito bem com sertanejo. Procuro me dar bem com todo mundo. Já bati bola com vários deles. Xitãozinho e Xororó, fizemos uma gravação maravilhosa que virou hit nacional, a música Sinônimos. Já gravei música no disco da Paula Fernandes à convite dela. Procuro bater bola com todos os formatos musicais que existem. Música para mim é uma coisa só. Tudo isso me enche dessa certeza, que a música, você tem que ver ela como um todo. Existem timbres e sonoridades diferentes, do que a gente chama de estilos. Porém, você escutar uma coisa só é muito entediante. Não sei até quando vai durar isso. Só sei que no meu tempo, quando nossos discos saíam – quando digo nossos discos, me refiro à geração toda dos discos nordestinos, como da música brasileira – no Rio de Janeiro tinha a Rádio Nacional, que aos sábados, 5h da tarde, todo disco que um artista gravava tinha oportunidade de lançar nesse programa. “FM nacional apresenta, lançamento MPB”. O artista fazia faixa por faixa, explicando e contando a história de cada música. Isso está lá no arquivo deles. Coisa riquíssima. Todo artista fazia isso, era sensacional. Tinha a oportunidade logo depois de lançar seu disco no templo da música brasileira na época que era o Teatro Theresa Rachel, que hoje é o Theatro Net, no shopping Copacabana. Essa sucessão de eventos que a gente participava não existe mais hoje. Os artistas que estão cavando o seu lugar sentem muita dificuldade. É muito difícil hoje em dia. Porque você vai receber, se não um sonoro não, propostas de se encaixar em determinado padrão musical para poder gravar seu disco ou fazer sua carreira. Acho que cada um faz o que quer; porém, o caminho mais difícil é o melhor.

NORDESTE: Gostaria que você falasse um pouco do governo Temer e se você é a favor da volta da Dilma ou da permanência do Temer no governo.
Zé Ramalho:
Muito boa pergunta. A última vez que eu falei de política foi há dois anos atrás e não falo mais. Sabe por quê? Vou lhe dizer: porque em tempos de redes sociais, onde as comunicações estão cada vez mais rápidas, qualquer resposta que eu der para a sua pergunta eu serei apedrejado, xingado, esculhambado por um lado e outro. Isso já aconteceu comigo. E como não é uma coisa que não dá para você controlar… é assim, não interessa a verdade sobre essas coisas. O que interessa é você estar fazendo parte da massa, como digo na minha música. Então eu sinto, de uma forma geral: o artista não depende do artista, assim com o governo não depende de artista nenhum. Porém nós pagamos nossos impostos, eu só tenho apenas um sindicato dos músicos que não faz nada pela categoria e ao mesmo tempo somos considerados supérfluos pelo governo. Não temos aposentadoria, FGTS, não temos nada disso. Só temos nossa bagagem artística. E já vi, desde que comecei, na época dos militares, sou da época do João Figueiredo, o que já vi entrar e sair de governo e nada disso fez mudar minha forma de compor, minha forma de me posicionar diante da vida, porque entra regime, sai regime; entra candidato, sai candidato, a vida segue e o artista fica.

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